Homem-Aranha: De Volta ao Lar — Crítica

Spoilers

Um capítulo teen do universo cinematográfico da Marvel está em exibição nos cinemas. Mas Homem-Aranha: De Volta ao Lar é um filme que começou bem antes de seu lançamento, quando em Capitão America: Guerra Civil Peter Parker chegou da escola e encontrou sua tia May fazendo sala para o senhor Stark enquanto o esperavam chegar para receber a boa noticia: Peter ganhara uma oportunidade de estágio na empresa do magnata. Claro que sua tia não poderia nem sonhar a respeito de quais eram os talentos de Peter a serem exercitados por Tony Stark, que depois de uma conversa a sós com o garoto em seu quarto, onde zombou ao mesmo tempo em que enalteceu suas invenções (as teias geniais e o uniforme constrangedor), o intimou para uma viagem a Berlim onde o recrutaria apesar dos protestos do menino que, visivelmente inseguro, alegou não poder ir por ter dever de casa para fazer.

Estava então introduzido, há quase um ano, parte do significado referencial do filme lançado essa semana: o universo e os dilemas da adolescência apresentados através de uma perspectiva bem peculiar — Peter é um estudante de 15 anos acima da média (não aquele que tira boas notas, mas o que cria recursos para compor sua atividade de herói), lida com as decisões da carreira (não necessariamente formação profissional, mas a expectativa de fazer parte dos Vingadores se aprovado em um estágio) e, como todos os outros garotos de sua idade, esconde algo de seu responsável (ele é um super-herói).

Quando o filme começa temos um Peter Parker lidando, encantado, com as novidades do novo uniforme desenvolvido para o Homem-Aranha. Alias, não seria estranho se encontrássemos nos créditos finais do filme algo do tipo: Homem-Aranha veste Tony Stark, pois as funcionalidades se parecem muito com as da armadura que ele desenvolveu para o Homem de Ferro — Peter agora tem até uma assistente eletrônica para guiá-lo como usuário. Enquanto usa seu super uniforme para missões domesticas a fim de impressionar o chefe, Peter descobre uma conspiração contra os Vingadores a qual eles parecem ainda desconhecer. Tony reprova o interesse do menino em algo tão acima de suas competências e o proíbe de se envolver. O garoto não obedece, pondo em risco sua vida e seu futuro como parte de uma equipe. O castigo pela desobediência é o confisco do uniforme que ele tenta manter afirmando não conseguir ser nada sem ele. “se você não é nada sem o uniforme, então não deve usá-lo” responde o Homem de Ferro.

Com essa frase o significado explícito do filme ganhava seu contorno: a formação de um herói deve depender, antes de tudo, de seu valor pessoal. Nesse momento Peter não estava exatamente aprendendo algo, mas reaprendendo: Tony Stark havia o procurado atraído justamente pelo o que Peter era capaz de fazer usando apenas um traje que, nas palavras do próprio Stark, mais parecia um pijama do que um uniforme. Ou seja, o que ele vestia servia apenas como recurso de privacidade. Encontramos um reflexo dessa lição em uma cena bem simbólica no fim do filme, quando Peter, diante da oferta de um uniforme ainda mais sofisticado, rejeita a aprovação para fazer parte dos Vingadores e volta a ser apenas o herói da vizinhança no Queens — O jovem herói descobriu que a jornada de aprendizado foi mais importante que a recompensa por ter que percorrê-la. Tudo que ele quer agora é voltar para casa para praticar o novo homem que se tornou. (uma das interpretações possíveis para o título De Volta ao Lar)

A toda essa dinâmica do universo adolescente de Peter Parker como um dos temas do filme, o roteiro acrescenta um amigo inseparável, uma paixonite adolescente e o inconveniente bullying sofrido por Peter na escola. Esses elementos não são inseridos na historia com o propósito vago de apenas dar um aspecto juvenil a trama, pois tanto o amigo quanto a moça e as perseguições que Peter sofre são fundamentais para o desenvolvimento do herói dentro do menino. Notem, por exemplo, quando Peter está prestes a entrar vestido de Homem-Aranha em uma festa para aumentar seu status entre os colegas da escola, já que rola um boato (ninguém acredita) que ambos são amigos. Nesse instante ele nota algo suspeito em outro ponto da cidade e abandona a decisão de usar seu heroísmo para assuntos pessoais, seguindo rumo ás necessidades coletivas. Um jovem comum ficaria tentado a derrotar o bullying que sofria em vez de enfrentar inimigos que ele nem conhece — a renúncia foi um sacrifício que exercitou o espírito heroico de Peter.

