Crítica – Desejo de Matar

Sempre admirei filmes de ação que resistem à ansiedade de logo despejar sobre o espectador suas cenas mais movimentadas sem antes construir os fundamentos que as justifiquem de uma maneira convincente, como se a pressa fosse uma imposição do gênero e único interesse do público. Como gosto de ser totalmente surpreendido por um filme, geralmente evito assistir a trailers e levo para a sessão apenas o título na mente. Por isso que Desejo de Matar me deixou bem pessimista em relação ao que eu iria assistir, pois é um título que imediatamente nos remete a um ímpeto e uma precipitação que comprometem a qualidade narrativa de um filme. Mas como não se deve julgar um livro pela capa, descobri também que não devemos julgar um filme por seu título.

Paul Kersey (Bruce Willis) é um dedicado médico que tem sua família atacada por bandidos depois de ter que deixá-la sozinha em casa para atender a um chamado do hospital.  Sua esposa não resiste e morre, enquanto sua filha fica em coma. Ante a inércia da polícia, que parece não se esforçar o suficiente para encontrar os criminosos, Paul decide fazer justiça com as próprias mãos.

A simples sinopse sugere uma premissa comum a ponto de não conseguir oferecer recursos suficientes para que seus desdobramentos despertem um mínimo de interesse, mas o fato é que o roteiro se torna inventivo ao decidir evoluir o filme através de um sutil debate ético e moral que tem sua abordagem apresentada já na primeira sequência: um policial e um criminoso são socorridos no mesmo hospital depois de um confronto a tiros. Paul não consegue salvar o policial, que não resiste aos ferimentos. Após dar a má noticia ao policial que tentara socorrer seu colega, Paul parte para sua tentativa com o criminoso e é questionado: “você vai mesmo tentar salvar ele?“ Paul responde de uma maneira indiferente: “se eu conseguir…”. Esse diálogo é fundamental para estabelecer os princípios de Paul – se ele usa suas mãos de médico para salvar um assassino, jamais usaria suas mãos como justiceiro para matar outro. Além de ser fundamental em termos de construção e apresentação de personagem, a introdução é extremamente funcional ao estabelecer também o tema lei contra o crime invadindo o habitat de Paul, e a relação entre indulgência e punição contra criminosos.

É nesse ponto que o título do filme ganha um sentido bem menos óbvio do que aparenta, pois Paul não começa a derramar sangue por sadismo. A principio ele sequer deseja a morte de criminosos por vingança, mas por um sentimento de eficiência e utilidade ausente naqueles que deviam por obrigação oferecê-los. Mas interessante mesmo é notar como essa metamorfose emocional e moral ocorre de maneira quase que contemplativa e realista. A morte de sua esposa e a ineficiência da policia não foram suficientes para transforma-lo, ele também precisou testemunhar nas ruas o quanto o crime vitimiza pessoas de bem sem que haja alguém para socorrê-las, além de refletir a respeito da filosofia de segurança independente pregada por seu sogro. Quando ele vai a uma loja de armas, mas acaba desistindo de comprá-las após muito avaliar o local, a atendente e as condições, o filme está nos informando o quanto ele está racional em relação a seus objetivos. É o acaso que faz dele um homem armado e, depois de um treinamento amador, ele se considera pronto para ser uma espécie de vigilante noturno.

Assim, Desejo de Matar evita apenas nos apresentar a um médico que se tornou um justiceiro, mas nos faz acompanhar essa transformação do início ao fim. Na falta da identidade daquele que matou sua esposa, Paul passa a enxergar o rosto de um criminoso em todos os outros. A culpa que o consumiria se deixasse um assassino morrer na mesa de cirurgia agora ele sentiria se deixasse qualquer um viver.

Pela coragem de diminuir o ritmo para conferir densidade à história apesar de ser um blockbuster é que Desejo de Matar se torna um filme de ação tão humano como poucos que já assisti.

 

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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