Crítica — Annabelle 2: A Criação do Mal

Multiplicar filmes em uma franquia depois que o primeiro dá certo nas bilheterias deixou de ser a única solução encontrada pelos estúdios para manter o público pagando para ver uma historia familiar nos cinemas. Hollywood descobriu que crescer para os lados é tão lucrativo quanto crescer para cima, e assim começou a produzir filmes independentes que compartilham o mesmo universo de outras franquias bem sucedidas. A boneca Annabelle precisou só de vinte segundos e apenas metade de seu rosto exibido na cena de abertura de Invocação do Mal (além de mais uma breve aparição no fim) para se tornar a identidade visual daquele filme.  Logo um capítulo que tratasse apenas de sua história se tornou conveniente e, quando acabou por se transformar em outro fenômeno de bilheteria, outro capitulo para apresentar sua origem se tornou uma urgência.

Assim, Annabelle 2: A Criação do Mal chega não apenas para revelar onde e quando surge a boneca amaldiçoada, mas, cronologicamente, chega para ser o ponto de partida do universo ao qual faz parte.

E neste novo momento do universo sombrio criado sob a direção de James Wan, que aqui participa apenas como produtor, o conceito de criação é reforçado através do trabalho de fotografia e da composição de personagem quando, na sequência de abertura, cenas minuciosas revelam a confecção da primeira de uma série de cem bonecas produzidas por Samuel Mullins, um fabricante de brinquedos. O espectador descobrirá que ele é não só o responsável pela criação dos aspectos físicos de Annabelle através do trabalho de suas mãos, como também participa do que há de espiritual nela através de suas decisões, que são motivadas pelas emoções.

Depois que sua filha morre em um acidente ele aceita abrigar em sua casa meninas de um orfanato acompanhadas de uma freira. A partir de então as descobertas que fazemos acontecem através do ponto de vista de Janice, uma das órfãs. Ela sofre de uma doença que compromete o movimento de uma das pernas, obrigando-a a usar uma muleta. Neste ponto encontramos o que me pareceu ser a única conveniência inconfundível do roteiro para criar tensão, já que só em descobrir essa deficiência da menina o espectador já prevê a dificuldade de locomoção durante uma fuga. Alem disso temos as convenções de gênero, que por serem bem executadas não permitem que clichês comprometam o envolvimento do publico — o perigo está atrás de uma porta trancada e de acesso proibido, corredores e escadas são longos e escuros, o espectador percebe vultos passando pelo personagem enquanto ele está distraído e o som trabalha sempre para manipular as expectativas de perigo.

Apesar de não apresentar inovação alguma para o gênero, Annabelle 2 , a exemplo do primeiro filme, evita algumas semelhanças com Invocação do Mal. Aqui os personagens são amaldiçoados não por fantasmas de antigos moradores da casa onde vivem agora, mas por circunstancias que tem origens em conflitos contemporâneos aos vivos. As soluções que o filme traz tanto para seu próprio desenvolvimento quanto para o encaixe no filme seguinte da série são aceitáveis. E mesmo não conseguindo evitar uma dinâmica de Invocação do Mal, quando a vítima é feita ameaça pelas forças malignas, o filme o faz com sutileza e a serviço da coerência para justificar fatos ocorridos no futuro do universo.

Aparentemente investindo em uma diversidade de personagens que não aconteceu no primeiro filme, Annabelle 2 tem uma representante da igreja o tempo todo presente na mesma casa onde cinco meninas órfãs estão hospedadas, e o fato de ela ser uma freira pode ser uma pista a respeito do que está por vir em uma nova vertente do universo — Especula-se que A Freira já tem data de lançamento marcada para uma sexta feira treze de 2018.

Não tão instigante quanto Invocação do Mal, mas certamente mais envolvente que o primeiro filme, Annabelle 2 dá alguma satisfação ao espectador a respeito da boneca que, em poucas cenas, já havia roubado a cena e sugerido um espaço maior para si no universo assombrado por demônios iniciado em 2013. Consegue assustar e surpreender mais ao revelar como o ser humano, por motivações tão humanas, é capaz de se render à ilusão pela ilusão.

Não deixem a sala antes das cenas pós-créditos. Vale a pena.

Trailer

Em cartaz35 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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