Crítica – 7 Dias em Entebbe

O novo filme do diretor José Padilha, que tem nuances de obra experimental, conta uma história a qual já sabemos como começa e como termina. O grande desafio de relatar um fato histórico em filme é dispor da criatividade que o formato exige para explorar o inexplorado e dar aquele aspecto de novidade que atrairá o espectador para assistir a versão artística de algo que ele já cansou de ver nos jornais. A abordagem que o diretor brasileiro escolheu para tornar seu filme atraente é nos fazer espectadores não apenas dos fatos narrados, como também das emoções que motivaram os envolvidos nos conflitos da história, algo muitas vezes imune às lentes formais do noticiário, mas quase sempre suscetível as sensíveis lentes cinematográficas.

Em 27 de junho de 1976, uma aeronave da companhia Air France, com mais de duzentos passageiros a bordo, foi sequestrada por membros do grupo extremista FPLP (Frente Popular para Libertação da Palestina) logo após partir de Atenas, conexão feita entre Tell Aviv e Paris, seu destino final. Os terroristas então mudam o trajeto para Entebbe, Uganda, depois de uma parada para abastecimento em Bengasi, na Líbia. Lá são esperados e apoiados pelo ditador Ugandense Idi Amin, ex- aliado de Israel, principal alvo da FPLP no sequestro. A exigência é clara e direta: Eles querem a libertação de vários terroristas presos em diferentes países da Europa ou irão explodir o avião. As autoridades do governo israelense, que tem uma rígida política de não negociar com terroristas, se reúnem para decidirem o que fazer durante o prazo de pouco mais de 24 horas dado pelos terroristas para que suas exigências sejam atendidas.

O filme apresenta duas linhas narrativas básicas: os eventos relacionados à execução do sequestro e os eventos relacionados ao plano de ação do governo israelense. Em cada uma dessas linhas há contrastes trabalhados pela linguagem do filme – um dos sequestradores é mais condescendente e comedido do que os demais, muitas vezes indo contra decisões radicais. No outro lado, temos o conflito de opiniões entre o ministro da defesa, Shimon Peres, e o primeiro ministro, Yitzhak Rabim, a respeito de com lidar com o caso. Notem que ambos os personagens são sempre destacados pelo figurino e posicionamento em cena dos atores; estão quase sempre à margem dos seus respectivos grupos nas reuniões e quase sempre usando um tom diferente nas roupas como símbolo de dissonância.

Interessante também é a maneira como o roteiro e a direção lidam com a figura do ditador Idi Amin. Nos documentários a respeito do caso (e no próprio filme, mas de uma maneira mais sutil) há menções de sua vaidade e imprevisibilidade: Idi Amim era ávido por reconhecimento mundial. Quando a aeronave chega a Entebbe, ele recebe pessoalmente os passageiros, que o ouvem em um discurso de alguns minutos. Aqui compreendi o filme simbolizando o desejo dele por visibilidade mundial, pois nesta cena ele discursa para uma multidão formada por dezenas de países representados pelos reféns, já que apenas metade dos passageiros do voo era israelense. Ao mesmo tempo em que o ditador foi a pedra angular para a estratégia palestina ao fornecer estrutura e retaguarda, foi também seu calcanhar de aquiles ao intervir sem eficiência nas negociações entre as partes envolvidas, o que acabou por libertar grande parte dos reféns, que foram utilizados em interrogatórios fundamentais para a montagem de uma operação de resgate.

O desfecho é breve fulminante assim como a conclusão da operação decidida pelo governo de Israel para resgatar os reféns, e o roteiro teve o cuidado de humanizar esse núcleo ao nos colocar na perspectiva de um dos soldados, que estava ali arriscando sua vida após deixar alguém que ama o esperando voltar, algo bem representado e associado em uma montagem paralela entre uma apresentação de teatro e a invasão impetuosa que socorreu as vitimas do sequestro.

O filme não é tão empolgante, mas foi bom ver, na abstrata cena pós crédito, os nomes José Padilha, Daniel Rezende e Lula Carvalho. Trata-se de uma parceria brasileira que vem cultivando, filme a filme, uma orgulhosa longevidade no cinema internacional.

Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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