sexta-feira, 23 outubro, 2026

52% dos pequenos negócios do Brasil já usam inteligência artificial. O seu, em Campos, está nos outros 48%?

Por Luciano Gomes do Couto

Na madrugada de quinta-feira eu vi um vídeo que já passou de um milhão de visualizações. O título é “Você tem 5 anos para ficar rico antes que a IA assuma o controle”. O autor é o youtuber americano Mark Tilbury, que fala de dinheiro, e o recado é simples: quem não se posicionar nos próximos anos fica para trás, e a IA vai concentrar a riqueza em quem já tem ativos e tecnologia.

Fiquei mexido, mas não fiquei assustado. Fui conferir.

Metade do que ele diz tem base. A outra metade é gancho de venda: a descrição do próprio vídeo termina com o convite para um desafio de renda com IA, em um link de consultoria. Por isso eu vou fazer aqui o que ele não faz: separar o que é dado do que é previsão, e depois mostrar o que o campista pode fazer com isso. Sem prometer que alguém vai ficar rico até 2032. Quem promete isso ao telefone, eu já entrevistei, e você leu aqui.

O que é dado e o que é previsão

Dado número um. Um estudo de Stanford, com folha de pagamento de milhões de trabalhadores americanos, mostrou que o emprego de jovens de 22 a 25 anos caiu 13% nas funções mais expostas à IA, como atendimento ao cliente, análise de dados e programação. Nas mesmas funções, quem tem de 26 a 55 anos ficou estável ou cresceu. Os próprios autores dizem que a IA não elimina profissões inteiras, ela muda quem é contratado dentro delas. Os dados vão até julho de 2025 e são dos Estados Unidos.

Dado número dois. O FMI estimou, em janeiro de 2024, que a IA afeta cerca de 40% dos empregos no mundo, 60% nas economias avançadas, 40% nos mercados emergentes e 26% nos países de baixa renda. “Afetado” não é “perdido”: o próprio FMI diz que metade desses empregos tende a ganhar produtividade e a outra metade pode sofrer queda de demanda e de salário.

Dado número três, o que mais me interessou: pesquisa do Sebrae com o Meta Instituto de Pesquisa, feita em 7.182 pequenos negócios brasileiros entre março e maio de 2026. 52% deles usaram IA nas duas semanas anteriores à entrevista. Nos Estados Unidos, a pesquisa equivalente deu 21%. E tem mais: 90% dos que usam IA não mudaram o número de funcionários. 5% cortaram vagas e 3% contrataram mais.

Ou seja: o brasileiro pequeno já está nessa. A janela existe, mas não é uma janela de cinco anos para começar. Usar o ChatGPT para escrever uma mensagem já não é diferencial para ninguém. O diferencial agora é usar a IA para resolver um problema de verdade de um cliente de verdade, e isso se aprende fazendo.

O CEP importa menos, mas não sumiu

Para uma parte das coisas, morar em Campos ou em São João da Barra deixou de ser problema. Um texto, uma proposta, uma legenda, uma planilha, uma tradução, um vídeo editado: tudo isso se vende para qualquer lugar, e a IA faz o trabalho de uma equipe pequena na mão de uma pessoa só.

Mas tem uma coisa em que o CEP continua valendo ouro: confiança de quem conhece você. O dono da mercearia do Parque Santo Amaro não vai contratar um estranho de São Paulo para organizar o WhatsApp dele. Vai contratar o vizinho que ele conhece, que resolve rápido e que cobra justo. A IA faz o trabalho pesado. A confiança continua sendo local.

Dez negócios que cabem na nossa região

Eu separo o que eu consegui confirmar do que é hipótese minha. Os custos para começar são estimativas, não cotação. Nenhum desses negócios garante renda.

  • Fornecedor para o Porto do Açu. Fato: o Porto tem um portal de cadastro de fornecedores, sem taxa de cadastro nem de participação, com oito etapas, e convida por e-mail as empresas cujo CNAE e categorias combinam com a demanda. Hipótese: um MEI ou micro de serviços (manutenção, limpeza, transporte, alimentação, material) pode usar a IA para montar apresentação institucional, portfólio e propostas com cara profissional. Risco: concorrência grande, exigências de segurança e prazo de pagamento.
  • Abacaxi e agro com venda direta. Fato: um levantamento de 2024 registra 249 produtores de abacaxi cadastrados na Emater de Campos e aponta o escoamento como um dos maiores gargalos. Hipótese: um filho ou vizinho do produtor, com IA e WhatsApp, pode montar lista de compradores (restaurantes, feiras, mercados), rótulo, preço por volume e rotina de oferta semanal. Risco: depende de logística e de preço de safra.
  • Atendente digital para comércio de bairro. Montar respostas padrão, catálogo, mensagens de pós-venda e lembrete de cobrança no WhatsApp para lojas pequenas. Sebrae: o WhatsApp é usado por 82% dos MEIs e micros. Custo para começar: quase zero, só tempo.
  • Orçamento e proposta para técnicos. Eletricista, refrigerista, pedreiro e pintor perdem serviço por mandar orçamento feio ou demorado. A IA ajuda a montar orçamento padrão, explicação do serviço e garantia por escrito.
  • Venda de produto regional online. Doce, artesanato, conserva, bolo: IA para foto, descrição, preço e resposta aos clientes em Instagram, Shopee e Mercado Livre. Risco: embalagem, frete e vigilância sanitária.
  • Temporada em Grussaí e Atafona. Hipótese: dono de casa de praia que não entende de anúncio pode contratar alguém para criar o anúncio, responder aos hóspedes e organizar a limpeza. Risco: depende da estação.
  • Ajudante digital do MEI. Explicar a guia mensal, lembrar o vencimento, organizar os recibos numa planilha simples. Não substitui contador, e a coluna é clara: nada de dar parecer fiscal.
  • Aula de IA e de celular para quem tem 50 anos ou mais. Muita gente da nossa idade tem medo e dinheiro. Hipótese: aula curta, em grupo pequeno, em português simples, com exemplos do cotidiano.
  • Conteúdo local para pequenos negócios. Roteiro, legenda e edição simples de vídeo para a padaria, o consultório, a oficina. Pago por pacote mensal.
  • Freelance para o Brasil e para fora. Segundo uma matéria da Gazeta de S. Paulo, projetos pequenos de texto, design e tradução em plataformas costumam começar em R$ 150, e contratos recorrentes podem passar de R$ 3.000 por mês. É referência de mercado, não promessa, e a concorrência é grande.

