Christopher Plummer é um bilionário que se recusa a pagar o resgate do neto em ‘Todo o Dinheiro do Mundo’

A única cena que ainda sobrevive em minha memória a respeito do filme O Preço de Um Resgate, dirigido por Ron Howard, em 1996, é aquela em que o protagonista, interpretado por Mel Gibson, exibe dois milhões de dólares em espécie sobre a bancada de um telejornal que teve sua transmissão interrompida para que ele anunciasse em rede nacional que não pagaria um centavo sequer pelo resgate de seu filho sequestrado. A atitude não era mesquinha, era estratégica: o personagem de Gibson pagaria os dois milhões como recompensa para quem encontrasse o seu filho, fazendo com que o sequestrador fosse procurado não apenas pela polícia, mas também por cidadãos do país inteiro.

Em Todo o Dinheiro do Mundo, Jean Paul Getty, o homem mais rico do planeta, se recusa a pagar o valor de 17 milhões cobrados pelo resgate de seu neto, sequestrado em Roma, no ano de 1973. “Tenho 14 netos. Se eu pagar pelo resgate de um, terei que pagar pelo resgate de outros no futuro”, diz Getty em uma entrevista coletiva. Se sua atitude é também uma decisão estratégica ou não, esse texto, que evita revelações sobre o enredo, adianta apenas a natureza gananciosa de Getty, que trata até a família como um negócio, mas que estima o neto sequestrado mais que todos os outros. Em um flashback que apresenta o momento que Getty reencontra seu filho e conhece netos e nora, a filosofia de vida e a personalidade mesquinha dele  são introduzidas em diálogos e cenários – ao deixar um cômodo onde estão estendidas roupas que ele mesmo lavou por questão de economia, o bilionário encontra a mãe de seu neto o repreendendo por mexer em uma estatueta. Ele a toma nas mãos e começa um relato de como adquirira aquela peça, que ele sabia valer milhões no momento em que a viu, mas que pechinchou por 17 dólares depois que o andarilho que o vendeu cobrou 19. Ele então presenteia o neto com a estatueta de mais de 450 anos apesar dos protestos da mãe devido ao grande valor da peça, e é curioso como este artefato, de aparente grande e pequeno valor ao mesmo tempo, será um simbolo de o quanto Getty realmente está disposto a oferecer pelo bem de sua família.

E é justamente essa a minha compreensão a respeito do sentido do filme: o que as pessoas velem e para quem velem, assim como a relação entre vida e dinheiro. O filme trata a vida como um negócio — quando o despreparado grupo que sequestrou o rapaz vê seu planejamento ruir após falhas displicentes, um segundo grupo assume o sequestro como um investimento. O espectador testemunhará que os personagens que não têm nada a perder se sacrificarão bem mais pelas vidas em jogo do que aqueles que tem muito a oferecer. Notem, por exemplo, como o flime subverte a dinâmica da Síndrome de Estocolmo, quando a vítima de um sequestro desenvolve sentimentos de afeto e apego com os agressores. Aqui é um dos sequestradores que desenvolve afinidade pela vitima e, portanto, se torna decisivo na trama.

Eu esperava um ato final mais coeso, mas nem por isso foi menos revelador. No clímax pode-se testemunhar a natureza dos personagens sendo aprofundadas e apresentadas como em um mosaico revelando sacrifício, entrega, negligência e desprezo pela vida, na mesma medida. As atuações são notáveis: Michele Williams entrega uma mãe de sofrimento contido enquanto Mark Wahlberg faz o que o roteiro lhe permite. Christopher Plummer, cuja indicação eu acreditava ser apenas um reforço simbólico  da condenação contra os assédios que provocaram a substituição de Kevin Spacey por ele no papel de Getty, representa este complexo personagem com tamanha competência que, caso o grande favorito Sam Rockwell não leve a estatueta, talvez bata seu próprio recorde e se mantenha como o mais velho ator a ganhar um Oscar.

Este é mais um episódio da irregular carreira do diretor Ridley Scott, que equilibra a qualidade de seu trabalho no últimos 12 meses com Todo Dinheiro do Mundo após tropeçar em Alien: Covenant. 

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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