Esse texto vai ser maior do que os outros dessa série. Eu sei. Mas tem assunto que não cabe em resumo, e esse é um deles. Então dessa vez eu não vou economizar palavra pra caber num formato curto. Se você chegou até aqui querendo entender de verdade o que aconteceu com o Centro de Campos e o que dá pra fazer a respeito, vale a leitura completa.
Vou começar por um número que resume, sozinho, o tamanho do que Campos perdeu: nos anos 1960 e 70, a cidade chegou a ter 70 salas de cinema de rua, 20 só na sede, o resto espalhado pelos distritos, de Santo Eduardo a Dores de Macabu. O Centro tinha vida à noite, tinha fila na calçada, tinha gente se arrumando pra sair. Duas décadas depois, sobravam só duas salas. O Cine Capitólio fechou em 2001. O Cine Goytacá foi vendido pra uma igreja evangélica ainda nos anos 90. Hoje, cinema em Campos é dentro de shopping em Guarus, não mais no Centro.
Não é nostalgia vaga. O fato é: o Centro de Campos já foi, literalmente, o lugar de maior movimento noturno da cidade, e virou, décadas depois, o lugar que as pessoas evitam durante o dia quanto mais depois que escurece.
Um Centro que já foi capital do açúcar
Vale lembrar de onde vem essa força toda. Durante as três primeiras décadas do século XX, Campos foi a maior produtora de açúcar do país, com destaque nacional. A cidade cresceu em cima disso, o comércio do Centro nasceu junto com esse auge. Quando os engenhos de açúcar entraram em decadência, por volta de 1940, a cidade levou décadas até encontrar o petróleo, na virada dos anos 70 pra 80, como nova força econômica. Só que aí a vizinha Macaé assumiu o protagonismo da produção e Campos, mesmo recebendo royalties consideráveis, nunca mais recuperou aquele Centro que foi, um dia, o coração pulsante da cidade.
O que sobrou, um estudo acadêmico sobre o Centro histórico de Campos registrou bem: prédios antigos em estado degradante precisando de reforma, ruas estreitas, mercadoria pendurada pra fora da loja, o vai e vem tumultuado perto do Mercado Municipal, um contraste direto com o comércio de bairro como a Pelinca, onde as ruas são um pouco mais largas e o movimento é mais organizado, digamos que mais “arrumado”.
Dá pra afirmar, com base nessa linha do tempo, que o Centro prosperou junto com a indústria açucareira e nunca mais achou uma força econômica equivalente que o sustentasse do mesmo jeito. Mesmo o petróleo, que trouxe dinheiro novo pra cidade a partir dos anos 70/80, nunca se traduziu de volta em força pro Centro: foi pra outro lugar, ou simplesmente não foi reinvestido ali.
O Brasil já provou que dá pra reverter isso — com ação concreta, não só discurso
Campos não é a primeira cidade brasileira a ver seu Centro esvaziar. E o que separa as cidades que reverteram da nossa cidade não tem nada com coincidências ou mesmo sorte e sim foi, um combo de ações intencionais e estruturada. Por isso olhe para esses exemplos reais:
O caso mais forte é o Porto Digital, em Recife. A área central da cidade, o Bairro do Recife, estava esvaziada e degradada. Em vez de só restaurar fachada, a cidade trouxe atividade econômica permanente pro local com um polo de tecnologia e inovação pra gerar fluxo diário de gente. Hoje, cerca de 21 mil pessoas circulam diariamente ali, trabalhando em prédios históricos que antes eram considerados inviáveis. E tem um detalhe: a gestão não ficou só nas mãos da prefeitura. Foi criado o NGPD, uma entidade privada sem fins lucrativos, rodando num modelo chamado “Triple Helix” com participação ativa do governo, universidade e setor produtivo (empresas e suas associações, como ASSESPRO e SOFTEX, com o Sebrae como colaborador) decidindo juntos. O modelo foi eleito três vezes o melhor parque tecnológico do Brasil e hoje é replicado em Caruaru, Goiânia e Rio Verde.
Em Ubá (MG), a Praça do Rotary era conhecida, sem meias palavras, como “Praça do Lixo”. Depois da revitalização, virou um shopping a céu aberto, gerando emprego e renda na região.
Florianópolis, (Santa Catarina) ,a ação central foi a Rua Vidal Ramos, no centro histórico de Florianópolis: 70 lojas numa via de 750 metros, transformada não por decreto de prefeitura, mas por iniciativa dos próprios lojistas — a empresária Rose Macedo Coelho organizou uma Câmara de Lojistas dentro da ACIF (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis), e só depois vieram apoio de prefeitura, IPUF e Sebrae/SC. O resultado foi padronização de fachada, calçada nova, mobiliário urbano, fiação enterrada — virou modelo de “open shopping” tão bem-sucedido que passou a ser replicado em outros estados, com a própria Rose viajando pra ensinar o modelo.
Outros fatos isolados, mais recentes: em 2025 a prefeitura decretou isenção de IPTU por três anos pra quem ocupa loja pequena no Centro Histórico a partir de 2026; uma lei de retrofit (2024) facilitou reformar prédio antigo abandonado; e em março de 2026 um escritório de urbanismo apresentou publicamente, em evento aberto à população, um projeto de longo prazo pro Centro.
