A vocação econômica que ninguém quer ver — e como empresários e profissionais campistas podem lucrar com ela agora
Por Luciano Couto Gomes
Campos dos Goytacazes é uma cidade que vive de luto.
Luto pelas usinas que fecharam. Luto pelas fábricas de tijolo que já empregaram milhares. Luto pelos royalties que encolheram. Luto pelo título de “Manchester brasileira” que ficou pendurado na parede como retrato de parente que morreu.
E o campista, criado nesse velório permanente, aprendeu a fazer duas coisas: reclamar do que a cidade perdeu e invejar o que o vizinho tem. Olha para Macaé e sonha com o petróleo. Olha para São João da Barra e sonha com o porto. Olha para o próprio quintal e só enxerga o que não existe mais.
Aqui vai uma verdade que pouca gente teve coragem de escrever: Campos não vai voltar a ser o que era. E isso não é uma tragédia. É uma libertação.
A cidade que rema contra o próprio DNA
Toda cidade tem um DNA econômico. Uma vocação. Macaé nasceu de novo quando o petróleo chegou — quem abre negócio lá fora dessa cadeia, rema contra a maré. São João da Barra virou a cidade do Porto do Açu. Cabo Frio vive do turismo. Essas cidades sabem quem são.
Campos, não. Campos tem crise de identidade. E cidade com crise de identidade produz empresário com crise de identidade: gente copiando modelo de negócio de Macaé sem estar em Macaé, esperando “a fase boa voltar”, abrindo empresa olhando pelo retrovisor.
Quando você trabalha contra o DNA da sua cidade, você rema contra a maré num barco furado. Não é falta de esforço que te afunda. É falta de direção.
O DNA que ninguém quer ver
Agora pegue o mapa. Faça isso de verdade.
Campos está a menos de uma hora do Porto do Açu — um dos maiores complexos portuários e industriais da América Latina, ainda em expansão. Está a pouco mais de uma hora de Macaé, a capital nacional do petróleo. E é, com folga, a maior cidade do interior do estado do Rio: mais de 500 mil habitantes segundo a estimativa mais recente do IBGE, universidades, IFF, hospitais, comércio, serviços e mão de obra técnica formada aos montes.
Macaé tem o poço. São João da Barra tem o cais. Campos tem tudo o que os dois não têm: escala urbana.
O DNA de Campos não é ser polo. É ser base. É a cidade onde o trabalhador dos dois gigantes mora, se forma, se trata, consome, casa, cria filho e — se alguém acordar — abre empresa para fornecer aos dois lados. Campos não precisa competir com o poço nem com o porto. Precisa cobrar pedágio de tudo que circula entre eles.
E quase ninguém explora isso. Porque a maioria cresce querendo ter o DNA do vizinho, em vez de lucrar com o próprio.
Tá bom, Luciano. Mas ganhar dinheiro como?
Chega de conceito. Vamos ao concreto.
Se você é técnico ou presta serviço industrial: o Açu e Macaé vivem de manutenção — elétrica, refrigeração, caldeiraria, andaime, inspeção, içamento. As multinacionais terceirizam cada vez mais. Uma empresa de serviços técnicos sediada em Campos atende os dois polos com custo de operação menor que qualquer concorrente instalado dentro deles. Eu sei porque vivi isso: fechei contrato no ecossistema do Açu morando em Campos, contra concorrentes maiores. A distância não era desvantagem. Era margem.
Se você tem pousada, hotel ou imóvel: existe um exército de trabalhadores em trânsito, turnos de embarque, equipes de projeto passando 15, 30, 90 dias na região. Hospedagem corporativa, alojamento de qualidade, apartamento mobiliado por contrato — isso é produto, não improviso. Quem estruturar isso profissionalmente, com nota fiscal e padrão, assina contrato com empresa, não aluga para turista.
Se você tem restaurante ou faz comida: marmitex industrial, refeição coletiva, buffet para paradas de manutenção. Uma parada de planta industrial alimenta centenas de pessoas por semanas. Isso não é venda de balcão. É contrato recorrente.
Se você trabalha com transporte: fretamento de pessoal, van executiva, logística de última milha entre Campos, Açu e Macaé. Gente precisa circular entre os três pontos todos os dias. Quem organizar esse fluxo com pontualidade e gestão vira fornecedor fixo.
Se você está na educação ou no treinamento: NR-10, NR-33, NR-35, solda, instrumentação, inglês técnico, qualificação portuária. Os polos têm fome de gente qualificada e Campos tem os jovens. Formar mão de obra certificada aqui é minerar ouro sem sair de casa.
Se você já tem comércio e acha que nada disso te alcança: reposicione. A papelaria pode virar fornecedora de suprimentos corporativos com entrega e faturamento mensal. A loja de EPI de bairro pode montar catálogo B2B e visitar os canteiros. A gráfica pode se especializar em sinalização industrial e documentação de segurança. A lavanderia pode atender uniforme industrial por contrato. Não é abrir negócio novo. É apontar o negócio que você já tem na direção do dinheiro que já circula.
As usinas ensinaram. Alguém aprendeu?
Campos perdeu as usinas. Perdeu as cerâmicas. Perdeu ciclos inteiros. E a lição desses velórios todos é uma só: cidade que depende de um único produto morre com ele. A cana morreu com a cana. O tijolo morreu com o tijolo.
A vocação de base é diferente. Base não depende de um produto — depende de posição. Enquanto houver atividade em qualquer um dos polos, quem está no meio come. Petróleo, porto, minério, gás, offshore, o que vier: tudo precisa de gente, serviço, cama, comida, transporte e formação. E tudo isso o DNA de Campos entrega.
Então a pergunta que deixo para você, empresário, técnico, profissional campista, é simples e desconfortável:
O seu negócio está construído sobre o DNA da sua cidade — ou sobre a saudade do que ela foi?
Pare de esperar Campos voltar a ser a capital do açúcar. Pare de querer que ela vire Macaé. Comece a ganhar dinheiro com o que ela já é: a base de uma das regiões mais estratégicas do país.
O poço é deles. O cais é deles. O meio do caminho é nosso.
Luciano Couto Gomes é empreendedor, mentor de negócios e colunista da Notícia Urbana. Escreve sobre empreendedorismo, liderança e comportamento para profissionais técnicos que querem construir negócios sólidos.









