Crítica – Terra Selvagem

Na cena de abertura de Terra Selvagem uma adolescente corre ferida e descalça na neve durante a noite, aparentemente fugindo de alguém enquanto uma voz em off, supostamente da menina, narra uma declaração em tom poético destinado a uma pessoa que ainda não sabemos de quem se trata.  depois desse prólogo, que também é a primeira parte de um Flashback, o filme definitivamente começa nos apresentando Cory, um caçador de predadores que durante uma missão acaba encontrando o corpo da menina, que é descendente de nativos americanos. Por uma infeliz coincidência, ele também perdera uma filha da mesma idade da tal moça em circunstâncias parecidas.

Apesar de praticamente todo o filme apresentar a investigação que busca encontrar o assassino, eu não classificaria Terra Selvagem como um filme de suspense, mas um drama que usa o caso de homicídio para explorar a natureza de seus personagens, incluindo a agente do FBI, Jane Banner, que desde sua aparição na trama demonstra um misto de ingenuidade e coragem – ela parece perdida ao chegar no território onde irá trabalhar e, se não fosse a intervenção dos experientes residentes do local, entraria em uma nevasca usando apenas um casaco. Todas as suas decisões são fundamentais para o avanço da trama, mas nenhuma delas foi tão importante quanto manter Cory por perto assim que constatou sua perspicácia e segurança para lidar com a situação.

A atuação de Jeremy Renner como Cory nos convence de um personagem sem ansiedades para lidar com qualquer coisa na vida. É como se seu luto o anestesiasse a ponto de estreitar seu interesse apenas para o que fosse realmente necessário em sua vida. Mesmo quando aceita colaborar com a investigação não encontramos sinais de alguém movido pelo ódio ou vingança ao aceitar a causa por ter já sentido na pela algo parecido, apesar de notarmos seu envolvimento pessoal ao lidar coma  situação. Na verdade são poucas as vezes que notamos suas emoções oscilarem durante a história, o que funciona como contraponto para o comportamento inquieto de Jane.

Mas como contraponto a presença de Cory funciona bem mais em relação a Martim, pai da vitima. Ele é alguém que se mostra emocionalmente estável após a morte da filha em seu diálogo com Jane, mas quando encontra Cory, desaba em um choro dramático que pontua um dos momentos mais tocantes do filme. A amizade e a empatia de ambos explicam a nudez emocional repentina de Martim.

E Assim o espectador é pego pelo roteiro: cena a cena, personagem a personagem. O fato pouco importa, vale mesmo é conferir como as partes reagem ao fato e como o fato é provocado pelas partes- o que intrigará o espectador são as causas e efeitos dos eventos.

O roteiro cuida para expor o tema em duas perspectivas ao apresentar o mesmo drama em duas famílias diferentes e em tempos diferentes. O luto de Cory é uma sombra, apenas sentimos sua invisível presença enquanto a de Martim é nítida. Rimando com essa dinâmica estão os princípios formais de similaridade e repetição do filme e podemos notá-los no figurino das vitimas; na simetria que há em duas cenas de perigo quando a policia bate a porta de suspeitos; nas rimas que há entre o fato de Cory ser um caçador de predadores que caçará criminosos, além do fato de as vitimas terem sido “caçadas” por seus algozes; e principalmente pela linda simetria nas duas sequências finais do filme, sua coerência tanto em relação uma com a outra quanto em relação a toda a narrativa.

Terra Selvagem apresenta um exercício narrativo e temático eficientes e suficientes. Seu ritmo permite o espectador sentir os personagens e apreciar tudo que em cena contribui para a construção da história.

 

Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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