Crítica ― Vida

É principalmente por motivos políticos que alguns países investem em um programa espacial, mas é quase sempre pessoal o que motiva as tripulações que embarcam para as missões planejadas.

Às vezes composta por representantes de diferentes raças e nacionalidades, esses viajantes do espaço levam seu QI absurdamente alto para orbitar nosso planeta equipados com a mais sofisticada tecnologia. Suas motivações têm origem no que a vida fez deles na terra desde que eram crianças: as historias que ouviram ou leram em livros, uma noite de céu estrelado que provocou seu fascínio pelo misterioso infinito acima, ou, porque não, o cinema que já mostrou tantas vezes a saga de astronautas destemidos em busca de tudo aquilo que é provável apesar de ser também desconhecido.

Assim, lá em cima, muitas vezes eles estão em busca, com a mesma paixão daqueles que mantiveram suas obsessões ancoradas em terra firme como Carl Sagam e Stephen Hawking, de descobrir e explorar aquilo que seus governos e agências querem apenas expor para hastear mais alto sua bandeira de poder.

Mas e se a aversão pela degradação moral da humanidade ou traumas individuais do passado for o que leva e ou mantém no espaço aqueles que querem explorar o universo? E se um deles está orbitando a terra por mais de 400 dias sem sentir saudade de casa porque, ao ter combatido na síria, testemunhou do que a vida humana é capaz a ponto querer que o espaço seja seu novo lar?

Em Vida, filme que marca o primeiro embarque do diretor Daniel Espinosa para o universo do gênero de ficção cientifica, essa dinâmica de interesse humano por encontrar vida em outros planetas fica claro não só na determinação que os personagens demonstram quando a equipe põe Rory (Ryan Reynolds) para fora da nave afim de resgatar a sonda que coletou amostras do solo marciano e que está prestes a se perder na orbita,  como também fica claro quando vemos lágrimas nos olhos de Jordan (Jake Gyllenhaal) quando o biólogo Hugh (Aryin Bakare) desenvolve no laboratório da nave ―com brilho em seus olhos de pupilas dilatadas―  a vida microscópica encontrada na amostra.  (esse momento é regido por uma trilha congruente aos movimentos suaves dos personagens e da câmera para reforçar a bonança poética que precedeu uma tempestade de desgraça)

Apesar desse interesse coletivo no sucesso da missão, há também uma diversidade de personalidades e objetivos que provocará, ora de forma proposital, ora de forma ocasional, os contratempos da trama.

E aqui estamos falando de um personagem fundamental em Vida e que pode ser também usado como um contraponto com a composição dos personagens de Alien, O 8º passageiro, um clássico do gênero e uma fonte de onde o roteiro de Vida bebe bastante para ser composto: se em Alien, (filme de 1979, um momento ainda muito racista do século XX) o único negro entre os personagens era apenas um mecânico com ambições superficiais, em Vida o negro do filme (Hugh) é a mente brilhante da tripulação sendo um branco, Rory (Reynolds, o nome mais forte do elenco) quem faz o trabalho braçal e tem as atitudes mais selvagens e impulsivas entre os personagens ― Algo inimaginável 40 anos atrás.

E por proposital e ocasional me refiro justamente às atitudes desses dois personagens. Só o espectador mais ingênuo pode acreditar que alguém tão inteligente como Hugh pode cometer por acaso os erros imaturos que promoveram a evolução de um ser microscópico em uma ameaça a vida de todos os tripulantes. É possível notar em Hugh uma sequela social quando ele diz em uma conversa com a médica da tripulação o quanto desejaria poder dizer para a criança que ele foi um dia, o grande feito que ele realizava naquele momento. (Hugh é um paraplégico que provavelmente sofrera Bullying) aliado a isso está sua ambição científica, algo que também pode ser usado como contraponto em Alien quando é um android e não um humano que está determinado a manter a salvo e enviar para a terra a assassina vida encontrada no espaço.

Por outro lado, Roy se torna cúmplice na causa de tais contratempos, mas, diferente de Hugh, ele erra quando quer acertar ― suas manobras impulsivas desenvolve da maneira mais prática o exterminador da nave sempre que ele tenta exterminá-lo.

O filme aborda a forma de vida alienígena de maneira original, já que apesar de a principio microscópico, Calvin (como foi batizado), é muito inteligente e é isso que torna o combate dos seis tripulantes com ele muito mais que fisco, mas também um jogo de estratégia.

Como em outros filmes do gênero, a fotografia de Vida se beneficia das condições de gravidade do ambiente ao qual retrata para usá-lo como pretexto pra flutuar sua câmera durante a ação explorando-a de maneira mais livre e panorâmica.  Só que o filme não se acomodou a ponto de não ter um critério para usar o recurso, mas o aproveitou para reforçar no espectador uma sensação de voyeurismo  quase sempre tudo é visto de dentro para fora, seja pelos monitores, seja através dos vidros que nos mostram, na companhia de alguns personagens, o drama vivido por aqueles que precisam sair por algum motivo. Uma decisão da direção/roteiro que aprisiona o espectador na nave para aumentar a tensão.

Sugerindo uma reflexão a respeito do valor da vida que temos e conhecemos, o filme também nos permite notar uma metáfora que ilustra uma das dinâmicas da sobrevivência:  quando viver significa sacrificar a vida do outro. O longa exala tanto o que há de instintivo em qualquer que seja a forma de vida, como também o que há de racional quando os personagens precisam tomar as mais difíceis decisões.

E para aqueles que lideram a busca pelo desconhecido, a advertência de que sua ambição pode ser sua desgraça, seja ela por orgulho, ganância ou apenas curiosidade.  O resultado pode ser bem diferente de tudo aquilo que chamam de progresso.

Assista ao trailer do filme clicando aqui

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Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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