Critica — Atômica

Na critica de hoje eu preciso abrir mão de rodeios e ir direto ao ponto para comentar o que há de melhor em Atômica, filme do diretor estreante David Leitch, tentando assim fazer com que esse texto rime com a clareza e objetividade das sequências de ação, principalmente as do terceiro ato e clímax do filme.

Diferente do que Atomica oferece, os filmes de ação com uma construção preguiçosa ou ansiosa geralmente desprezam o interesse do espectador em compreender as cenas de combate e subestima sua inteligência com absurdos, acabando por o incomodar e o entediar  durante a sessão. São movimentos incoerentes, golpes falsos (dentro do propósito de parecer verdadeiros), consequências improváveis, diálogos desnecessários entre um ataque e outro, além da convenção de montagem dos filmes de ação em executar cortes excessivos tornando os planos rápidos demais em tela para provocar uma sensação dinâmica no espectador, o que na maioria das vezes acaba apenas por confundi-lo quando ele tenta descobrir quem ta batendo ou apanhando em cena.

Mas no filme protagonizado com excelência por Charlize Theron, que vive uma agente da MI6 (serviço secreto britânico) enviada a Berlim no fim da Guerra Fria para investigar a morte de outro agente e recuperar um documento importante, a direção coloca o espectador dentro da ação de maneira realista ao não se limitar, por exemplo, a apenas circular a câmera em torno da luta, mas a atravessa entre os personagens em combate. Isso em um plano sequência de vários minutos que demora tempo suficiente em cada enquadramento para permitir que o espectador interprete a motivação e consequência de cada movimento. Quanto ao realismo, os feridos sangram, agressor e agredido ficam exaustos e qualquer objeto ao redor pode virar arma nas mãos dos envolvidos.

É uma pena que a execução narrativa não tenha a mesma clareza e objetividade, pois toda a historia, que é muito simples, acaba sendo contada de maneira complexa, com confusos flashbacks dentro de flashbacks. Mas um expectador com um mínimo de atenção e interesse no filme irá perdoar qualquer manobra desnecessária de um filme que capricha nos aspectos técnicos. O que há de visual e sonoro no filme é visceral — as cores no neon das luzes e a trilha sonora recriam a atmosfera da década de 80, inconfundível em qualquer lugar do mundo. As legendas que descrevem lugares e ocasiões são grafadas em tela em estilo grafite, provavelmente rimando com as pichações do muro de Berlim, prestes a cair enquanto a trama se desenrolava. Algumas músicas alternam de sons incidentes para diegéticos e vice versa em vários momentos, o que contribui para um ritmo fluido e orgânico.

O resultado de um filme dirigido por alguém que foi a vida inteira dublê em cenas de ação só poderia ser mesmo um espetáculo em fisicalidade e vivacidade durante as sequencias de luta. É como assistir a um perfeito trabalho de câmera e luzes em um filme conduzido por um ex-diretor de fotografia. Na véspera do lançamento de Atomica, assisti a John Wick: De Volta ao Jogo, filme co-dirigido por David Leitch (esta é sua estreia em direção solo). Lá notei um certo zelo pela coerência e eficiência nas cenas de ação e por isso já espera algo do tipo em Atomica.

Para quem não sabe, ele será o diretor de Deadpool 2.

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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