Ninguém é feliz devendo pra própria cidade — e a cidade te deve isso há anos
Estou escrevendo isso aqui com o coração um pouco triste. Depois de alguns anos fora, o que mais me marcou voltando a Campos, foi perceber como o humor das pessoas mudou. Andando pela cidade, reparo em gente cabisbaixa, olhar cansado, passo mais devagar do que o normal. Você entra num comércio e às vezes não é recebido com alegria e a reação mais fácil é reclamar da falta de educação, da falta de qualidade no atendimento. Entendo essa reação, e às vezes ela é justa mesmo.
Mas fico me perguntando outra coisa: será que aquela pessoa mal-humorada, distraída, sem prestar atenção direito em você, não está ali se perguntando por dentro como vai pagar a conta desse mês com R$ 1.300? Como vai comprar algo pra si mesma hoje? Como vai comprar o remédio que falta em casa?
Essa cidade está triste porque ela sabe de uma coisa que incomoda bastante: tem dinheiro. Muito dinheiro, na verdade. Só que esse dinheiro não volta pra ela. Ele é distribuído para alguns grupos, sob alguns interesses, e a população que não desses grupos, ficam olhando de fora, sentindo o peso de viver numa cidade rica que trata seu cidadão como pobre.
E essa tristeza não é abstrata. Ela tem endereços. Um professor da UENF, o geógrafo Marcos Pędłowski, publicou há poucos dias um texto chamando Campos de “anti-cidade”, e descreveu uma cena que qualquer campista reconhece bem. Sabe ali, perto do valão, ao longo da avenida Alberto Lamego? Tem um lixão a céu aberto, com urubus pousado no poste de luz esperando a próxima refeição, garrafa de cerveja e saco de lixo espalhados pela calçada, placa de proibido jogar lixo ali do lado, ignorada há tempos. Não é um relato de quem passou uma vez. Já faz parte da rotina, já faz parte da paisagem, aquilo já virou normal porque ninguém mais se choca.
Enquanto isso, o Diário Oficial do município, semana passada, trazia outro tipo de notícia: um novo juiz determinou que a população vai ter que pagar a diferença numa conta de água, depois de uma ação da concessionária contra a própria prefeitura que vem se arrastando desde 2023. Ou seja, o cidadão Campista, que já sente no bolso o peso de uma renda que mal fecha o mês, vai sentir também o reflexo de uma disputa jurídica entre poder público e empresa, pago, no fim das contas, por quem menos teve voz nela.
Essa mesma semana, a Polícia Federal apreendeu meio milhão de reais em dinheiro vivo com funcionárias do SINDIPETRO-NF, sindicato aqui em Campos. Não é a primeira vez que dinheiro aparece em quantidade estranha, fora do lugar onde deveria estar fazendo diferença, enquanto o cidadão comum discute se dá pra pagar o boleto do mês. E, na mesma linha de instituição que deveria zelar pelo interesse público, o presidente da CECA foi afastado pelo Ministério Público estadual, numa investigação sobre licenciamento ambiental.
Faleceu recentemente, aos 84 anos, o empresário Alamir Chacur, uma referência de décadas no comércio da cidade, o tipo de notícia que, lida com atenção, marca o fim de uma geração inteira de gente que construiu comércio em Campos numa época em que a cidade ainda acreditava em si mesma. Fico pensando quantos “Alamir Chacur” mais vamos perder, sem que a cidade consiga formar, na mesma velocidade, quem substitua esse tipo de referência?
Campos carrega até hoje o apelido histórico de “a capital do açúcar e do petróleo”, dois ciclos de riqueza real, dois momentos em que o dinheiro efetivamente circulou por aqui. E ainda assim, olhando pra rotina de quem vive na cidade hoje, esses dois ciclos parecem cada vez mais distantes de qualquer coisa que se pareça com fartura. O IBGE registra a população de Campos em 483.540 habitantes, numa área de mais de 4 mil quilômetros quadrados, a maior do estado do Rio em extensão territorial. E mesmo sendo grande, populosa, historicamente rica, é uma cidade que amanhece, a cada dia, mais cabisbaixa.
Levantei o número exato dessa distância, e ele é de um tamanho que machuca: Campos dos Goytacazes tem um dos maiores PIBs per capita do estado do Rio de Janeiro, algo em torno de R$ 89 mil por habitante ao ano, isso é riqueza real, gerada dentro do território da cidade, boa parte vinda do petróleo. Só que a renda que efetivamente chega no bolso de cada pessoa, historicamente, fica na faixa de R$ 1.000 a R$ 1.300 por mês. Não é a mesma conta. É uma cidade que produz um valor gigantesco e devolve ao seu próprio povo uma fração pequena disso.
Existem pesquisas sérias, como a publicada na Revista Nature, pesquisa essa liderada pela Pamela Collins, chefe do departamento de saúde mental da Johns Hopkins Bloomberg School Of Public health que após ouvir mais de 400 pessoas em 53 países diferentes revelou que esse tipo de distância, entre a riqueza que uma cidade gera e o que realmente sobra pra quem mora nela, tem relação direta com o humor coletivo de uma população. Desigualdade urbana, espaço público abandonado, insegurança no dia a dia: isso adoece, e adoece de um jeito que aparece no comportamento das pessoas nas ruas, nas lojas, nas filas. Não é força de expressão dizer que uma cidade pode estar triste. É um estado que se mede, que se sente, e que tem explicação.
Por isso, a partir de hoje, essa coluna vai abrir uma nova série pra investigar exatamente isso: como Campos chegou nesse ponto, por que a cidade parece ter se acostumado com essa distância entre o que produz e o que recebe, e, o mais importante, qual é o caminho de saída. Porque toda essa tristeza tem causa, e toda causa, quando exposta com clareza, abre espaço pra solução.









