Por Luciano Gomes do Couto
Em junho de 1883, o imperador Dom Pedro II veio a Campos e acionou uma chave. Acenderam 39 lâmpadas nas ruas, ligadas a uma usina a vapor de 52 kW, movida a lenha. Segundo estudo da Enap, foi a primeira iluminação pública elétrica da América do Sul.
Pare um minuto nisso. Não existia Petrobras, não existia Bacia de Campos, não existia verba que caía todo mês na conta da prefeitura. Existia uma cidade rica de açúcar, uma Câmara que topou bancar uma ideia nova e gente que preferiu chegar primeiro a esperar o vizinho fazer.
Hoje a conversa na fila do pão é outra: não tem ônibus, o comércio está fraco, a ajuda não vem. Eu concordo com as três coisas, menos com a última. A ajuda não vem de fora mesmo. Só que isso, que soa como sentença, é a boa notícia. Campos já fez coisa grande sem esperar ninguém, e o que a gente fez uma vez a gente sabe fazer.
Antes de falar do que fazer, vale olhar de onde a gente vem. Com uma ressalva: eu não vou enfeitar a história para ela dar um bom texto.
Os goitacás, sem romantizar
O nome da cidade vem deles. Segundo as fontes que consultei, a resistência dos goitacás atrasou por décadas a ocupação portuguesa da região. A capitania de São Tomé foi doada em 1536, e só em 1627 o território foi entregue em sesmaria aos Sete Capitães. A vila foi fundada em 1677.
Dá para dizer que “campista não se deixa domesticar”? Eu acho que não vale. Não tenho fonte para contar aqui o que aconteceu com eles depois, mas a história que veio foi de perda para os goitacás, e transformar isso em frase motivacional seria desrespeito. O que eu aproveito é bem menor e bem mais honesto: a nossa terra tem, desde antes de ser Campos, uma história de gente que não aceitou o primeiro “assim é que vai ser”.
Patrocínio, que saiu daqui para fazer o que precisava ser feito
José do Patrocínio nasceu em Campos, em 9 de outubro de 1853, ou seja, faz seis dias que ele completaria 173 anos. A mãe, Justina, era quitandeira e ex-escravizada, tinha 15 anos. O pai era o vigário da região, que não o reconheceu em cartório, mas o abrigou e pagou seus estudos. O menino cresceu na fazenda do pai, na Lagoa de Cima, e viu de perto o que a escravidão fazia. Aos 14 anos foi para o Rio.
E lá ele fez o que ninguém ia fazer por ele: escreveu, discursou, comprou um jornal, a Gazeta da Tarde, com dinheiro emprestado do sogro, e ajudou a fundar a Confederação Abolicionista. Não esperou o poder se convencer sozinho. Foi construir pressão onde ela era possível.
A lição dele para nós não é “saia de Campos”. É que quem espera o poder mudar de ideia por conta própria costuma esperar a vida inteira.
Duas economias de um recurso só
O açúcar foi o primeiro ciclo. Segundo a página que usei de apoio, Campos tinha 245 engenhos em 1875, 28 usinas em 1922 e hoje restam três usinas em operação. Ciclo acabou, e a cidade seguiu em frente.
Em 1974 a Petrobras achou petróleo, e a bacia levou o nome do município. Em 2022, Campos foi o 9º maior PIB municipal do país, com R$ 37,2 bilhões, e a indústria respondia por 57% do valor adicionado. Em 2024 a cidade recebeu R$ 667,4 milhões em royalties. A Lei 12.734, de 2012, e a produção migrando para o pré-sal reduziram a fatia que cabia a Campos.
Eu vejo um padrão que se repete, e peço para você julgar se faz sentido: a cidade se acostuma com uma fonte só. Primeiro foi a cana, depois o petróleo. E quando a renda vem de um ponto só, o incentivo para criar outros pontos diminui. Eu mesmo já escrevi aqui que o dinheiro nunca foi o problema de Campos. O problema é o que a abundância fez com a nossa cabeça: ensinou muita gente a esperar de cima.
O campista de 1883 não tinha em quem esperar. O de hoje aprendeu que alguém, em algum lugar, vai resolver. É a diferença mais importante entre os dois.
O que não depende de ninguém
Vou ser direto sobre os limites. Ônibus, segurança e ordem urbana são tarefa do poder público, e nenhum esforço individual conserta um sistema de transporte. Mas existe uma parte que é nossa, e ela é maior do que parece. Seis coisas que cabem na segunda-feira:
- Escolha uma queixa e vire dono dela. Nos comentários da coluna, transporte foi a reclamação número um, em torno de 35%. Só que reclamação solta não vira pauta. Anote linha, horário, atraso e foto, peça protocolo na ouvidoria, junte vinte vizinhos e leve o material organizado à Câmara e ao Ministério Público. Político responde a quem chega com dado e com gente.
- Venda mais, e venda de forma que não dependa do Centro. O comércio deixou o Centro e foi para os bairros. Quem abre onde mora, no bairro que já tem gente, vai onde o cliente está. E quem ainda só espera o cliente entrar na loja deveria ter o WhatsApp como segundo balcão, como a Rosana da última coluna.
- Una-se com quem está do lado. Dois comerciantes da mesma rua que dividem frete, compram em grupo e fazem uma ação juntos já são mais fortes do que cada um sozinho. Associação de moradores e de lojistas não é coisa de política, é organização.
- Use o que a cidade já tem. O Fundecam empresta até R$ 7.500 para informal e até R$ 15.000 para MEI, segundo a Tribuna NF. O Sebrae está aqui. E a UENF, primeira universidade brasileira com todos os professores doutores, tinha 324 deles em 2024, todos em dedicação exclusiva. Pouca cidade do interior tem esse cérebro por perto. Procure, ofereça parceria, peça palestra, coloque estudante para ajudar seu negócio.
- Pare de pedir favor e comece a pedir currículo. O voto é o contrato. Quem agradece por algo que é direito está pagando duas vezes.
- Ensine alguém. Quem aprendeu a vender, a precificar ou a formalizar, ensine o vizinho. Um por um é como uma cidade muda de comportamento.
O que eu não vou prometer
Não vai mudar em um ano e não vai mudar sem custo. Algumas mudanças dependem de decisões de quem governa, e eu continuo achando que a gente precisa escolher melhor quem governa. Mas existe uma diferença enorme entre cobrar o que é do poder público e esperar que ele faça o que é nosso.
Em 1883, alguém decidiu que a cidade merecia luz antes de todo mundo. Não foi lenda nem milagre. Foi decisão, conta, trabalho e uma Câmara que topou. A mesma terra tem gente com a mesma capacidade, só precisamos lembrar disso.
Agora é com você
Escolha uma das seis ações acima e conte nos comentários qual vai fazer esta semana. Se for a do ônibus, mande o que anotou, que eu junto os relatos numa próxima coluna. Se for a de vender mais, o workshop gratuito de vendas, que a gente anuncia no fim de outubro, é para você. Escreva “eu quero” que eu te aviso.
Luz acesa, quem acende é a gente.
Fontes: Enap, estudo sobre a iluminação pública de Campos (citado pelo Correio Braziliense e pelo Canal Rural, 11/10/2026); Correio Braziliense, matéria sobre a iluminação de 1883; Canal Rural, “Além do Agro” (UENF, 2026); Smargiassi, página sobre Campos dos Goytacazes (história, açúcar, PIB e royalties); História do Mundo, biografia de José do Patrocínio; Tribuna NF (limites do Fundecam, 28/09/2026).









