quinta-feira, 6 agosto, 2026

Eclésia: o que a igreja e o comércio de Campos têm em comum quando ambos esperam demais

Uso essa comparação com todo respeito, porque não é sobre igualar fé a negócio — é sobre um princípio que serve pros dois

Eclésia é a palavra grega por trás do que chamamos de igreja. O sentido carrega um movimento de dentro para fora: você é chamado, reunido, mas não pra ficar. É chamado pra ser enviado de volta ao mundo. Quando uma comunidade de fé esquece essa segunda parte e só cuida da primeira — só se preocupa em fazer o culto bonito, esperando que as pessoas venham até ela — essa comunidade começa a padecer. Ela vira um prédio esperando visita, não um povo que vai até a rua.

Jesus nunca operou assim. Ele foi até a beira do lago chamar pescador trabalhando. Foi até o poço, no horário que a mulher ia sozinha pra não cruzar com ninguém, e falou com ela. Foi até a casa do publicano que a cidade inteira evitava. Ele não esperou multidão bater na porta — ele caminhou até onde a vida das pessoas já estava acontecendo.

Agora troca “igreja” por “loja” e o princípio é o mesmo

Semana passada trouxe aqui os números: entre 700 e 1.000 lojas fecharam em Campos nos últimos anos, a maioria no Centro. E fica fácil — quase confortável — jogar a culpa inteira no aplicativo de entrega, no Centro esvaziado, na falta de transporte público. Tudo isso pesa, é real. Mas tem uma pergunta que ninguém no comércio quer se fazer: quantas dessas lojas foram até o cliente antes de fechar as portas?

A maioria não tem site. Não tem ação intencional nas redes sociais — quando tem perfil, é uma foto de produto sem legenda, postada uma vez por mês. Não manda mensagem pro cliente que já comprou antes. Não liga pro cadastro antigo parado numa gaveta. Essa loja está fazendo eclésia ao contrário: ficou esperando o mundo entrar pela porta dela, num momento em que o mundo inteiro aprendeu a comprar sem sair de casa.

O erro está claro. Agora, os passos pra sair dele

Não adianta só apontar o problema — quero deixar aqui o caminho prático, do jeito que eu mesmo oriento quem procura a Alavanca:

  1. Resgate o cadastro que já existe. Toda loja com mais de dois anos de porta aberta tem uma lista de clientes esquecida — numa agenda, numa planilha velha, num bloco de notas fiscais. Ligue. Mande mensagem. Metade desses clientes nem lembra que a loja ainda existe.
  2. Tenha uma vitrine que nunca fecha. Não precisa de site caro. Um catálogo simples no WhatsApp Business, com preço e forma de pagamento visíveis, já resolve 80% do problema — o cliente pode “entrar na loja” às 23h de domingo.
  3. Poste com intenção, não por obrigação. Rede social não é vitrine estática. É mostrar o produto sendo usado, responder comentário, fazer Reels rápido do dia a dia da loja. Uma peça de roupa parada no manequim não vende no Instagram; a mesma peça em alguém andando pela rua, vende.
  4. Vá até quem já foi seu cliente, não espere ele voltar sozinho. Se você vende roupa e sabe que fulana comprou um vestido pra um casamento há três meses, ligue oferecendo a peça nova da coleção. Isso é ir até o poço, não esperar a samaritana aparecer na sua porta.

Um exemplo prático: pega uma loja de roupa fictícia, movimento fraco, dona reclamando que “ninguém compra mais”. Se ela aplicar só os passos 1 e 2 — resgatar cadastro e montar catálogo no WhatsApp — em 30 dias ela já teria uma fonte de venda que não depende de ninguém passar na calçada.

E aqui entra outro tipo de espera que também adoece o comércio: esperar do político o que só o próprio empresário pode construir

Tem uma dependência parecida com essa da loja que espera cliente, só que mais silenciosa: a dependência do setor público. E estamos em ano de eleição, então esse é o momento certo de falar sobre isso — porque é justamente agora que esse vínculo parece mais inofensivo, quase natural, e é quando mais prejudica.

Vejo entidades como CDL, sindicatos patronais e empresários individuais estreitando laço com candidato, tirando foto, declarando apoio publicamente. Na hora parece estratégico — abre porta, garante atenção. Mas esse vínculo tem um preço: quem apoiou publicamente perde a força de cobrar depois. Fica difícil bater na mesa exigindo o que foi prometido em campanha quando você mesmo ajudou a construir a campanha.

Uma das coisas que mais atrasa o empresário campista é terceirizar a solução pra prefeitura. Fica esperando obra, esperando incentivo, esperando decisão de gabinete — e enquanto isso, o concorrente que vende pela internet não pediu licença pra ninguém.

Político eleito não é seu amigo, e não precisa ser. Ele foi eleito pra facilitar sua vida — essa é a relação, do início ao fim. Isso não muda o direito de cada um votar em quem quiser, isso é da esfera privada. O que muda é a postura institucional: CDL, sindicato e empresário deveriam cobrar resultado igual se cobra funcionário — sem ofender, mas sem cerimônia. “Você prometeu Centro mais forte, mais poder de compra pro campista — cadê?” é uma cobrança legítima, não um ataque. Difícil fazer essa cobrança de quem você apoiou a campanha inteira.

O comércio de Campos não vai ser salvo por decreto nem por obra de prefeitura. Vai ser salvo pela mesma lógica de dois mil anos atrás: quem for até o cliente, sobrevive. Quem ficar esperando, fecha.

Luciano Couto

Luciano Couto

Pense grande. Comece agora!

RelacionadaPostagens

Notícias Recentes

Welcome Back!

Login to your account below

Retrieve your password

Please enter your username or email address to reset your password.

Add New Playlist