Crítica – Tomb Raider

Tomb Raider – A Origem é dos filmes que chegam para atender uma demanda urgente em Hollywood nos tempos de Time’s up, movimento que reage contra as agressões e o menosprezo pela importância das mulheres. A mensagem clara de empoderamento que o roteiro constrói está evidente em vários recursos narrativos do filme. Não que Lara Croft, heroína em jogos de ação, seja novidade no cinema, pois Angelina Jolie deu vida à personagem duas vezes na década passada. Mas só agora me parece ter surgido uma versão de Tomb Raider preocupada em apresentar o passado da heroína em detalhes relevantes, que conferem a ela uma maior profundidade dramática, o que acaba por se revelar uma obra planejada a serviço da personagem ao invés de uma personagem planejada a serviço de uma obra. Ou seja, a necessidade comercial de exibir uma mulher sensual batendo em um monte de marmanjo agora é menor do que a importância de se reforçar uma causa.

 Richard Croft, um arqueólogo obcecado por uma lenda que envolve o túmulo de uma antiga rainha japonesa, decide partir para ilha onde ela se encontra e nunca mais retorna, deixando órfã sua filha Lara, que a partir de então se torna uma “milionária não praticante” por se recusar a assinar um documento que reconhece a morte de seu pai, o que lhe permitiria tomar posse da herança.  Ela então decide ganhar a vida entregando encomendas e extravasa sua energia praticando artes marciais, enquanto uma tutora toma conta da fortuna dos Crofts . Após uma serie de eventos que a impele a decidir assinar os papeis que formalizam a morte de seu pai, ela descobre pistas em seu testamento que levantam a possibilidade de ele ainda estar vivo. Lara decide partir para a mesma ilha, pedindo antes a ajuda de Lu Ren, um navegador oriental que se torna seu grande aliado durante os desafios que enfrentariam na ilha.

Um dos pontos fortes da narrativa de Tomb Raider – A Origem é a coerência em justificar, na primeira parte do filme, as habilidades físicas que Lara apresentou no segundo e no terceiro ato. A cena que a introduz no filme acontece em um ringue onde ela treina uma arte marcial. A seguir, descobrimos mais de seu espírito atlético quando a vemos pedalar pela cidade no exercício da função de entregadora, e, em um flashback, conhecemos a Lara criança praticando arco e flecha. Tudo contribuindo para que seu desempenho heroico no restante do filme fosse convincente.

Mas, como já comentado, talvez o maior mérito do filme seja justamente um de seus significados mais fortes, que saltam da narrativa em simbolismos admiráveis. Notem, por exemplo, quando Lara está envolvida em uma competição ciclística, onde corre a frente de dezenas de competidores (homens), que precisam alcançá-la, mas não conseguem. Notem, também, que em momento nenhum do filme ela é socorrida por homens durante os conflitos contra seus inimigos, pelo contrário, é ela quem salva centenas de homens de um trabalho escravo na ilha. Até quando ela se envolve em um incidente que termina na delegacia é uma mulher (sua tutora) que vem libertá-la.  Outra manobra curiosa do roteiro para estabelecer a inversão da dinâmica entre força e dependência dos sexos no filme é o fato de Lara ter buscado ajuda de um homem para levá-la até a ilha, mas sua participação se limita a mera colaboração, sendo ele mesmo salvo por ela algumas vezes ao invés de acontecer o contrário. Em filmes como Indiana Jones (para fazer uma comparação bem próxima em termos de gênero) temos o herói na companhia de uma mulher que, de tempos em tempos, precisa ser socorrida por ele. Ou seja, a presença feminina em um filme como este existe apenas para reforçar a importância masculina.  É por isso que notei um truque que o roteiro criou para mandar um recado para o espectador em um momento fundamental do filme: vemos Lu Ren seguindo em direção a um local onde logo a seguir Lara será imobilizada pelo vilão durante um combate. Imediatamente previ que Lu chegaria para salvá-la, mas ela reagiu sozinha com um golpe e se libertou. Quando a cena acabou, frustrando minha expectativa de Lara ser salva por Lu, foi como se o roteiro dissesse: “não será como você está acostumado a assistir. Pelo menos não hoje, não aqui”.

Há outras rimas temáticas que prefiro deixar o espectador descobrir por si só. O filme é rico em mensagens visuais.

Talvez um usuário do game tenha uma avaliação bem mais precisa do que a minha no sentido a ação do filme, já que em adaptações desse tipo a relação entre as mídias faz toda a diferença. Mas posso dizer que no que diz respeito a cinema, fiquei bem satisfeito

Aparentemente Lara Croft chega para ficar. O Final sugere continuações promissoras. Como nos bons filmes de origem, heróis e vilões surgem mesmo é nas cenas finais.

Assista ao trailer do filme clicando aqui

 

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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