Crítica – Eu Só Posso Imaginar

Em 2004, a música Se Eu Pudesse Imaginar, gravada na voz do então recém-convertido Cris Durán em seu disco de estreia na música gospel, marcou um momento de minha vida sem que eu sequer pudesse imaginar que quase quinze anos depois eu iria analisar o filme que revelaria a origem de sua versão original, I Can Only Imagine. A música, que dá nome ao filme, foi inspirada na sofrida relação de uma vida inteira entre pai e filho, mas escrita em apenas dez minutos, após um breve período de reencontro entre eles depois de anos sem se falar. Tanto minha experiência como ouvinte quanto a experiência do autor como compositor revela a natureza do processo criativo que envolveu a canção: conectar passado e presente para conceber algo novo. No meu caso, este texto; no caso dele, a própria música.

Bart Millard foi uma criança maltratada por um pai que encontrava na agressão a sua família uma válvula de escape para a dor provocada pela frustração de seus sonhos terem sido interrompidos na juventude. Ele tenta sufocar qualquer manifestação criativa de seu filho para escravizá-lo em um senso de realidade que ele julga necessário para viver sem sofrimento. Os desdobramentos dessa relação opressora fragmentam a família e colocam Bart na estrada, onde ele encontra os desafios que alimentam seu dom musical. Logo ele descobre que um destes desafios exige um reencontro com o passado para “deixar a dor se tornar inspiração”, como aconselha seu produtor musical, em um momento do filme. Então, depois de um difícil exercício de perdão, ele descobre uma música escondida em algum lugar de sua vida como um tesouro há muito tempo enterrado, e a exibe para o mundo, transformando-a na música gospel mais tocada de todos os tempos.

Estamos falando de alguém que recebeu um dom dos céus. O filme apresenta essa mensagem de maneira visual já na cena de abertura, quando, do alto e no interior de um imenso auditório vazio, a câmera desce suavemente até Bart surgir em cena dedilhando timidamente no piano a introdução de I Can Only Imagine. Alguns minutos depois, quando começam os flashbacks que contam a história, mais uma cena começa do alto e em movimento descendente para encontrar Bart ainda criança no quintal de sua vó. Então há um corte para exibir a brisa que sopra o sino dos ventos pendurado na varanda, provocando uma musicalidade que atrai, de maneira quase hipnótica, a atenção de Bart e mais uma vez sugere a ideia de talento adquirido diretamente do céu. Durante todo o filme será recorrente esse movimento de câmera. Ela paira, principalmente, sobre os veículos em movimentos para sugerir alguém que sempre os observa e acompanha do céu em suas jornadas.

E por jornada podemos entender como fim, o seu próprio começo. Como na premissa do livro O Alquimista, Bart descobre que ao deixar sua casa em sentido ao sucesso, estava na verdade deixando ali o tesouro que esperava encontrar no fim da estrada. Seu reencontro com o passado tem como representação física, além da pessoa de seu pai, o diário onde escrevia na infância e que agora, através dos rabiscos ali encontrados, é como um mapa para o tesouro de sua vida: a música I can Only Imagine.

A simples sinopse sugere que este texto expôs demais o filme para o espectador que ainda não o assistiu, mas a verdade é que, como em todo filme de atmosfera, que é feito mais para provocar sensações do que raciocínio, a riqueza desta história está nos detalhes: é preciso ouvir as canções, é preciso contemplar as expressões cativantes dos personagens, é preciso se sentir, da maneira que cada espectador encontrar, como alguém que faz parte daquela história. Como eu me senti ao me lembrar de como a versão em português desta música significou tanto para mim em um momento.

Estamos acostumados, principalmente nós que apreciamos uma boa trilha sonora, a testemunhar a música completando o sentido e a história de um filme. Mas este é um caso em que o filme completa o sentido e a história de uma música. Mais do que isto, aqui a música é um personagem, é o clímax, é a trilha sonora e é, antes de tudo, a razão do filme existir.

Assista ao trailer do filme clicando aqui.

Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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