Luxo e luxúria no novelesco ato final da franquia 50 Tons

Spoilers

A cena final de Cinquenta Tons Mais Escuros, segundo capítulo da trilogia, lançado em fevereiro do  ano passado, introduziu o assunto do filme seguinte quando Crhistian Grey pediu Anastacia Steele em casamento.Cinquenta Tons de Liberdade, em cartaz desde o último dia 7, começa com uma sequência de closes em detalhes do vestido de Ana e alternando para fragmentos da cerimônia, enquanto os votos, nas vozes do casal, são feitos em uma narração em off. Em poucos minutos de filme eles já estão embarcando em um jatinho para uma lua de mel ao redor do mundo. A introdução concisa deste filme, que pretende ser sedutor no limite do romantismo, rima bem com sua razão de existir: ser um conjunto de imagens que representem a fantasia provocada na imaginação de milhões de leitoras em todo o mundo. Portanto, a obra se apressa para ir direto ao ponto e mostrar o que interessa, usando o roteiro apenas como um pretexto para exibir cenários exuberantes, compostos por mansões, carros de luxo, festas sofisticadas e figurinos de valor exorbitante. Tudo servindo como plano de fundo para corpos sensuais transarem de maneira criativa e ousada.

A franquia Cinquenta Tons é uma resposta e não uma aposta. Não nasce para conquistar um público, e sim para atendê-lo, garantindo sua bilheteria nos números de um Best-seller – nos últimos três anos, uma amiga minha, que devorou os livros da série, foi ao cinema apenas três vezes. Adivinhe quais foram os três filmes que ela assistiu? Este dado resume bem a questão para que e para quem é esta franquia, algo que explorei na minha crítica de Cinquenta Tons Mais Escuros. O público alvo não está interessado em o quanto o filme é coerente com as convenções de linguagem cinematográfica, e ignora (a maioria até ataca) aqueles que expõem as falhas do filme. Para seus fãs, o filme apenas falha se as cenas de sexo não forem excitantes o suficiente, ou se não superarem as expectativas criadas após a leitura dos livros em que se baseiam os filmes. Algumas lacunas que o roteiro deixa de preencher, por exemplo, nunca será um problema.

E por lacuna refiro-me a participação de uma personagem na trama que o trailer sugere ser de grande importância para o filme, mas não é. Gia é uma arquiteta sensual que incomoda Ana pela intimidade com que se refere a seu marido. Mais tarde, ela reaparece em outra cena, quando Ana a observa em uma conversa suspeita com Eliot, seu cunhado e namorado de sua melhor amiga. Nesse momento de voyerismo o filme cria uma expectativa que não se cumpre – será que eles estão tendo um caso? O erro está em sugerir algo ao espectador e não satisfazê-lo com respostas, pois o filme termina sem explorar o assunto outra vez. Se o roteirista não foi preguiçoso ao deixar de desenvolver esse ponto do filme, o diretor foi distraído e negligente ao manter uma cena que apenas ocupou em tela um tempo que impediu o filme de ser mais enxuto.

As flagrantes artificialidades e incoerências do enredo também fragilizam a forma do filme. O vilão, por exemplo, é mal construído e completamente confuso a respeito de suas motivações. Jack, chefe de Ana no filme anterior, foi demitido após assediá-la, o que provocou a promoção dela para o cargo que ele ocupava. Já no filme em questão, descobrimos que sua sede de vingança também tem origem em um passado que, sem mais nem menos, tem algo em comum com a infância de Christian. Jack acaba sendo um vilão incompetente e com atitudes indecisas: ele invade, sabota, persegue, ameaça e destrói, mas no fim das contas parece apenas se satisfazer com alguns milhões da fortuna dos Greys.

Há outros pontos que irão incomodar aqueles que não aceitam uma história mal contada, mas prefiro preservar a “novidade” para os que pagarem pra ver o que não irão aprovar. Para aqueles que irão gostar do que pagarão pra ver, adianto apenas que o filme reforça o mito Christian Grey, de quem a história parece estar a serviço desde sua concepção literária. Aqui ele manipula o orgasmo feminino e o usa até como instrumento para castigá-la. A bizarra frase “eu neguei o seu orgasmo” irá identificar o momento em questão no filme.

Cinquenta Tons de Liberdade encerra um conto de fadas moderno que poderia ter conquistado outros públicos se a ambição no processo criativo fosse maior. Na própria historia há matéria prima suficiente para um aprofundamento dos personagens, pois um deles teve uma infância difícil, sendo órfão, abusado sexualmente e, por fim, sendo adotado e vencendo na vida ao se tornar um empresário milionário. Nada que comprometesse o conteúdo que foi entregue a seu público alvo e que tanto o satisfez, pois não se trata de subtrair e sim de acrescentar. Outros filmes do gênero fizeram bem mais com bem menos.

Prevaleceu a máxima de que time que tá ganhando não se mexe e nada mudou muito em relação ao que está nas centenas de páginas da versão literária, que criou um público e depois o arrastou em massa para o cinema. Ou seja, de certa maneira, a missão foi cumprida.

Assista ao trailer do filme clicando aqui

Em cartaz46 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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