Distraído, acaba deixando o amigo Ned descobrir sua identidade secreta e, enquanto lida com os surtos do amigo ante a novidade, consegue convertê-lo em um aliado em momentos decisivos. Ned é também o amigo que o incentiva a tomar uma atitude em relação a garota por quem ele  esta apaixonado, uma personagem que o roteiro fez questão de não permitir ser engolido pelo clichê de ser a típica esnobe e superficial garota de torcida. Ela é popular sim, mas é também inteligente, sensível e, sem que fosse preciso algum milagre como em Namorada de Aluguel, ela permite que o perdedor da escola faça parte de seu universo, algo que de certa maneira ele já compartilhava desde que conheceu o vilão do filme — é aqui que o roteiro converge a vida sentimental de Peter com sua responsabilidade de herói, quando o pai da moça, apenas alguém que intimidaria pretendentes de sua filha em circunstâncias normais, na vida anormal de Peter Parker é aquele que quer literalmente o matar e, ironicamente, só não o faz justamente por causa da filha.

Assim, o filme interage as circunstancias do herói de uma maneira orgânica. Se há um personagem ou uma cena inútil para a forma do filme, é imperceptível e não causa prejuízo algum ao exercício narrativo. Além de tudo, Homem-Aranha: De Volta ao Lar é instigante ao apresentar o baixo contraste de cenários no ambiente do protagonista quando nele alterna a presença de Peter apenas como Peter e como Homem-Aranha. Exceto nas cenas de extrema ação (quando, por exemplo, ele tenta dominar um avião em pleno voo, ou quando sustenta as partes de uma balsa para que ele não se parta), os cenários onde está o Homem-Aranha são trivializados como se neles estivesse apenas Peter Parker — ele está na rua dando informações a uma senhora, está lanchado no terraço de um prédio, coversando ao celular sentado no teto de um trem em movimento e correndo atrapalhado pelo quintal da vizinhança como se estivesse atrasado para escola, mas está perseguindo um vilão. Além do bom humor com que o roteiro trabalha a rotina do personagem, atribuímos isso à sua juventude e à simplicidade com que ele trata seu comportamento como herói, pois não há uma persona definida: ele é apenas alguém que precisa de uma mascara para esconder o herói dentro dele para continuar o sendo — o herói é Peter Parker. Dificilmente veremos algo assim em filmes de heróis que precisem esconder sua identidade. Quando “transformados”, nem sempre nos lembramos que há um humano sob o uniforme.

À altura do personagem ao qual apresenta, Homem-Aranha: De Volta ao Lar é uma obra que desenvolve com excelência uma jornada composta por descobertas, decisões e suas consequências. Uma jornada que começou com o chamado de Tony Stark em outro filme da Marvel. Jornada esta que amadureceu um adolescente indisciplinado, mas ousado. Fomos apresentados a uma ambiguidade entre coragem e insegurança, ambas demonstradas com muita energia — até quando ele hesita há uma certa vibração em suas atitudes e movimentos.  Ao fim de sua aventura, essa criança distraída e tímida, mas que consegue parar um ônibus com uma das mãos amadurece a ponto de conseguir administrar as ansiedades do amigo, renunciar a namorada e ignorar as perseguições sociais pelo sucesso de seu chamado como herói. Não apenas como encaixe em um universo, o filme apresenta o desenvolvimento de potencial do personagem mantendo o espírito comum nas outras artes em que ele é apresentado, como os quadrinhos.

Testemunhamos, este ano, o momento derradeiro de um herói definitivo em Logan e o protagonismo merecido por uma mulher nos filmes de heróis com Mulher Maravilha. Agora o cinema estreita seu foco para um herói na puberdade, pouco depois de alguns colegas em seu mesmo universo terem lutado uns com os outros por princípios ideológicos (Guerra Civil).

Aposto na longevidade deste gênero.

Assita ao trailer do filme clicando aqui

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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