Crítica — Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola

Em março deste ano, Danilo Gentili foi o convidado de Otavio Mesquita em um dos quadros de seu programa no SBT, o Rolê, momento em que ambos embarcaram em uma moto para visitar diferentes pontos da cidade enquanto a entrevista acontecia. Um dos destinos foi a escola onde o humorista e também apresentador estudou na adolescência (não exatamente uma daquelas onde ele foi expulso ou  recebeu sessenta e quatro advertências e seis suspensões). Depois de visitar a sala onde estudava e de encontrar uma antiga professora, o Danilo foi surpreendido no auditório onde, na primeira fila de um público repleto de jovens estudantes que o aplaudiu em sua entrada, estavam seus antigos colegas de turma.  Depois de abraçar um por um, pegou o microfone e, sentindo-se a vontade como em uma de suas apresentações de Stand Up, quando os espectadores da primeira fila geralmente são as maiores vitimas das piadas do humorista, disse: “hoje temos uma lição a aprender: todos eles (apontou para os antigos colegas) estudavam muito e eu não. Vocês estão me aplaudindo. Obrigado pessoal”.

Talvez não fosse nem preciso testemunhar um momento como esse para deduzirmos que o filme Como Se Tornar o Pior Aluno da Escola, roteirizado pelo ex-repórter do CQC com base em seu livro de mesmo nome, simboliza sua própria experiência como alguém que conseguiu o sucesso mesmo depois de ter sido um péssimo aluno e de ter desdenhado do modelo de progresso imposto pelas instituições de ensino. Por mais que ele negue, como declarou em uma entrevista a Fabio Porchat nas vésperas do lançamento do filme, é inevitável compreender, pelo menos em parte, o filme como um recorte de sua biografia.

Ele nos conta a história de um aluno a beira do fracasso que encontra uma caixa escondida no banheiro da escola contendo, entre outras bugigangas, um manual de como se tornar o pior aluno da escola. Em meio a tantas lições está a pérola que Pedro precisa para não terminar o ano no fundo do poço: técnicas infalíveis de como colar nas provas. Ele então pede a companhia de Bernardo, seu melhor amigo, para tentar encontrar o autor do manual, que se tornou um homem bem sucedido apesar de sua negligente jornada de estudante. O filme se desenvolve com o personagem de Danilo Gentili se tornando o mentor dos meninos ao ensiná-los a colocar a escola de pernas para o ar ao mesmo tempo em que os instrui a como se safar nas provas.

Os realizadores do filme apostaram na presença de figuras marcantes do humor como o ícone Carlos Villagrán (o Quico do Chaves), interpretando o diretor da escola com seu característico humor físico de gestos expansivos; Rogério Skylab, que nos provoca risos apenas com a encarada silenciosa e sonsa do professor de história que interpreta; e Moacyr Franco, que rouba a cena dando vida a um zelador desbocado, insolente e traiçoeiro. A escalação desses atores me pareceu muito mais uma estratégia para sustentar o filme caso seu tema polêmico não funcionasse do que uma tentativa natural de formar um bom elenco. E entenda tema polêmico da maneira mais diversa que conseguir, pois o roteiro faz piada de uma maneira explícita com pedofilia e resgata a condenada prática de bullying. Nem Chico Xavier escapou quando o filme decidiu fazer piada com sua prática de psicografia.

No que há de positivo no que diz respeito a técnica do filme, podemos citar sua montagem de cortes rápidos em momentos que confere um ritmo dinâmico a historia, o que é apenas importante para um filme que pretenda dar movimento a sua trama enquanto é obrigatório para o gênero de humor onde a mente por traz desse filme tem origem, o Stand Up Comedy: os artistas da comédia em pé sabem que o timing, assim como a fisicalidade e expressividade do humorista tem o poder até de salvar uma piada sem graça, não se permitindo nunca cometer o pecado de deixar seu público entediado durante uma sessão de humor.

Mas não pensem que Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é um filme preocupado com convenções artísticas e ansioso por receptividade, pelo contrário, às vezes o filme parece querer desagradar propositalmente, e o desdém tem um endereço especifico: críticos e conservadores. Esse é mais um sinal de que a obra é um reflexo da vida de seu principal realizador, pois ele lida de maneira desinteressada com ataques e opiniões contrárias e às vezes até as admira, como quando reagiu a uma esnobada que Pedro Biau deu nele nas vésperas da estréia de seu programa na Globo. Gentili critica uma sociedade onde todos devem agradar a todos e essa sua defesa de opiniões ácidas e explicitas lhe causou problemas para começar seu Talk Show porque os convidados temiam sua acidez nas perguntas. A solução encontrada por ele foi visitá-los no camarim antes do programa e incentivá-los a fazer piadas que o denegrissem. E assim é. Em seu programa ele não é respeitado por ninguém, cumprindo o “Anti Talk Show” que ele tanto desejava ter, que andasse na contramão da erudição padronizada pelo programa do Jô onde ele era mais respeitado que os convidados. Se seu filme não der certo, ele irá rir de si mesmo e fazer piada com seus problemas (assim como seu personagem recomenda a seus jovens pupilos no filme). Mas o defensor do humor sem limites, que se considera alguém com licença para matar depois de fazer piada com sua própria mãe e com a irmã morta, irá comemorar se as piadas polêmicas de seu filme funcionarem, incentivando assim a continuação que ele planeja.

Como se Tornar o Pior Aluno da Escola é um filme que tem sua medida de insanidade, estupidez e até maldade, mas é corajoso e autêntico até a raiz. Ostenta como fórmula de sucesso o que o mundo convencional e politicamente correto acusa de comportamento de um futuro fracassado. O perigo dessa mensagem está em o espectador ignorar o fato de que vencer na vida mesmo sendo alguém indisciplinado não é para todos.

Podemos dizer que Danilo Gentili fez a arte imitar sua vida, mas nem todo mundo pode imitar em suas vidas, a arte dele.

Assita ao trailer do filme clicando aqui

Em cartaz46 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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