Os acidentes de trânsito continuam sendo o principal gargalo no pronto-socorro do Hospital Ferreira Machado. Referência em Emergência Vermelha na região, a unidade fechou o primeiro semestre de 2026 com um indicador alarmante que revela a escalada ininterrupta de vítimas de traumas sobre duas rodas. Só nos primeiros seis meses do ano, o hospital atendeu 2.633 motociclistas.
O crescimento é visível mês a mês. O ano começou com 335 atendimentos em janeiro, saltando para 373 em fevereiro, 444 em março, 482 em abril, 484 em maio e atingindo o pico de 515 em junho. A curva representa uma alta de mais de 53% no volume de acidentes com motos ao longo do período. O balanço do semestre na unidade também revela o impacto de outras modalidades de trânsito, registrando ainda 1.099 atendimentos relacionados a acidentes ciclísticos, 413 automobilísticos e 386 atropelamentos.
Para o diretor do pronto-socorro e ortopedista, Fábio Macedo, os dados traduzem o sufoco diário das equipes. Ele destaca que, independentemente de clima, feriados ou festas, o número de vítimas aumenta todo mês, o que é facilmente perceptível nas enfermarias do hospital, que permanecem cheias. Esse cenário afeta diretamente a qualidade da assistência e exige, com urgência, uma mudança de comportamento no trânsito de Campos, especialmente em relação às motocicletas.
Além da pressão no sistema público de saúde, as colisões graves deixam sequelas severas, exigindo cirurgias complexas e longas internações em Unidades de Terapia Intensiva. Nesse cenário de sobrevivência, o condicionamento físico prévio do paciente ganha papel de destaque. O médico Aluísio Puglia explica que a prática regular de exercícios é uma espécie de seguro de reabilitação. Segundo ele, quem é ativo tem muito mais facilidade para se recuperar de um trauma, pois a maior reserva de massa muscular ajuda desde o desmame da ventilação mecânica até o processo de voltar a dar os primeiros passos. Por outro lado, o envelhecimento traz a sarcopenia, que é a perda natural de músculos, tornando tudo mais difícil. Dessa forma, exercitar-se não é só pensar em estética ou longevidade, mas em como o corpo vai reagir caso enfrente uma eventualidade dessas.
Outro ponto que acende um sinal de alerta nas estatísticas é o perigo silencioso causado pelo avanço das bicicletas elétricas. Embora o hospital ainda não tenha uma ficha de registro exclusiva para esse tipo de veículo, incluindo esses casos na estatística geral de ciclistas, médicos e pacientes apontam que a presença deles tem inflado os atendimentos na unidade.
Viviane Ribeiro Barros, de 51 anos, sentiu na pele as consequências dessa nova dinâmica urbana e está internada há quase um mês após ser atropelada perto de casa. Ela conta que ia fazer uma curva quando duas adolescentes, muito novas, vieram em alta velocidade em uma bicicleta elétrica e a atingiram. Viviane ressalta que, embora não tenha batido a cabeça, quebrou a perna de um jeito que comprometeu a parte vascular, correndo o risco de perder o pé.
Operada às pressas logo após o acidente, Viviane passou cinco dias no CTI, passou por procedimentos ortopédicos e ainda seguirá em tratamento para reconstrução da tíbia. Apesar do susto, ela faz questão de elogiar o acolhimento que recebeu na rede pública, classificando o atendimento como excelente e superior ao de muitos hospitais particulares, agradecendo o carinho recebido desde a portaria até a equipe médica.
Agora, diante de uma recuperação lenta, Viviane deixa um conselho prático para quem circula pelas ruas, alertando que as bicicletas elétricas são silenciosas e correm muito. Ela defende que falta conscientização, já que é comum ver crianças guiando veículos rápidos sem capacete e sem respeitar as regras básicas. Para ela, o trânsito exige responsabilidade de todos, lembrando que álcool e direção não combinam com carro, moto ou bicicleta elétrica. Após o trauma, ela celebra ter ganhado uma segunda chance e agora afirma ter duas datas de aniversário para comemorar.









