Homens transexuais buscam visibilidade para novas gerações

Ainda pequeno, quando fazia catequese, Patrick Lima repetia secretamente uma oração antes de dormir: pedia para acordar no corpo de um menino. Naquela época, seus pais, professores e toda a sociedade ainda o chamavam pelo nome feminino com que foi batizado. Com o passar dos anos, na adolescência, ele teve acesso a ícones transexuais como Roberta Close e Rogéria, mas todas eram mulheres. Existir como homem trans, lembra ele, estava fora das possibilidades a que tinha acesso.

“Me descobri com 17 anos. Eu sabia que existia a mulher trans, mas eu nunca tinha visto em lugar nenhum um homem trans”, conta ele, hoje com 27 anos. A descoberta veio com um personagem trans no seriado norte-americano The L Word. “Quando vi, eu pensei: ‘Eu também sou’ “, contou.

Morador de Vista Alegre, na zona norte do Rio de Janeiro, Patrick é operador de câmbio, mas se formou em jornalismo. A própria escolha da graduação foi um plano B, porque seu sonho era seguir a educação física para continuar no mundo da natação. Ele conta que praticou o esporte dos 3 aos 18 anos, mas a consciência de sua identidade de gênero foi tornando o maiô cada vez mais desconfortável. “Vi que não ia aguentar.”

Acesso à saúde

Entre os obstáculos que os homens trans encontram em seu percurso, o acesso à saúde continua a ser um dos mais dramáticos. A necessidade de frequentar um ginecologista, a menor qualificação dos médicos para os procedimentos cirúrgicos e o acesso à terapia hormonal com acompanhamento profissional podem se tornar barreiras até quando se dispõe de um plano de saúde. Patrick lembra que a família o ajudou a pagar um plano na época em que nenhuma empresa o contratava.

Para o pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (ENSP/Fiocruz), Luiz Montenegro, a decisão recente da Organização Mundial da Saúde (OMS) de retirar a transexualidade da lista de doenças mentais e incluí-la como incongruência de gênero nas questões de saúde sexual pode colaborar com um cenário de serviços mais acessíveis e profissionais mais sensíveis.

“Havia uma patologização do que é uma condição humana, e que não tem nada a ver com doença”, argumenta. “A gente espera que os profissionais de saúde se sensibilizem. É necessário ter mais ambulatórios para pessoas trans ou que tenhamos profissionais de saúde engajados no cuidado das pessoas da maneira mais ampla possível?”, questionou.

 

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