Quem nunca trabalhou com nada: 30 dias

Não precisa de CNPJ no começo, nem de curso caro. Precisa de um celular, de internet e de teimosia.

  1. Dias 1 a 7: aprenda o básico de graça. Abra uma ferramenta de IA gratuita e use todo dia para uma tarefa real: escrever uma mensagem, resumir um texto, montar uma lista. Anote o que funcionou e o que errou, porque a IA erra e você precisa conferir.
  2. Dias 8 a 14: escolha um único problema. Escolha um dos dez negócios acima, ou um que você conhece, e um tipo de cliente. Quem faz tudo para todos não vende para ninguém.
  3. Dias 15 a 21: faça três de graça. Entregue o serviço para três pessoas que você conhece, peça um depoimento curto e guarde o antes e o depois.
  4. Dias 22 a 30: cobre o primeiro. Defina um preço simples, ofereça para dez pessoas e ouça o não sem desistir. Se uma topar, você acabou de virar prestador de serviço. Se ficar claro que dá certo, formalize como MEI.

Uma conta hipotética, só para você enxergar o tamanho: dez comerciantes pagando R$ 150 por mês dá R$ 1.500. Não é riqueza. É renda nova, vinda de uma habilidade que você não tinha há um mês, e que pode crescer.

Como não cair na promessa de riqueza

O diretor do Comitê de Prevenção a Fraudes da Febraban, Adriano Volpini, descreveu o golpe do falso trabalho remoto: o golpista paga uma pequena comissão nas primeiras tarefas para ganhar sua confiança, depois oferece uma tarefa “pré-paga” com ganhos altos, e quando você deposita, ele some.

Minhas regras de bolso, que valem para qualquer um:

  • Se pedem dinheiro antes de você começar a “trabalhar”, desconfie.
  • Se garantem ganho certo, desconfie.
  • Se a venda começa com “só hoje” ou “poucas vagas”, desconfie.
  • Se o desafio gratuito termina em curso pago, pense duas vezes antes de decidir.

E guarde estes limites: a IA erra e precisa de revisão sua. O MEI pode faturar até R$ 81.000 por ano e ter no máximo um empregado. Plataformas mudam as regras sem avisar, então ter sua própria lista de clientes é o seu seguro.

O que eu penso

O vídeo diz que você tem cinco anos para ficar rico. Eu acho que você tem hoje para começar a aprender. Rico, ninguém sabe. Mas quem aprende a usar bem essa ferramenta, na rua onde mora, para resolver o problema do vizinho, tem muito mais chance de seguir de pé do que quem espera para ver no que dá.

Em 1883, Campos acendeu a primeira luz elétrica pública da América do Sul, sem royalty nenhum. Esta onda é a mesma coisa, só que agora cabe no seu bolso.

Agora é com você

Qual dos dez negócios você tentaria primeiro, ou qual ideia nossa ficou de fora? Conte nos comentários, sem precisar dizer nome. Eu junto as melhores numa próxima coluna.

E se você quer aprender a vender o que for que você criar, o workshop gratuito de vendas que a gente anuncia no fim de outubro é para você. Escreva “eu quero” aqui embaixo que eu te aviso.

Fontes: Stanford, estudo de Brynjolfsson, Chandar e Chen sobre IA e emprego de jovens nos EUA (dados da ADP até julho de 2025, via LeadDev); FMI, análise publicada em 14/01/2024 (via Forbes Brasil, 15/01/2024); Agência Sebrae, pesquisa Transformação Digital nos Pequenos Negócios, com o Meta Instituto de Pesquisa (7.182 entrevistados, coleta de 24/03 a 08/05/2026, publicada em 17/08/2026); Porto do Açu, Cartilha do Fornecedor (cadastro no portal e-Procurement); Levantamento Participativo da Abacaxicultura Campista (2024, Emater-Rio); Gazeta de S. Paulo, Guia da Renda Extra 2026 (alerta de Adriano Volpini, Febraban; referências 99Freelas e Workana); Agência Sebrae (uso de WhatsApp pelos pequenos negócios, fev. e mar. 2026); Sebrae-SC (teto do MEI).

Luciano Couto

Luciano Couto

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