Crítica — O Estranho Que Nós Amamos

Em 1971, ano em que a primeira versão de O Estranho Que Nós Amamos foi lançada no cinema trazendo Clint Eastwood no papel principal, a diretora Sofia Coppola era uma recém-nascida interpretando o bebê da famosa sequência do batismo em O Poderoso Chefão, lançado no ano seguinte. Assim, filme e diretora nasceram juntos em uma época que ainda era possível ouvir ecos das vozes que gritavam nos movimentos feministas iniciados na efervescente década anterior. Desde então, a história de um soldado ferido que acaba encontrando refúgio em um internato para mulheres onde as seduz, mas é manipulado por elas esperou mais de 40 anos para ser contada em uma versão conduzida por mãos femininas.

Alguém pode até contestar que o filme propõe uma reflexão a respeito do empoderamento feminino, pois o roteiro pouco difere da versão original que foi concebida por mentes masculinas a partir de um livro escrito por outro homem em uma época em que direitos iguais ainda estavam sendo disputados pelas mulheres. Mas talvez acidentalmente o roteiro permita um mínimo dessa leitura, já que neste filme as mulheres são independentes e corajosas quando parecem frágeis e indefesas; são dominadoras e decididas quando parecem vulneráveis e suscetíveis a lábia sedutora de um conquistador; e são  frias e calculistas quando parecem instáveis e emotivas. Agora com uma mulher na direção orientando a percepção do espectador, essas sutilezas se tornarão mais nítidas.

Mas como toda boa arte, o cinema oferece ótimas ferramentas para quem o realiza criar um cenário de diversas interpretações — acreditem, o filme também pode ser considerado misógino por apresentar mulheres que podem ser consideradas odiadas e odiáveis de acordo com uma série de eventos.

O Estranho Que Nós Amamos tem a Guerra Civil Americana como pano de fundo e é bem ao fundo mesmo que ela acontece, pois desse conflito só vemos uma tímida fumaça atrás da verde paisagem em um breve momento, limitando a historia a acontecer dentro de um internato criando assim uma atmosfera de confinamento. O filme começa do lado de fora da propriedade quando a pequena Amy traz para casa John, um ferido soldado das tropas inimigas que fora encontrado durante sua coleta de cogumelos no bosque. A partir daí o filme não sai mais dos interiores do internato e esse movimento de fora para dentro que o longa faz para estabelecer sua perspectiva posiciona em John o ponto de vista que fará o espectador descobrir os cenários e o restante dos personagens da história. Quando o inimigo chega é possível ouvir o murmúrio de protestos de algumas que é logo censurado por Martha, matriarca que ordena para o levarem até um dos aposentos a fim de curá-lo antes de entregá-lo para as autoridades — é o que um bom cristão faria, diz uma das entusiastas pela presença do estranho.

Durante sua recuperação ele suspeita que sua presença altera a rotina das moças em sua maneira de se vestir e de se comportar, iniciando um processo sedutor que satisfaz cada uma de acordo com o que elas precisam — o reconhecimento ao talento de uma, um toque intenso naquela com maior apelo sexual, ouvidos atentos e promessas a mais carente e sonhadora. Então o filme começa a ganhar uma pegada ambígua e desproporcional a respeito das percepções dos envolvidos: enquanto sua presença na casa o faz pensar cada vez mais na guerra que ainda acontece lá fora, desde que ele chegou a guerra fica cada vez mais esquecida por elas, e não temos mais certeza se John é um prisioneiro, hóspede, paciente ou soberano de um harém. Logo estar dividido entre elas e por elas lhe trará mais problemas que soluções.

Apesar dos diversos significados que esse filme pode proporcionar, uma me parece incontestável: As limitações de uma guerra, ou qualquer adversidade com a mesma natureza de conflito e privação, expõem de uma maneira intensa e inconsequente os instintos humanos mais discretos. Submetido à tamanha provação, o raciocínio é usado sem a razão e ignora o bom senso a serviço apenas das necessidades individuais. A guerra, que já havia imposto uma reclusão aquelas mulheres de viverem nos limites de uma propriedade onde deveriam trabalhar por seu sustento e segurança, penetrou em seu convívio através de um sedutor soldado ferido no conflito para provocar uma guerra silenciosa e psicológica, mas longe de ser fria.

Sofia Coppola, premiada em Cannes esse ano por seu trabalho na direção deste filme, nos reapresenta uma jornada de desconstrução e reconstrução da unidade de um grupo de mulheres isoladas por uma guerra sangrenta: ao vislumbrar a possibilidade de John ser o homem de apenas uma a união entre elas se fragmentou. Mas ao constatar que ele não seria de ninguém a união foi reestabelecida e um julgamento a seu respeito foi retomado. E com uma figura masculina talvez propositalmente enfraquecida pela diretora na escolha do elenco ao escalar Colin Farrell para o papel, alguém que esta longe do estereótipo de macho alfa ostentado durante gerações por Clint Eastwood, a diretora nos reapresenta a historia de um homem que ao fazer dos desejos e necessidades das mulheres uma estratégia de guerra, acabou trazendo para si mesmo mais sofrimento como refugiado do que como combate no fogo cruzado.

Assista ao trailer clicando aqui

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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