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Coluna Matheus Alvarenga | Onde dormem os heróis de Campos? O esquecimento dos abolicionistas campistas

Redação by Redação
13 de maio de 2026
in Destaque Agora, Destaque Home
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Por Matheus Alvarenga

Hoje é 13 de maio.

Para muitos, apenas uma quarta-feira comum. Dia de trabalho, trânsito, rotina e compromissos. Afinal, a data sequer é feriado nacional. Talvez isso já diga muito sobre como o Brasil trata a própria memória.

Em 13 de maio de 1888, a escravidão foi oficialmente abolida no país através da assinatura da Lei Áurea. Uma das maiores transformações sociais da história brasileira acabou reduzida, com o passar do tempo, a uma nota de rodapé no calendário nacional. Não há grandes cerimônias oficiais, não há mobilização coletiva significativa, não há reflexão pública proporcional ao peso histórico daquela data.

E isso talvez seja parte do problema.

Porque o 13 de maio não representa apenas a assinatura de uma lei. Representa o desfecho de uma luta longa, intensa e construída por muitas mãos.

A Princesa Isabel teve papel fundamental naquele processo histórico. Coube a ela conduzir as articulações políticas decisivas e assinar a Lei Áurea, extinguindo juridicamente a escravidão no Brasil. Sua participação foi determinante para que aquele momento acontecesse.

Mas a assinatura daquela lei também carregava a força de milhares de brasileiros que, durante décadas, pressionaram o país rumo à abolição.

Homens e mulheres, negros, brancos e mestiços, jornalistas, intelectuais, trabalhadores, militantes e ativistas abolicionistas ajudaram a transformar o debate nacional. Uns organizavam campanhas públicas, outros arrecadavam dinheiro para comprar cartas de alforria. Muitos escreviam em jornais denunciando a violência da escravidão. Outros arriscavam a própria liberdade ajudando escravizados a fugir, escondendo perseguidos e enfrentando diretamente grandes proprietários rurais.

A Lei Áurea foi assinada pelas mãos da Princesa Isabel, mas conduzida também pela pressão social de uma geração inteira que decidiu enfrentar a escravidão.

E Campos dos Goytacazes foi um dos principais palcos dessa luta.

A cidade se tornou conhecida como o “Quartel-General do Abolicionismo”, berço de nomes gigantescos da história brasileira. Entre eles, José do Patrocínio e Luiz Carlos de Lacerda.

Luiz Carlos de Lacerda foi uma figura ousada e incansável no combate à escravidão. Utilizou jornais para denunciar homens poderosos e expor as violências da escravidão. Participou ativamente da articulação abolicionista em Campos, ajudando escravizados a fugirem e utilizando o prédio onde funcionava seu jornal como esconderijo para pessoas perseguidas. Há relatos históricos que associam sua atuação até mesmo a ações radicais da militância abolicionista, como incêndios em canaviais e operações clandestinas de libertação de escravizados. Era um homem disposto a enfrentar os interesses econômicos e políticos da elite escravocrata da época.

Já José do Patrocínio se transformou em uma das maiores vozes da campanha abolicionista em todo o Brasil. Filho de uma mulher negra escravizada, tornou-se jornalista, farmacêutico, escritor e um orador brilhante. Percorreu o país organizando campanhas, mobilizando a opinião pública e utilizando os jornais como arma política contra a escravidão. Sua atuação ajudou a transformar o abolicionismo em um movimento nacional de pressão popular.

Hoje, mais de um século depois da abolição, surge uma pergunta inevitável:

Onde estão esses heróis? Em uma data como esta, escolas deveriam estar debatendo o significado do 13 de maio. Crianças deveriam conhecer os nomes daqueles que lutaram pela liberdade. A cidade deveria refletir sobre sua própria importância na história do Brasil.

Mas a realidade é outra.

José do Patrocínio e Luiz Carlos de Lacerda encontram-se sepultados dentro do Palácio da Cultura de Campos, em um espaço praticamente desconhecido por grande parte da população: o Pantheon dos Heróis de Campos. Ali também repousam outras personalidades históricas fundamentais para a cidade.

O local, porém, tornou-se símbolo do abandono da memória campista.

Há anos o Pantheon não recebe a devida atenção. O espaço permanece fechado, deteriorado e inacessível à população. Nenhuma turma escolar pode visitar os túmulos daqueles homens que ajudaram a transformar a história do país. Nenhum campista consegue entrar livremente para conhecer aquele patrimônio histórico.

O cenário se torna ainda mais revoltante ao lembrar que, há poucos anos, o local chegou a ser atingido por inundações após fortes chuvas que castigaram a cidade.

Recentemente, ao visitar o chamado “novo Palácio da Cultura”, a sensação foi ainda mais triste. Ao perguntar sobre o Pantheon, muitos sequer sabiam da existência daquele espaço dentro do próprio prédio.

“Pantheon? Aqui? Não sei”, respondiam alguns.

Quando os nomes eram citados, a reação era ainda mais alarmante:

“Quem? Luiz Carlos está enterrado aqui?”

Apenas um profissional soube responder corretamente e ainda lamentou o abandono do local pelo poder público. Prefiro preservar sua identidade. Afinal, este texto não busca desmoralizar funcionários, mas expor algo muito maior: o esquecimento coletivo da nossa própria história.

Campos dos Goytacazes ajudou a escrever um dos capítulos mais importantes da luta por justiça social no Brasil. Daqui saíram nomes como Nilo Peçanha, também ligado às causas abolicionistas, além de José do Patrocínio e Luiz Carlos de Lacerda.

Homens que desafiaram um sistema brutal. Homens que colocaram suas vozes, suas reputações e até suas vidas em risco para combater a escravidão.

Hoje, porém, dormem em túmulos esquecidos. E talvez o maior sinal do abandono não esteja apenas nas paredes deterioradas ou nas portas fechadas do Pantheon.

Talvez esteja no fato de que muitos campistas já nem saibam mais quem foram seus próprios heróis.

Redação

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