Em O Passageiro, Liam Neeson é novamente um herói durante uma viagem perigosa

O Passageiro, novo filme de Liam Neeson (novo talvez não seja a palavra mais adequada para descrever um filme com aspectos tão semelhantes a outros trabalhos do mesmo ator), aposta em um público tão ansioso para assistir a ação prometida nos trailers e na sinopse que até é capaz de ignorar o fraco comprometimento que o roteiro tem com a lógica. Mas apesar das conveniências que enfraquecem a coerência do filme, é possível salvar a essência de seus temas, como, por exemplo, o fato de um sistema corrupto ser capaz de manipular estrategicamente a vida de um cidadão de bem para usá-lo em seu jogo sujo de poder.

O cidadão em questão é Michael, um vendedor de seguros recém-demitido pegando o trem de volta para casa como faz todos os dias. Durante esta viagem, ele é abordado por uma misteriosa desconhecida, que se apresenta por Joana e começa uma conversa aparentemente despretensiosa, mas que a termina com uma oferta irrecusável: cem mil dólares para que ele encontre outro passageiro no trem que possui algo que a interessa. A estranha desembarca na parada seguinte e desaparece. Michael, hesitante a principio, começa sua jornada em busca pelo passageiro misterioso com toda discrição possível, mas só descobre o erro que cometeu ao aceitar a oferta quando já está comprometido demais com a situação a ponto de não poder mais voltar atrás em sua decisão.

Joana, interpretada por Vera Farmiga, parece ser a vilã em O Passageiro, mas logo descobrimos que o inimigo é invisível e aparentemente onisciente e onipresente, o que representa em muito a inverossimilhança do filme – para acentuar no espectador a sensação de que o personagem está encurralado e sem escolha, o roteiro apresenta um inimigo o vigiando e o punindo sempre que ele desobedece as instruções, usando das maneiras mais improváveis para isso. O roteiro é, também, inquieto em relação as motivações do protagonista, que alternam entre ambição, sobrevivência e compaixão, sendo esta última a que o define como herói do filme, já que até então ele lutava apenas por si mesmo.

O filme se preocupa com a construção dramática do personagem principal nos primeiras cenas, o que é fundamental para fazer com que o espectador se importe com Michael. Sua demissão frustra os sonhos de sua família, que ainda nem sabe da má noticia quando ele embarca na vertiginosa viagem. No trem em questão estão personagens tão repletos de drama quando Michael, como uma adolescente fora da lei e uma enfermeira com problemas sentimentais. Mas o filme, compreensivelmente, não os desenvolve, mantendo suas aflições apenas meras companheiras de viagem do drama de Michael, que assistimos em uma perspectiva mais nítida. Um dos momentos em que o filme mais escorrega para mim é quando o roteiro, não o ator, exagera na composição de um personagem, o executivo esnobe que menospreza a todos no trem. Seus comentários são desnecessariamente provocativos e irritantes. Por mais que existam pessoas incrivelmente desagradáveis em nosso dia a dia, dificilmente encontraríamos alguém assim na vida real.

Mas se o espectador pagar seu ingresso para assistir boas cenas de ação, sem necessariamente se importar com suas causas e efeitos, irá terminar a sessão bem generoso em suas avaliações. Você verá Liam Neeson sendo Liam Neeson fazendo um filme do diretor Jaume Collet-Serra.

Em cartaz48 Posts

Amante de cenas e textos, contista nas horas vagas. Rogério Jr. traz para a coluna Em Cartaz suas impressões a respeito dos principais lançamentos no cinema.

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