Crítica – Trama Fantasma

Paul Thomas Anderson é um daqueles diretores que ao invés de usar personagens como ferramenta para contar uma história, usa uma história como pretexto para desenvolver os personagens que cria. Isso por si só talvez não seja o suficiente para explicar a qualidade de sua obra, pois há uma serie de considerações a se fazer a respeito da construção técnica de seus filmes. Mas, com certeza, ter como principal interesse artístico a expressão da complexidade do ser humano é o que torna tão atraentes filmes como Trama Fantasma, que, em se tratando de roteiro, nada mais é do que a historia da paixão entre um estilista e uma garçonete.

Reynolds Woodcock é uma figura influente na alta costura de Londres. De suas mãos surgem os vestidos mais cobiçados até pela realeza de outros países. Certo dia, durante uma vista ao interior, ele conhece a garçonete Alma e a convida para jantar. Logo ela passa a viver com ele em sua casa, auxiliando-o em sua rotina de alfaiate. Se acrescentarmos a essa simples sinopse o fato de Reynolds ser um homem extremamente excêntrico e Alma uma mulher de aspecto contido e infantil, mas que logo evolui para (ou se revela) alguém com coragem, ousadia e uma boa dose de cinismo, a trama que Paul Thomas Anderson costura – com o perdão do trocadilho – começa a ganhar contornos mais densos.

Sem as particularidades da personalidade de Reynolds, o filme não existiria. Sua imprevisibilidade exala um coquetismo que provoca inquietude em Alma, mantendo-a atraída e confusa com a alternância entre presença e ausência, frieza e calor, esperança e frustração que a experiência com Reynolds oferece. Ela é seduzida por sua gentileza e pela elegância em seus modos, mas o magnetismo parece se estabelecer mesmo é através da curiosidade provocada pelo choque que a mudança de tom nas atitudes dele causa. – Reynolds é impetuoso e ferino nas palavras muito bem escolhidas para ofendê-la quando está incomodado, por exemplo, com os ruídos que ela faz ao tomar seu café da manhã ou quando ela o desagrada ao preparar para ele um jantar surpresa que tinha o propósito de ser uma declaração de amor.

Mas em um momento Alma parece ser muito mais que o alvo das intolerâncias de Reynolds, sendo seu motivo, também, ao tentar provocá-las. O jantar surpresa fora desencorajado pela irmã dele, Cyril, afirmando que seu irmão não gostava de surpresas. Mas Alma responde dizendo que gostaria de conhecê-lo a sua maneira. O que interpreto aqui é uma personagem provocando a fúria de alguém que, por sua vez, provocaria a manifestação de uma mulher que Alma não conseguiria trazer a tona sozinha, precisando de estimulo para isso. Logo após a decepção do jantar ela se torna corajosa e, ao observar que ele se tornava mais aberto a ela quando estava fraco, trata de enfraquecê-lo para trazê-lo para seus braços usando a gastronomia para isso. O espectador mais atento perceberá que não é por acaso o fato do nome Alma significar, entre outras definições, “aquela que nutre”. Menos ainda será por acaso o fato de ambos terem se conhecido e flertado durante o momento que ela o serviu um farto café da manhã em sua atividade de garçonete. Os momentos de refeição pontuando o início, meio e fim da projeção são de uma simetria admirável.

Trama Fantasma é um trabalho delicado que depende do figurino (até por questões óbvias) para transmitir sua exuberância visual e provavelmente será o vencedor desta categoria na premiação de hoje.  – Um vestido aqui não é apenas uma roupa, mas uma marca, um comportamento, uma obra de arte e representação de status. Flagramos até sua importância sobrepor a de um ser humano em um momento. O clímax do jogo sedutor entre Reynolds e Alma no primeiro ato do filme trata de um balé das mãos dele – apresentados em uma serie de planos detalhes – sobre o corpo dela vestido de um molde onde ele tira suas medidas para um vestido exclusivo. Os acordes da trilha sonora, composta por Jonny Greenwood, guitarrista do Radiohead e grande colaborador de Paul Thomas Anderson em filmes anteriores, colabora para transmitir a atmosfera de fascinação neste e em outros momentos, se limitando a silêncio absoluto em sequências de diálogos importantes. Certamente outra categoria merecedora de um dos prêmios aos quais foi indicado.

Eficiente ao explorar e expor necessidades emocionais tão básicas de um ser humano incomum, Trama Fantasma se revela um ótimo estudo de personagem – Padecendo, Reynolds se sentiu humano, por isso Alma se tornou tão importante: simplesmente por fazer com que ele sentisse algo. – encontrei aqui nuances de A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues –  Além disso, o filme é uma imersão em um universo de prestígio, luxo, requinte, solidão, insatisfação, desprezo e intolerância na mesma medida.

 

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Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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