Coluna Matheus Alvarenga - História Regional

Coluna Matheus Alvarenga - História Regional

O bonde elétrico é um meio de transporte tradicional em muitas grandes cidades na Europa e em algumas cidades da América do Sul. No Rio de Janeiro, por exemplo, encontra-se o famoso e centenário bondinho de Santa Teresa, que atrai milhares de turistas ao longo de sua existência, colaborando fortemente para o turismo da capital carioca.

A cidade de Campos dos Goytacazes, a maior cidade do interior do Estado do Rio de Janeiro, também contou com a existência deste carismático meio de transporte, e nesse texto, relembraremos os tempos em que Campos andava literalmente sobre os trilhos.
OS PRIMÓRDIOS DO TRANSPORTE COLETIVO EM CAMPOS.
Até meados do século XIX a cidade contava apenas com os meios de transportes arcaicos, havia apenas transportes por terra na lombada dos cavalos ou pelo mar por embarcações que poderiam sofrer riscos com as ressacas da região do cabo de S. Thomé.
Segundo o historiador Horácio Souza, em 1851, um inglês chamado Alexandre Davidson iniciou os testes para navegar embarcações a vapor no Rio Paraíba do Sul. Este inglês montou um estaleiro na região do Fundão, e dali preparou sua primeira embarcação batizada de “Goytacaz”, para sua primeira viagem experimental até São João da Barra. A viagem foi bem sucedida, e daquele momento em diante, Campos começou a contar com os “vapores” como um meio de transporte coletivo. Vale ressaltar que o antigo Paraíba do Sul não sofria com as ações das barragens e dos areais, desta forma, o rio tinha melhores condições de navegabilidade. Campos ainda contavam com barcas, que tinham por finalidade atravessar pessoas, animais e produtos de uma margem para a outra do rio, considerando que até meados do século XIX a cidade ainda não possuía ponte.
OS TRENS 
Com a inauguração da E.F. Macaé a Campos EM 1875, Campos passou gradativamente a contar com o transporte ferroviário como alternativa. A criação da Estação Ferroviária Leopoldina e sua consequente compra e expansão de diversas linhas, serviu para desestabilizar o transporte através dos vapores no Paraíba, e em pouco tempo, os trens se tornaram o principal meio de transporte utilizado pelos campistas para longas viagens. A chegada dos trens também serviu para diminuir a importância do canal Campos — Macaé para efeitos de logística agrícola.
OS BONDES
Em 1875, Campos passou a contar com um serviço de bondes movidos com tração animal, e assim permaneceu por décadas. No ano de 1916, a cidade recebeu seu primeiro bonde elétrico por meio de uma solenidade que contou com a participação do então governador campista Nilo Peçanha. A chegada dos bondes elétricos em Campos foi muito postergada, considerando que diversas cidades do Brasil já contavam com este meio de transporte.
Ao longo destes primeiros anos de operação, os serviços eram de responsabilidade Companhia Brasileira de Tramways, Luz e Força (CBTLF). O sistema foi municipalizado em 1923, passando para a empresa Serviços de Força, Luz e Viação em 1928, para a Serviços Industriais do Estado em 1934, e, finalmente, para a Serviços Industriais do Norte do Estado (Sine) em 1942. Na década de 40, Campos recebeu os seus primeiros bondes fechados, vindos de Petrópolis.
 
Durante a década de 50, a cidade também passou a contar com os Trolleybus (Ônibus elétrico). Na década de 70, estes veículos foram substituídos por ônibus movidos a diesel.
 
Até os anos 60, os campistas puderam passear de bondinho para importantes locais da cidade. O Liceu de Humanidades de Campos, a Av. Alberto Torres, a Praça S. Salvador e o Cemitério do Caju faziam parte das paradas de bonde. 
 
A DESATIVAÇÃO
 
Em 1964, o último bonde fez sua viagem de despedida. O governo do Estado anunciou a desativação dos bondes no município. O transporte público da cidade passaria a contar com ônibus de motores a diesel, e com isso, os bondes foram retirados.
Durante os anos em que os bondinhos estavam em funcionamento, muitas histórias e lendas foram criadas: romances, travessuras dos alunos do Liceu e fantasmas. 
Os bondinhos, apesar de muitas décadas da desativação no município, assim como a Estação Leopoldina, fazem parte da memória coletiva de nossa cidade. Campos, assim como diversas cidades, perdeu a oportunidade de conciliar o seu passado tradicional com o presente. 
Por ironia, não é difícil encontrar campistas que foram para o Rio de Janeiro e se encantaram com o bondinho de Santa Teresa, alimentando desta forma o turismo de outra cidade; assim como outros que se empolgaram em viajar de trem para outros lugares no Brasil. Tudo isto a nossa cidade possuía, e não demos o devido valor.
historia
*Matheus Alvarenga Gonçalves é um pesquisador e acadêmico do 6° período do curso de História da Universidade Federal Fluminense. Tem como principal área de pesquisa a História do Brasil Imperial.