Crítica — Valerian e a Cidade dos Mil Planetas

Quando, na sequência inicial de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas, David Bowie cantou Space Oddity enquanto as cenas narravam a evolução de uma mera estação espacial da década de 70 para uma comunidade composta por milhões de indivíduos de diferentes espécies da galáxia décadas mais tarde, a mensagem de integração e tolerância já estava sendo entregue ao espectador de uma maneira sutil e sem o esforço de diálogos, mas construída com música, encontros e cumprimentos.

Agora chamada de cidade Alpha, essa comunidade corre o risco de ser destruída por forças malignas que também ameaçam o restante do universo.  Valerian e Laureline são agentes de operações especiais convocados pelo Governo dos Territórios Humanos para tentar impedir essa ameaça.

A ópera espacial de Luc Besson, mesmo diretor do ótimo O Quinto Elemento, não conseguiria manter a qualidade dos minutos iniciais, mas não exatamente porque se tornou um filme dispensável ao longo de seu desenvolvimento e sim porque aparentemente não soube administrar os excessos, a começar pela dupla que protagonizou o filme. E mais uma vez não julgo que o problema foi exatamente a deficiência nas atuações de Dane DaHaan e Cara Delevigne, mas talvez a escolha deles para os papeis, que exigia de ambos uma química que não aconteceu.

 Valerian é baseada em uma série de quadrinhos francesa publicada desde a década de 60 e faz parte da infância do diretor Luc Besson. Em entrevistas ele revelou o quanto a realização deste filme era importante para ele, que assina o roteiro, a direção e a produção. Uma realização tão soberana pode ser a causa de sucesso ou fracasso de uma obra. Tudo bem que discordo quando um roteiro é dado a muitas mãos para ser escrito, mas quando o artista não tem quem limite sua imaginação e aquiete suas ansiedades o resultado pode acabar incoerente.

Foi assim que o filme adquiriu os excessos que poderiam ter sido evitados. O filme é longo justamente por tudo que não precisava estar lá. Observem, por exemplo, a participação da personagem da cantora Rihanna na historia. Entendo a importância de sua presença no filme para fins de marketing, mas não narrativos — se retiradas todas as cenas em que ela aparece, o filme não sofreria prejuízo nenhum e terminaria, pelo menos, uns 20 minutos mais cedo.

Os efeitos visuais têm uma qualidade inquestionável. A sequência onde os personagens perambulam por um deserto munidos de luvas e óculos que os possibilitem ver e tocar objetos de um mercado em outra dimensão está entre os momentos louváveis do filme.

O final é obvio, principalmente em se tratando da subtrama do filme. Clive Owen se esforça para dar a consistência que seu personagem precisa para que o clímax seja aceitável, mas o roteiro não o ajuda em nada.

Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é um filme que precisa ser visto. Alias, acho que todo filme deve ser assistido mesmo sendo ruim (principalmente por aqueles que querem aprender sobre linguagem cinematográfica, para que o contra exemplo seja considerado). Valerian é um filme cheio de boas intenções não apenas temáticas como também técnicas e emocionais — condena a intolerância, pretende trabalhar a montagem os efeitos especiais para criar tensão e exuberância visual, e é um filme que tem seu embrião na infância de uma criança da década de 70 que lia quadrinhos (Valerian é um sonho realizado do diretor Luc Besson). Mas sua execução acabou não estando a altura de tudo aquilo que foi como sonho de um artista e expectativa de seu publico.

Assista ao trailer clicando aqui

Em cartaz28 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

0 Comments

Leave a Comment

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Don't have account. Register

Lost Password

Register

Likes