Em São Paulo, a prefeitura criou o PIU Central, uma lei que dá benefício fiscal e tributário pra quem reforma prédio antigo ou abre negócio no Centro, num modelo parecido com os que Salvador e Curitiba também adotaram, e que já citamos em matéria anterior desta coluna.
O fator que aparece repetido em quase todos os casos de sucesso: sentar com quem banca a conta
Tem um ponto que atravessa esses exemplos e que Campos não pode pular: quem paga a conta de tudo isso, no fim, é o cidadão, seja pelo imposto que sustenta qualquer incentivo fiscal, seja pelo simples fato de ser ele quem vai (ou não vai) ocupar aquele Centro revitalizado. Processos de revitalização de centro histórico que deram certo, de forma geral, não pularam a etapa de ouvir esse cidadão: oficinas participativas, cadastro de pequenos empreendedores feito com apoio de assistência social, coleta direta de sugestão da população antes de fechar o projeto. Em um caso registrado, mais de 150 pequenos comerciantes foram diretamente beneficiados só no entorno de um terminal, porque o projeto nasceu ouvindo quem já estava ali, não impondo de cima pra baixo.
Isso é o oposto de decreto assinado em gabinete sem consulta. Se Campos quiser fazer o Centro renascer, o cidadão que hoje sente saudade, mas tem medo de ir, como tantos leitores já contaram aqui e precisa ser ouvido antes do projeto ser desenhado, não convidado só pra inauguração.
Agora o ponto que eu preciso deixar bem claro pro empresário que está lendo isso: a solução não está só na prefeitura
Tudo o que escrevi até aqui depende de poder público, de associação, de projeto de revitalização, coisa que leva tempo, negociação, várias mãos. Mas tem uma parte da solução que não depende de nada disso, e que está inteiramente nas mãos de quem já tem uma loja aberta em Campos hoje: se o campista compra tanto assim na Shopee, cadê a loja de Campos vendendo na Shopee também?
Essa pergunta não é retórica. Já mostramos aqui, com dado do Sebrae, que a maioria das lojas fechadas em Campos não tinha site, não tinha catálogo organizado, não tinha ação nenhuma de venda online. Enquanto o lojista espera decreto de incentivo fiscal ou projeto de revitalização que são reais, importantes, e vão demorar, ele podia estar, hoje mesmo, cadastrado como vendedor na Shopee e no Mercado Livre, competindo dentro da própria plataforma que “rouba” seu cliente. Podia ter conta comercial no Instagram, ativa de verdade, postando produto, respondendo comentário, fazendo Reels mostrando a peça sendo usada e não uma foto solta postada uma vez por mês.
O erro mais comum que vimos nos comentários das matérias anteriores foi justamente esse: o lojista aponta o dedo pra fora, pra Shopee, pra prefeitura, pro aluguel, pro transporte e não aponta pra dentro, pro que ele mesmo ainda não fez. Revitalização de Centro é trabalho de anos e de muita gente junta. Abrir uma conta de vendedor numa plataforma é trabalho de uma tarde. Não dá pra esperar o Centro renascer pra só então recomeçar a vender — o comerciante que sobrevive é o que faz as duas coisas ao mesmo tempo: cobra do poder público a parte que é dele, e resolve, sozinho, a parte que sempre foi sua.
Passos práticos pra quem está com o comércio em decadência hoje
Juntando tudo que essa coluna já apurou até aqui, fica esse roteiro básico de recuperação, que qualquer lojista pode começar a aplicar imediatamente, sem esperar nada de ninguém e afirmo que se procurarem juntos a ACIC, CDL, Firjan, Tec Campos, vocês encontraram melhores soluções, mas segue aqui minhas dicas:
- Abra loja nas plataformas que seu cliente já usa: Shopee, Mercado Livre, WhatsApp Business com catálogo organizado. Se o cliente está lá, o produto tem que estar lá também.
- Ative de verdade as redes sociais: não é sobre ter perfil, é sobre postar com intenção, mostrar o produto em uso, responder comentário, fazer conteúdo que gera desejo de compra. Faça lives de vendas e queima de estoque semanalmente… algo do tipo: “Incendiando o estoque na Segunda”
- Resgate o cadastro de clientes antigos : ligue, mande mensagem, ofereça a novidade pra quem já comprou antes.
- Negocie o custo fixo com inteligência : como já mostramos em matéria anterior, segurar aluguel alto por orgulho custa mais caro do que ceder.
- Cobre, organizadamente, a parte que é do poder público : através de CDL, ACIC, associação de bairro, incentivo fiscal, segurança, transporte, revitalização. Individualmente o lojista não muda isso; organizado, ele tem força.
- Participe quando for chamado a opinar : se algum dia Campos abrir um processo de escuta popular pra revitalizar o Centro, é ali que a voz de quem vive o dia a dia da loja precisa estar, com detalhe e sem medo.
O convite pra essa matéria continuar com a sua voz
Esse é o esqueleto histórico, real, verificável, com data e fonte, e agora também com prova de que existe caminho, tanto pro poder público quanto pro próprio lojista. Mas o que dá alma pra essa matéria é a memória de quem viveu isso de verdade: quem pegava fila no Cine Capitólio, quem fazia compra na João Pessoa num sábado lotado, quem lembra do Centro como o lugar bonito de se estar, não o lugar que hoje se evita.
Essa é a parte que eu não consigo escrever sozinho e precisa da sua lembrança, ou da de alguém que você conheça. Um relato de duas ou três frases já muda o peso do texto inteiro.









