Crítica —Fragmentado

Ano passado, um curioso caso médico virou notícia na internet: uma mulher cega há mais de dez anos devido a um grave acidente e que também sofria de transtorno de personalidade, voltava a enxergar sempre que uma de suas dez identidades se manifestava. Assim os médicos concluíram que um distúrbio mental pode interferir na estrutura física e fisiológica de uma pessoa.

Décadas antes desse caso, o americano Billy Milligan sequestrou e violentou três mulheres agindo com uma identidade diferente para cada uma delas. Ele tinha ao todo 24 personalidades que foram dominadas pelas três que cometeram os crimes.

Os principais elementos na sinopse do filme que iremos discutir hoje estão presentes em ambos os casos e muito antes deste, outros filmes que apresentaram protagonistas que sofrem de Transtorno Dissociativo de Identidade (múltiplas personalidades) já foram feitos. Não irei mencionar nenhum aqui, pois só em citar qualquer um desses títulos eu já estaria dando um grande spoiler ao leitor, visto que nesses filmes os conflitos que o protagonista enfrenta durante toda historia são causados por ele mesmo agindo através de uma segunda identidade que ele (e o espectador) só descobre ter no final do filme.

Mas em Fragmentado, novo trabalho de M. NIght Shayamalan (mesmo diretor de O Sexto Sentido), todos os envolvidos no filme, a começar pelo espectador, já sabem que o personagem central sofre desse distúrbio, o que provoca em nós a curiosidade de saber como o roteiro lidará com os conflitos.

Três jovens são raptadas e mantidas em cativeiro por um homem que elas pensam estar acompanhado até descobrirem que na verdade ele age sozinho, mas tem múltiplas personalidades. Se trata de Kevin Crumb, que desenvolveu o distúrbio aos três anos devido a um trauma provocado por sua severa mãe. As 23 personalidades que ele possui convivem bem e ocupam alternadamente “a luz” (expressão usada pelo filme para descrever o momento em que cada uma delas assume as atitudes) até um colapso causar o monopólio de três delas: Dennis, Patricia e Hedwig( uma criança de 9 anos). Eles se tornam extremistas em relação ao lugar de todas essas personalidades não apenas em Kevim, mas no mundo e acabam por traçar planos insanos que geram a origem de uma bizarra vigésima quarta personalidade — uma besta a quem eles pretendem sacrificar as três jovens.

Em um filme onde o grande vilão são os distúrbios da mente humana, nada mais compreensível que um psicólogo ser o herói. A doutora Karen Fletcher usa suas habilidades para manipular a mente de seu paciente quando este tenta manipular e ludibriar a dela e assim ela usa de toda sua sutileza para descobrir o que parece tramar as personalidades que ela trata. Tão fundamental quanto ela é Cassey, uma das jovens sequestradas e que, com os talentos justificados pelos flashbacks que o filme intercala na narrativa, é atenta aos mínimos detalhes que seu malfeitor apresenta e que pode ajudar a libertá-la.

Como em Corpo Fechado, outro filme do diretor Shyamalan, o surreal e o absurdo são inseridos de uma maneira tão sutil que o espectador não consegue notar, de tão tênue, a linha que separa o momento quando o irreal invade o real, sempre com muita verossimilhança apesar de bizarro.

E uma das coisas que provam isso é o fato da besta ser apresentada de uma maneira tão enigmática e com insuficiência de detalhes ao longo da trama (apesar de bem construída) que vai se tornando aceitável.

Então a mensagem de o que a mente pode fazer quando acredita em algo começa a ganhar seus contornos. Shyamalan nos mostra um personagem obsecado por sua convicção insana a ponto de tornar real aquilo que só ele através de sua crença é capaz.

Fragmentado é envolvente ao nos entregar personagens em que a vida maltratou. Feridas essas que os amaldiçoou e absolveu cada um em sua devida circunstancia. É também sutil e preciso ao nos apresentar o trabalho meticuloso daquele que salva aqueles condenados em seu inferno mental: O psicólogo. Mistura os universos os levando a interagir bem mais que estáticos em uma sala da consulta, os leva para rua, para casa, para os lugares sombrios, insondáveis e inimagináveis presentes nesse filme.

O Shyamalan  de O sexto sentido e Corpo Fechado parece ter voltado. Espero que tenha voltado pra ficar.

rogerio.jr.noticiaurbana@gmail.com

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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