Crítica – Nada a Perder

A narrativa de Nada a Perder parece ter sido planejada com a intenção de fazer o espectador sentir o peso do mundo que desabou sobre o bispo Edir Macedo durante os vários contratempos que ele precisou enfrentar desde sua infância até a vida adulta, quando construiu um contestado império chamado Igreja Universal do Reino de Deus. Rejeição, hostilidade, crise existencial, acusação e perseguição – um roteiro que apresenta alguém tão resiliente a tais ataques está na verdade tentando desenhar um herói. herói este que tem como seus maiores vilões a igreja católica, a Rede Globo e política.

Após introduzir o protagonista em sua infância através de breves cenas, Nada a Perder nos apresenta um adolescente em fase de transição da fé católica, imposta por sua família, para a fé protestante aderida após uma experiência que ele teve com sua irmã doente. Então começa a jornada de Edir Macedo para praticar um modelo de evangelho reprovado pelos lideres espirituais da época, os quais ele teve que ir abandonando pelo caminho até montar sua própria igreja, cujo crescimento e prosperidade lhe renderam acusações de charlatanismo e lavagem de dinheiro.

Nada a Perder está comprometido desde o inicio do filme com o objetivo de transmitir uma mensagem de ascensão e crescimento em um cenário que oferece desafios e perigos a alguém corajoso e rejeitado. Notem, por exemplo, a primeira cena que traz Edir Macedo quando criança – Entre ele e um grupo de crianças jogando futebol há uma linha por onde está passando um trem. A cena toda é um símbolo de isolamento e distancia entre ele e o mundo. Em outro momento da mesma sequência, ele é desafiado pelos outros garotos a subir uma árvore como exigência para ser aceito nas brincadeiras do grupo. Ele sobe obstinado para provar coragem em busca de reconhecimento e valor, mas cai a partir de uma certa altura e se machuca. Estava estabelecida uma metáfora visual que representa, em uma só imagem, a ideia de desafio, coragem, esforço e dor; elementos que estariam presentes no desenvolvimento do filme. A narrativa retoma esta dinâmica quando, ao fundo da cena em que ele conhece Ester, que se tornaria sua esposa, há uma escada reforçando mais uma vez a ideia de ascensão e crescimento. Quando ele a pede em casamento, a escada volta para compor o cenário, mas agora com eles dois ocupando os degraus.

O filme é quase um depoimento; é a versão dos fatos narrados por uma perspectiva autobiográfica que até tenta parecer imparcial, mas escorrega em exageros que revelam uma certa avidez por tentar nos convencer de que tudo aconteceu exatamente como as cenas descrevem. É cansativa, por exemplo, a insistência do roteiro em tentar afirmar o tempo todo as virtudes do bispo Macedo em cenas que parecem mais uma propaganda de seu caráter do que o relato de uma historia. Seu único defeito durante duas horas de projeção é ser ríspido no tom de voz com a esposa quando censura o fato dela dormir demais, e exige dela pontualidade nos encontros com ele. Fora isso, o filme nos sugere que ele é um homem perfeito.

Também notamos o filme se esquivar da polêmica em torno do dinheiro em ofertas. A menção só ocorre no clímax, quando é inevitável, já que o roteiro decidiu usar as acusações contra o bispo em seu desfecho. Mas não há uma única cena sequer que ao menos sugira o bispo ou qualquer um dos envolvidos com ele fazendo qualquer apelo para ofertas.  O roteiro transfere todas as menções a dinheiro para os adversários da Igreja Universal através das acusações que fazem, algo que o filme sugere nas entrelinhas se tratar muito mais de um sinal de o quão ameaçados eles se sentem com o progresso da IURD, do que a indignação que dizem sentir. A figura de Edir Macedo no filme parece tentar transmitir até uma certa indisposição em relação a dinheiro na igreja, algo que fica evidente quando o missionário R.R. Soares, seu cunhado e companheiro de ministério por um período, oferece a ele um cargo de tesoureiro – ele demonstra desconforto com a ideia e alega que “prefere a ganhar almas”. Na verdade, o filme o retrata como vitima daquilo em que foi acusado, pois, já no primeiro ato, o Edir adolescente vai com o pai até um curandeiro que cobra uma quantia de dinheiro para salvar a irmã dele que sofre de bronquite asmática. Um plano interessante nesta cena mostra Edir ao fundo no momento em que o dinheiro é passado das mãos de seu pai para o curandeiro.

Faltou sutileza em Nada a Perder. Só isso. Se o homem do filme é o mocinho que o filme apresenta ou o vilão que os desafetos garantem, pouco importa. Importa como o filme é sobre o que ele é. Alias, considerando o fato de que a maioria esmagadora do publico lotando as salas de cinema para conferir esta história é composta por membros devotos da IURD e admiradores do bispo, acho que tentar convencer alguém de alguma coisa aqui seria “chover no molhado”.

A cena pós-crédito trás o líder da igreja em uma mensagem seguida de uma oração. De repente comecei a ouvir sussurros ao meu redor – grande parte dos espectadores (irmãos) estava orando de pé com as mãos cruzadas sobre o peito. Ao fim da oração, aplausos e gritos de aleluia e glória a Deus. Nunca vi uma interação entre público e filme tão grande como aquela. Sai da sala surpreso com o dia em que uma tela foi feita de púlpito e uma sessão de cinema virou um culto.

Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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