Crítica — Logan

Um plano detalhe enfatiza as rugas no rosto de Logan no momento em que ele desperta de um período em que esteve inconsciente dentro do carro que está sendo roubado por uma gangue. A seguir, um corte para outro plano detalhe que acompanha o andar manco e cansado do homem que sai do carro sem a juventude que há muito o abandonou.  Quando enfrenta os bandidos, o que vemos é apenas um lampejo de quem foi o famoso Wolverine que conhecemos.

A sequência inicial de Logan resume parte do que seria esse road movie repleto dos perigos que o debilitado protagonista encontraria em sua estrada de fuga e perseguição.

Estamos em 2029, época em que os mutantes são uma raça em extinção e Logan, um dos poucos remanescentes e com seu poder de cura diminuindo, trabalha como motorista além de cuidar (com zelo apesar de também muita impaciência) do nonagenário e doente Charles Xavier.

A trágica existência de Logan fica ainda mais ameaçada quando a desesperada Gabriela, uma enfermeira testemunha de um fato hediondo, surge implorando que ele ajude a pequena Laura a atravessar a fronteira canadense. Logan resiste ao pedido por saber que a menina, uma mutante que possuiu seus mesmos dons, está sendo procurada por uma perigosa organização. Entretanto, uma serie de eventos (entre eles, o fato do professor Xavier estar esperando há tempos pela menina) acabam por tornar inevitável que Laura faça parte da jornada de Logan.

Logan é um filme para maiores de 18 anos que não usa a alta classificação apenas para despejar conteúdo adulto sobre o espectador. É um filme que não quer ser limitado ao contar a historia de amadurecimento de seu protagonista. O resultado disso é um filme realista onde enfim vemos sangue durante as cenas de extrema violência e linguagem imprópria, mas também encontramos o homem decadente que agora parece ter a si mesmo como um de seus inimigos: O homem poderoso que ele foi, seu passado, sua natureza.

E esse ponto é apresentado em uma metáfora sutil apesar de posta em cena de maneira violenta em uma batalha sangrenta entre Logan e um dos vilões do filme, quando ele luta contra “ele mesmo”.

Mas é uma pessoa pequena que ajuda a tornar o filme grande. Pequena no tamanho, mas imensa em importância: A menina Laura é a fagulha que provoca a explosão que se torna o momento derradeiro da existência de Wolverine na versão de Hugh Jackman.  O bom trabalho da atriz Dafne Keen mostra, além de seu talento, a competência da produção desde a escolha do elenco até a execução no trabalho de direção de James Mangold. A expressividade que há no olhar da atriz é fundamental para conferir poder de comunicação a uma personagem que não fala. O olhar de Laura é selvagem em situações de ameaça e doce, quase inocente, quando está cercada pelas circunstancias de sua infância. Em um momento quando esses comportamentos são mesclados, ela deixa seu prato de sucrilhos para retalhar aqueles que interromperam sua refeição matinal na tentativa de rapta-la.

A jornada na estrada de Logan, professor Xavier e Laura é pontuada com momentos que constroem as razões do clímax e alimentam as motivações dos personagens. A introdução de gente nova (literalmente nova) durante essa evolução irá definir também como rito de passagem, um filme feito para registrar o fim de um ciclo.

Ousado e transcendente — ainda não se viu um filme tão realista e humano assim da Marvel — Logan também é uma reverência ao personagem e ao ator que o definiu no cinema. Acaba por ser, além disso, a reflexão de que o dom da indestrutibilidade física do personagem não se estende a suas emoções e sentimentos.

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