Crítica — O Filme da Minha Vida

Quando esconder uma verdade é um sacrifício de alguém para o bem de todos ao mesmo tempo em que outra pessoa esconde essa mesma verdade só que em benéfico de si mesma e sacrifica assim a felicidade alheia, descobrimos que solidariedade e egoísmo podem usar exatamente a mesma ferramenta para conquistar seus objetivos. O diretor Selton Mello anda contando nos cinemas quem é quem nessa dinâmica em O Filme da Minha Vida, uma poesia visual que, antes de qualquer coisa, nos apresenta Tony Terranova quando ele volta para casa depois de uma temporada de estudos na capital exatamente no dia que seu pai abandona a família e vai para frança, seu país de origem. Enquanto convive com as dúvidas a respeito da misteriosa partida de seu pai, ele embarca em uma jornada de descobertas emocionais, sentimentais e sexuais.

Esse embarque é literal. Uma das figuras centrais desse filme é o trem que leva e traz os mais importantes personagens em suas viagens sob o olhar curioso, discreto e misterioso do maquinista.  Ele é quem conduz as pessoas pelos caminhos que decidem tomar e sua presença reforça a natureza de um filme feito de decisões, segredos e descobertas. Paco, amigo de Tony, o acompanha em uma dessas viagens para fora da cidade e para dentro de si mesmo, mas não exatamente como uma figura otimista. Ele o encoraja a esquecer seu pai e manter os pés no chão, sempre usando metáforas sóbrias para ilustrar seu ponto de vista realista.

E como o título do filme sugere, é em uma sessão de cinema que as descobertas mais importantes da vida do protagonista convergem. É na circunstância da exibição de Rio Vermelho, protagonizado por Jhon Wayne em 1948que ele vai ao encontro do amor, da paixão e da arte. Sob protesto de Paco, que considera o cinema uma perda de tempo quando se desperdiça duas horas da vida enquanto se pode fazer algo mais produtivo, Tony entra no cinema. É durante a “perda de duas horas de sua vida” que Tony ganha a sua própria vida. Um momento de sutileza em que a direção e o roteiro celebram a sétima arte como parte fundamental da vida de alguém.

O espectador que assistiu a Rio vermelho perceberá algumas ligações temáticas entre os filmes, pois nada é por acaso nesta obra de arte de Selton Mello. Tudo parece ter sido muito bem planejado e a linguagem cinematográfica vibra na tela. Ele manipula luzes, sombras e reflexos de uma maneira sedutora no bom trabalho de fotografia que está a serviço do bom trabalho de direção de arte: sem ansiedade, os planos duram em tela o tempo suficiente para o espectador apreciar os belos cenários construídos para recriar a atmosfera de uma cidade de interior da década de 60 — o charme da arquitetura e dos interiores das residências, a moda que vestiu com elegância seus cidadãos, assim como os transportes: temos a bicicleta com closes nas pedaladas de Tony, a composição do trem que parece desfilar sobre os trilhos, a moto que estabelece o que parece ser a única ligação física que restou entre Tony e seu pai, além de carros estacionados para que os vejamos com mais atenção. Tudo a serviço de uma captura atenta pelos olhos do espectador, a fim de penetrá-lo naquele universo e envolvê-lo ainda mais na historia a ser contada. Até nos closes mais fechados pode-se ver muito: reparem, por exemplo, em um momento quando Tony vê umas fotografias. Sob suas mãos que seguram as fotos e tem entre os dedos um cigarro, vemos um livro de Monteiro Lobato aberto ao lado de um cinzeiro e, coberta por esse primeiro plano, está uma máquina de escrever. Um corte para um plano mais aberto em outra perspectiva desse mesmo cenário reforça tamanha informação visual.

No prefácio de Um Pai de Cinema, livro que inspirou O Filme da Minha Vida, Selton Mello escreve que respondeu com imagens e sons aos sentimentos mais puros que o livro lhe inspirou. O resultado de seu trabalho confirma a profundidade dessa inspiração, pois especialmente esses dois recursos (os sons e manipulação da imagem com luzes, cores e perspectiva) revelam a profundidade do filme, principalmente no que diz respeito à personalidade e estado emocional dos personagens. Confira como o diretor representa, usando o clima e o posicionamento do personagem em cena, seu momento de solidão e pensamentos confusos quando ele está isolado no quintal envolto por uma neblina que contrasta com a atmosfera clara e iluminada que o restante do filme apresenta em momentos felizes e de certezas. Ou quando ele põe o protagonista para correr durante uma noite de tempestade para assim rimar com seu tumulto emocional causado por uma descoberta obscura que ele acabou de fazer e que o atormenta. Ainda temos o vermelho preenchendo os ambientes e colorindo o figurino de uma personagem passional e cheia de apelo sexual, além de, em um momento depressivo e de desabafo, outro personagem ter sua imagem enquadrada pela metade e posicionada no canto do plano, simbolizando alguém solitário e incompleto. Mais visceral ainda, em um dos momentos mais poéticos do filme, é quando uma brisa sopra levitando folhas secas insinuando a leveza de espírito de um personagem durante seu devaneio quando ele vislumbra os movimentos em uma coreografia executados na quadra da escola pela moça por quem ele está apaixonado. — vale observar aqui a provável referência que o diretor faz nesse momento ao filme Beleza Americana.

O Filme da Minha Vida é uma ode às expressões artísticas. Em uma cena ou outra encontramos fotografias, livros, musica, dança e… filmes. O longa homenageia o cinema e honra o fazer cinema, pois ali encontramos a técnica sendo executada com zelo. É curioso como os realizadores conseguiram, em tão pouco tempo de filme, usar tantos recursos que colaboraram para torná-lo tão elegante: o raccord sonoro, técnica que emenda um som do fim de uma cena com um  som parecido no inicio de outra, surge quando uma risada emenda o riscar de um fósforo durante o segundo ato do filme. Encontramos também a técnica de foreshadowing, que apresenta, no inicio da história, uma pista a respeito do final (aqui essa pista sinaliza a maior revelação do filme). E os flashbacks, que não aparecem de maneira infundada, mas há sempre um lugar ou um objeto como gatilho para disparar a lembrança na mente dos personagens — a personalidade atenciosa e sempre presente do pai (Vicent Cassel em uma atuação que expressa tanto com tão pouco) exibida nos flashbacks intrigará ainda mais o espectador a respeito dos motivos que o fez abandonar a família repentinamente.

“Imaginar é o que mais gosto de fazer no mundo”, diz uma personagem em um momento especifico. O Filme da Minha Vida é um convite à imaginação sem limites para transformar o espectador em coautor desta obra. E falando em colaboração, o autor do livro que inspirou o filme, o chileno Antonio Skármeta, aparece em uma ponta no filme para um momento simbólico quando seu personagem faz um brinde com Paco, personagem de Selton Mello — diretor e escritor, as mentes brilhantes  por trás desta obra de arte celebrando-a com brinde.

Assista ao trailer do filme clicando aqui

Em cartaz31 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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