Crítica — A Cabana

O sentimento de culpa habita a consciência de Mack desde que ele era uma criança que não conseguia impedir o pai alcoólatra de agredir sua mãe. Quando é incentivado pelo ministro durante um culto a confessar seus pecados, Mack revela em segredo sua impotência e é traído pelo líder religioso que o entrega para seu pai.  Então o menino ganha sua mais terrível surra que também se torna a ultima depois de uma atitude definitiva tomada por ele e que, adivinhem, faria dele um homem culpado pelo resto da vida.

A hipocrisia religiosa, justificativa de muitos que abandonam a igreja, vitimou Mack em sua infância e enfraqueceu suas convicções na vida adulta. No entanto, ele se tornou pai e marido em uma família que é religiosa muito mais pela profunda fé de sua esposa Nan do que por qualquer esforço seu e isso fica claro quando, no culto matinal de domingo, sua família inteira adora a Deus em um cântico enquanto ele permanece calado.

A velha culpa, ainda tão real apesar de escondida, volta a dominá-lo e novamente o faz através de sua família, porém não mais como um filho incapaz de defender a mãe, mas como um pai incapaz de proteger sua filha: Missy, a caçula, desaparece durante um passeio da família no campo aparentemente vitima de um pedófilo.

Anos mais tarde, quando sua família ainda está despedaçada pelo trauma, ele recebe em sua caixa de correio um bilhete assinado por Deus convidando-o para um encontro na cabana onde fora encontrado o vestido rasgado de sua filha que provava a tragédia.

Apesar de cético a principio, ele decide aceitar o convite e ao chegar à cabana descobre que seu encontro é com a trindade, já que Deus (em forma de uma mulher negra), cristo e o Espírito Santo são uma só pessoa. Nessa experiência surreal ele se vê imerso em uma jornada de descoberta, redenção e reconciliação.

A Cabana é a história de alguém que se define fracassado como membro de sua família tanto quando criança como quando adulto. Ao falhar como parte desse todo, Mack sente em seu interior um vazio ainda maior do que a lacuna onde ele não consegue se encaixar. Sua culpa é resultado da sensação de invalidez e inutilidade que têm origem nas decisões equivocadas que tomou quando tentou ser a solução e acabou sendo a maldição de sua família: para libertar sua mãe e a si mesmo das agressões físicas e psicológicas de seu pai, ele cometeu um crime; ao sair para socorrer dois de seus três filhos, ele deixou a mais nova desprotegida e ela foi raptada. Tais consequências alimentam a busca por validar sua existência a ponto de em sua agonia ele aceitar o que parece irreal e assim ele começa a considerar que Deus realmente o está esperando em uma cabana para tratar desses assuntos — É a dinâmica do ser humano que permite, no momento de desespero, a fé que ele antes renunciara ao considerá-la a causa de seu sofrimento.

E como propõe o livro, o filme também apresenta o encontro de Mack com a trindade de maneira impactante e ao mesmo tempo suave.

No que diz respeito as representações físicas da trindade, um mínimo de atenção e sensibilidade já seria o suficiente para o espectador compreender o motivo de em A Cabana Deus assumir a forma de uma mulher, mas aparentemente preocupado em garantir que a mensagem fosse transmitida, o filme revela em um dialogo expositivo que Deus como um homem (pai) não seria bem recebido pelas emoções de alguém com uma experiência paterna tão traumática — Deus se adapta a nossas necessidades para que melhor o compreendamos.  Além disso, esse momento incentiva, tanto em Mack como no espectador, o abandono de qualquer estereótipo.

O Espirito Santo aqui é representado por uma asiática chamada Sarayu. Pode ser que o roteiro tenha tentado evocar através dos traços no rosto dela, a disciplina oriental como ferramenta para simbolizar a paciência com que trabalha o Santo Espírito em sua missão de ser, como caracteriza a bíblia, aquele que consola os homens e os convence de seus erros. E o filme consegue representar esses atributos quando é Sarayu quem enxuga uma lágrima de Mack em um momento que ele chora e mais tarde o convence a voltar para cabana quando ele a abandona em um momento de revolta. “ela sabe ser bem persuasiva” diz Jesus em um momento.

E é Ele, Jesus, quem completa a trindade com seu sorriso sereno e uma calma nos movimentos que transmite a paz necessária para que sua companhia seja agradável e segura principalmente em um dos momentos mais instigantes quando há uma clara referencia bíblica em cena.

Mas antes de tudo isso, logo no inicio da interação, há um momento simbólico. A palavra companheirismo, sinônimo de comunhão, significa comer junto. Do latim “cum panis” (com quem dividimos o pão). Deus está envolvido com o preparo de algo na cozinha desde seu primeiro contato com Mack na cabana e procurei significado para isso até o momento em que tudo fez sentido quando a trindade se reúne com Mack à mesa — esse é primeiro instante de alegria de Mack ao lado da trindade depois de muito a questionar. O momento de comunhão (comer junto) fora planejado e preparado por Deus até que se cumprisse como uma realidade para Mack.

Essa interação tão orgânica pode ser considerada mérito do trabalho de atuação que só deixa a desejar em relação ao protagonista. O ator Sam Worthington tem um rosto inexpressivo demais para um personagem que apresenta tamanha variação emocional e é possível perceber em algumas cenas que o diretor Stuart Hazeldine pensa da mesma forma, pois a maneira como posicionou Sam em cena reforça essa suposição. Notem que nos momentos de maior desespero e tristeza de Mack, sua face fica sempre encoberta de alguma maneira, seja quando chora a perda da filha abraçado e com o rosto enterrado no ombro da esposa, ou quando em um ataque de fúria na cabana a câmera só o enquadra de perfil ou de costas (já no trailer podemos notar esses detalhes). Esse é um caso de sensibilidade quando o diretor consegue omitir o que parece inevitável para que a reação que o filme propõe ao espectador não seja comprometida.

E é importante comentar que esses momentos de melancolia não ameaçam o interesse do publico em permanecer no filme. O filme é suficiente em questão de ritmo, mas se A Cabana fosse vinte minutos mais longo provavelmente eu descreveria seus pontos negativos resumindo-os a palavra “cansativo”. Suspeito que as cenas deletadas (comum em qualquer filme) sejam em sua maioria referentes ao fim do segundo ato e o inicio do terceiro.

Mas acredito que A Cabana conseguiu satisfazer aqueles que terminaram emocionados o livro de Willian P. Young. A missão de transmitir na sétima arte a mensagem espalhada pelo mundo através de um bestseller parece ter sido cumprida.

Assista ao trailer clicando aqui.

rogerio.jr.noticiaurbana@gmail.com

Em cartaz31 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

0 Comments

Leave a Comment

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Don't have account. Register

Lost Password

Register

Likes