Crítica – Um Lugar Silencioso

Em um ensaio que escreveu para o livro Grandes Filmes sobre Alien – O Oitavo Passageiro, o crítico americano Roger Ebert identifica o ritmo do filme dirigido por Ridley Scott como um de seus grandes trunfos para provocar tensão e permanecer na imaginação do espectador. “O filme não se apressa. Espera. Permite silêncios.“ ele ainda destaca a aparência e a presença misteriosa do monstro, comparando a obra com filmes contemporâneos ao afirmar que “uma versão dessa historia, hoje, se deslocaria depressa para a parte em que o alienígena salta sobre os membros da tripulação”, pois os filmes do gênero agora são “cem por centro barganha e zero construção.” Lembrar deste excelente texto enquanto assistia a Um Lugar Silencioso me fez compreender que o filme tem uma habilidade muito parecida com a de Alien em absorver o espectador minuto a minuto através de seu ritmo. Mas, apesar do que condenou Ebert, aqui a criatura salta sobre um dos personagens logo no inicio da projeção, porém o espectador notará a importância que esta cena tem para desenvolver um arco dramático que se refere a relação entre pai e filha no filme, não abrindo mão, a partir de então, de desacelerar para convidar o espectador para uma imersão no suspense através de sua imaginação, expectativa e atenção aos detalhes.

Um Lugar Silencioso é mais um filme que não traz o espectador de onde ele vem e não o leva para onde vai. Quando o filme começa, a sociedade parece já estar enfrentando há tempos a ameaça que é conviver com uma criatura cega, que localiza suas vitimas através dos mínimos ruídos que elas possam provocar.  Daí a necessidade de abafar até os passos, solução encontrada ao fazer trilhas de areia pelos caminhos a percorrer. É através da perspectiva de uma família composta por um casal e três crianças que somos informados a respeito do estado apocalíptico que o mundo vive: eles estão isolados no que parece ser uma fazenda, onde produzem seu próprio alimento e vivem de recursos estruturais improvisados que incluem um planejamento de defesa e contra-ataque.

A natureza da criatura é, com certeza, a sacada do roteiro que permite a construção dos demais elementos responsáveis pela Atmosfera angustiante do filme. Sua hipersensibilidade auditiva impõe um silencio ensurdecedor aos personagens para que permaneçam vivos. A esta angústia atribui-se também ao fato de a mãe da família estar grávida e um dos personagens ser surdo. Ambas as situações provocam expectativas de risco – o monstro não pode ver alguém que não pode ouvi-lo e a qualquer momento a mulher terá que gritar a dor de seu parto.  O milharal por onde uma sutil perseguição labiríntica ocorre é um clichê do gênero que acaba sendo aceitável aqui por não explorá-lo tanto e o reservatório abastecido de sementes é o cenário de uma das sequências mais interessantes do filme.

A impossibilidade de muitos diálogos entre os personagens (me lembro de ter contado apenas dois) os obriga a uma dinâmica de contato visual e físico que favorece uma interação mais viva e íntima. É como se a censura aproximasse ainda mais ao invés de separar, os meios de comunicação são reinventados e adaptados. Assim, Um Lugar Silencioso é sutil ao relacionar os limites sonoros aos níveis emocionais dos personagens, o que também inclui o fato de uma mãe não pode gritar a dor da morte de um filho nem a dor pelo nascimento de outro se quiser manter os demais vivos.

Um Lugar Silencioso é um daqueles filmes que me provocam curiosidade a respeito de como Roger Ebert avaliaria se ainda estivesse vivo. Ele termina o ensaio que mencionei no início do texto lamentando o fato de que os filmes que foram influenciados por Alien estudaram suas sensações e não seu raciocínio. Suspeito que Um Lugar Silencioso o deixaria mais otimista em relação a isso.

 

Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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