Crítica – Três Anúncios Para um Crime

É preciso discutir apenas a essência de Três Anúncios Para um Crime em uma crítica para preservar a ótima experiência que o filme oferece nos detalhes de seu roteiro. A bem estruturada cadeia de causa e efeito da narrativa começa bem antes de o filme começar, quando uma adolescente é assassinada, e termina logo depois que ele acaba, pois a sequência final apenas sugere as futuras atitudes dos personagens. Um filme que não traz o espectador de onde ele vem e não o leva para onde vai, pretende fazer dele testemunha apenas do que realmente considera importante na história, assim como fez Mildred Hayes quando expôs aos olhos da cidade a única coisa que realmente importa para sua vida ao fragmentar em três outdoors uma frase que cobrava o xerife por ainda não ter encontrado e prendido o assassino de sua filha.

Mas Mildred está sozinha, ninguém concorda com sua atitude. O roteiro usa um padre, um dentista e um estudante como representação mais explícita de o quanto a cidade reprova seu protesto. Trata-se de uma sociedade com traços conservadores, que aprova as arbitrariedades da polícia local e consente com sua negligência em relação a investigação de um homicídio, preferindo condenar quem protesta contra sua inércia em vez de apoiar quem grita por justiça. O filme atribui a hostilidade do povo contra Mildred à popularidade de Bill Willoughby, o xerife da cidade, interpretado por Woody Harrelson. É um personagem com participação concisa, mas vital. Bill não sabe o que fazer, mas se sente na obrigação de fazer algo apesar de ter apoio caso decida não fazer nada. Em uma cena em que o médico que o atende retirando sangue de uma de suas veias faz um comentário que o enfurece, Bill arranca e arremessa a seringa contra um espelho, espalhando uma mancha de sangue na altura do reflexo de sua cabeça e dizendo em seguida: “cansei, não posso desperdiçar minha vida esperando” Nesse momento interpretei uma metáfora (confirmada com o desfecho deste personagem na trama) que simbolizava o homem prático, disposto a um auto-sacrifício em defesa de sua família, colegas de trabalho e todos aqueles para quem ele deve prestar um serviço. Suas relações e decisões determinam o desdobramento da historia, principalmente em se tratando do desenvolvimento do arco dramático de Dixon, um policial racista e encrenqueiro.

Mas não espere o roteiro antagonizar a polícia, pois, como o comportamento de uma criança mimada, que tem sua origem na criação superficial e omissa de um pai, as atitudes da policia local em Três Anúncios podem ser consideradas o resultado de uma sociedade insensata e acomodada que as alimenta. Na maior parte do tempo a polícia é tão ineficiente quanto inofensiva, sendo até responsável por boa parte do alívio cômico do filme.

O vilão aqui é bem mais coletivo do que individual: é a indiferença pela dor do próximo. É algo bem presente, mas sem necessariamente possuir um rosto.

E falando em rosto, Mildred, interpretada com excelência por Frances McDormand, é a cara do filme. Uma mulher de sofrimento contido e dona de um olhar que mescla selvageria e desdém. Sua língua é ferina, ferramenta para palavras irônicas e secas, donas de muitos dos momentos mais memoráveis da projeção. Impossível não investir emoções nesta personagem tão bem construída por uma atriz que já está com uma mão no Oscar de melhor atriz deste ano.

Três Anúncios Para Um Crime é, com toda justiça, um dos favoritos ao prêmio de melhor filme de 2017. Sua execução é segura e trabalha para expressar o peso dos personagens de uma maneira direta e sem rodeios, rimando com as atitudes de sua corajosa protagonista.

Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

0 Comments

Leave a Comment

Login

Welcome! Login in to your account

Remember me Lost your password?

Don't have account. Register

Lost Password

Register

Likes