Por Luciano Gomes do Couto
Se você chegou até aqui cansado, este texto é para você.
Eu não vou mandar você acordar às cinco da manhã. Não vou dizer que “quem quer, consegue” nem que basta “ter mentalidade”. Quem diz isso para quem trabalha o mês inteiro e ainda fica no vermelho não está falando da vida real. Eu quero falar da vida real, com número, com conta e com um caminho que cabe na sua semana.
O número
Segundo dados do Novo Caged, o salário base médio de um vendedor de comércio em Campos é de R$ 1.838 por mês, para uma jornada de 43 horas por semana. O de um operador de caixa é de R$ 1.826. O de um auxiliar de limpeza, R$ 1.733. O de um porteiro, R$ 1.946. O salário mínimo em 2026 é R$ 1.621.
Isso quer dizer que quem trabalha de balcão, de caixa ou de porta em Campos recebe de 1,1 a 1,2 salário mínimo. Esses números são o salário base de quem foi contratado nos últimos 12 meses, sem comissão nem extras, e vêm de um site que reúne os dados do Caged. Quem ganha comissão pode ganhar mais. Mas é esse o ponto de partida de muita gente.
Faça a conta comigo. Em um mês, 43 horas por semana dão cerca de 186 horas. R$ 1.838 divididos por 186 dá em torno de R$ 10 por hora. A conta é minha, e é aproximada. Agora pense no que custa o mercado, a luz, o aluguel, o ônibus ou a gasolina.
Você não está cansado por falta de vontade. Está cansado porque a conta não fecha.
Não é culpa sua. E também não é só culpa de ninguém.
O comerciante também paga aluguel, imposto e folha, e muitos estão apertados, como a gente já mostrou aqui. O poder público tem a sua parte nisso, e eu continuo achando que a gente precisa escolher melhor. Mas a verdade dura é que, enquanto isso se resolve, a sua conta chega todo mês.
Em 2022, Campos produziu R$ 37,2 bilhões de PIB. Em 2024, recebeu R$ 667 milhões em royalties. Esse dinheiro existe. Só que ele não chega ao bolso de quem está no balcão por aumento de ninguém, e esperar por ele é o que a gente faz há décadas.
Então a pergunta que eu quero fazer não é “por que você não faz mais”. É: o que dá para mudar, com pouco, sem se acabar?
A regra do degrau pequeno
A minha proposta é simples e tem três regras:
- Um degrau por vez. Não pede demissão, não faz empréstimo, não vira empresário de uma semana para outra. Você mantém o emprego e começa a construir ao lado dele.
- Quinze minutos por dia. Se tiver energia para mais, ótimo. Se não tiver, quinze minutos já contam.
- Sem gastar antes de testar. Nada de pagar curso caro ou taxa de “oportunidade” para ninguém.
Escolha um destes cinco caminhos. Só um.
- Aprender uma habilidade que paga mais. O auxiliar de contabilidade em Campos recebe, em média, R$ 2.572. Isso é 1,6 salário mínimo, contra 1,1 de quem está no balcão. Habilidade muda a faixa. Procure cursos gratuitos, como os que o Sebrae e o Senai costumam oferecer, e confira a procedência antes de se inscrever. Primeiro passo de 15 minutos: escolha uma função que você gostaria de fazer e descubra o que ela exige.
- Fazer o seu primeiro serviço extra. Pense numa coisa que você já sabe fazer: uma instalação, um conserto, um bolo, um corte de cabelo, uma limpeza, um orçamento. Ofereça para três pessoas que você conhece, pelo WhatsApp. Primeiro passo: mande uma mensagem hoje para uma pessoa.
- Virar fornecedor. O Porto do Açu tem um portal de cadastro de fornecedores, sem taxa e com oito etapas. Quem tem um ofício (manutenção, limpeza, transporte, alimentação) pode abrir um MEI e se cadastrar. Não é rápido, mas é uma porta real, e o MEI pode faturar até R$ 81.000 por ano. Primeiro passo: converse com um contador de confiança sobre abrir o MEI.
- Usar inteligência artificial como ajudante. 52% dos pequenos negócios brasileiros já usam IA, segundo o Sebrae. Para quem vem do balcão, dá para oferecer atendimento, catálogo e mensagens para os comerciantes vizinhos, usando ferramentas gratuitas. Primeiro passo: peça a uma IA gratuita para escrever uma mensagem de venda para um produto que você conhece.
- Vender o que a nossa terra produz. Um levantamento de 2024 registra 249 produtores de abacaxi cadastrados na Emater de Campos e aponta o escoamento como um dos maiores problemas. Falta quem venda. Quem já sabe vender no balcão pode virar a ponte entre produtor e restaurante, mercado ou feira. Primeiro passo: converse com um produtor que você conhece e pergunte como ele vende hoje.
O que eu não vou prometer
Não vou prometer que você vai ficar rico. Não vou prometer que em três meses a conta fecha. Mudar de renda é lento, costuma levar meses, e algumas tentativas vão dar errado. Quem promete resultado rápido, ou pede dinheiro antes de você começar, está vendendo ilusão.
Se este mês você só tem energia para sobreviver, está tudo bem. Descanse. Mas escolha uma data para começar, nem que seja a segunda-feira da semana que vem, e escreva ela.
Um compromisso pequeno
Pegue o celular. Escreva uma mensagem para você mesmo:
Em 90 dias, eu vou ter começado ___ (o caminho que escolhi).
Preencha, mande e salve. Sem pressão. Só um compromisso com a pessoa que está lendo isto, que é quem mais precisa.
Agora é com você
Qual desses cinco caminhos você escolheu, ou qual ficou de fora e deveria entrar? Conte nos comentários, sem precisar dizer onde trabalha. Eu leio todas e vou juntar as respostas numa próxima coluna.
E se você leu até aqui cansado, saiba que você não está sozinho. A maior parte de Campos está contando as mesmas contas que você.
Fontes: Salario.com.br, com dados do Novo Caged (Ministério do Trabalho e Emprego, últimos 12 meses, atualizado em 08/10/2026), para vendedor, operador de caixa, auxiliar de limpeza, porteiro e auxiliar de contabilidade em Campos dos Goytacazes; Decreto nº 12.797/2025 (salário mínimo de R$ 1.621 em 2026); Smargiassi, página sobre Campos dos Goytacazes (PIB de 2022 e royalties de 2024); Agência Sebrae, pesquisa Transformação Digital nos Pequenos Negócios (2026); Porto do Açu, Cartilha do Fornecedor; Levantamento da Abacaxicultura Campista (2024, Emater-Rio); Sebrae-SC (teto do MEI). A conta de R$ 10 por hora é aproximada e feita pelo autor.









