Por Luciano Gomes do Couto
Era a cidade que acendeu a América Latina.
Muito antes de qualquer outra na região, ela transformou noite em dia. Em 1883, quando a maior parte do continente ainda dependia de azeite de peixe e lampiões a querosene para enxergar depois do pôr do sol, um grupo de homens decidiu que aquela cidade seria a primeira a experimentar a luz elétrica. O imperador veio pessoalmente acionar a chave. Vinte mil pessoas aplaudiram. Os jornais do Brasil e do exterior noticiaram o feito. Era, para todos os efeitos, a cidade do futuro.
Foi também a cidade que colocou um homem pobre, filho de padeiro, neto de agricultores, na Presidência da República — o único presidente negro que este país já teve. Um homem que a elite local chamava, com desprezo, de “o mestiço do Morro do Coco”. Ele se casou às escondidas com a herdeira de uma das famílias mais ricas da cidade, entrou para a política, foi ridicularizado em charges por causa da cor da pele, e ainda assim chegou ao topo. No pouco tempo que teve no poder, fez algo que nenhum barão daquela cidade jamais tinha feito: abriu escolas técnicas gratuitas para os filhos dos pobres. Foi a semente do que hoje conhecemos como Institutos Federais.
Foi, por gerações, a capital do açúcar do estado do Rio — engenhos e depois usinas, uma aristocracia rural de barões e viscondes que sustentava mansões, títulos de nobreza e, goste-se ou não, o pioneirismo urbano que impressionou um imperador.
E foi também a cidade que, quando o petróleo foi descoberto bem na sua frente, no mar que banha o seu litoral, viu a riqueza escorrer para o município vizinho.
Essa cidade é Campos dos Goytacazes. E a pergunta que este texto tenta responder é: o que essas quatro histórias têm em comum — e por que Campos, apesar de tanto pioneirismo, segue tendo que reconquistar o próprio protagonismo?
Como chegamos aqui
A resposta começa a se desenhar quando olhamos o século XX com atenção.
Em meados dos anos 1970, a Petrobras confirmou o que a geologia já sugeria: a Bacia de Campos era um mar de petróleo. As primeiras produções comerciais começaram em 1977, e em 1978 a estatal precisava decidir onde instalar sua base de operações em terra. Campos, apesar de dar nome à bacia, tinha um problema estrutural: seu núcleo urbano histórico não fica no litoral — fica às margens do rio Paraíba do Sul, a alguns quilômetros da costa. Macaé, ao contrário, tinha porto, tinha frente marítima, tinha a enseada de Imbetiba pronta para receber terminais. A escolha logística recaiu sobre Macaé, e o resultado foi um dos maiores booms econômicos municipais da história recente do país: de pouco mais de sessenta mil habitantes em 1970, a cidade vizinha saltou para quase 250 mil, virou sede de mais de quatro mil empresas do setor e se consagrou como “Capital Nacional do Petróleo”.
Campos não ficou de fora — os royalties e as participações especiais também chegaram lá, e por duas décadas representaram uma fatia enorme do orçamento municipal, superando 33% da receita total em 2010. Mas era dinheiro de compensação, não de indústria instalada. Era renda, não era motor. E rendas de recurso natural, historicamente, têm um problema: quando o poço amadurece e a produção cai, a receita despenca junto. Foi o que aconteceu. Entre 2010 e 2019, a receita de participação especial de Campos caiu quase 80%. Em determinados trimestres daquela década, o município simplesmente não recebeu nada.
O padrão deveria soar familiar. É o mesmo padrão do açúcar: uma riqueza extraordinária, concentrada, dependente de um único ciclo, que constrói palacetes e financia pioneirismos pontuais, mas não distribui capacidade produtiva para a base da população. É o mesmo padrão da luz elétrica de 1883: um feito visionário, aplaudido pelo mundo, que iluminou a cidade dos barões mas não teve continuidade — a inovação de ponta não virou uma cultura permanente de inovação. E é o mesmo padrão de Nilo Peçanha: mesmo alcançando o topo absoluto do poder nacional, mesmo criando as primeiras escolas técnicas gratuitas do Brasil, sua origem humilde foi apagada da memória oficial, seus retratos foram clareados, sua história quase não é contada nas escolas — inclusive nas escolas que ele fundou.
O elo perdido
O elo perdido não é um evento. É um padrão que se repete: Campos gera riqueza e pioneirismo de forma recorrente, mas historicamente não construiu a ponte entre essa riqueza e a autonomia econômica da sua própria gente. A luz acendeu a cidade dos barões. O petróleo, quando finalmente chegou perto, escorreu para o município que tinha porto. E o homem que nasceu ali para provar que era possível romper essa barreira teve sua própria origem apagada pela história oficial.
Em outras palavras: Campos sempre soube gerar valor. O que faltou — e ainda falta — é o mecanismo que transforma valor gerado em base econômica local, ampla, distribuída, que sobrevive ao fim de um ciclo de commodity.
O presente: nem tudo está perdido
A boa notícia é que esse padrão está, pela primeira vez em muito tempo, com uma chance real de ser quebrado — e a peça central dessa chance fica a poucos quilômetros do centro de Campos.
O Porto do Açu, em São João da Barra, é hoje o maior complexo porto-indústria privado de águas profundas da América Latina. Desde que começou a operar, em 2014, cresceu a uma taxa média de 27% ao ano em movimentação de carga — muito acima da média nacional do setor. Já responde por cerca de 6% do PIB brasileiro que passa por ali, abriga dois dos dez maiores terminais privados do país e está atraindo investimentos bilionários em áreas que vão muito além do petróleo tradicional: hub de hidrogênio verde, ferro metálico de baixa emissão, diesel renovável, um corredor marítimo de baixo carbono com o porto de Antuérpia. Só a fornecedora dinamarquesa NOV anunciou mais de R$ 1 bilhão em novos investimentos na região, com carteira de pedidos que se estende até 2028.
Só que aqui está o alerta que não pode ser ignorado: pesquisadores da própria Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) já documentaram que, apesar de todo esse dinheiro circulando, São João da Barra — o município que sedia o porto — ainda tem quase 72% de sua população em situação de pobreza cadastrada. É a prova viva de que riqueza instalada no território não é sinônimo automático de prosperidade distribuída. É exatamente o mesmo alerta que a história de 1883 e a história de Nilo Peçanha já davam.
O padrão só se rompe se a região aprender a fazer diferente desta vez.
Como sair: soluções reais, aplicáveis agora
Não é sobre esperar outro ciclo de commodity nem sobre lamentar decisões logísticas tomadas em 1978. É sobre construir, de forma deliberada, a ponte que faltou nas três outras vezes.
- Transformar mão de obra em fornecedores, não apenas em empregados. O Porto do Açu, a cadeia de óleo e gás e os grandes projetos de transição energética compram serviços técnicos constantemente — engenharia, manutenção, refrigeração, elétrica, logística. Existem hoje canais formais e documentados para isso: cadastro em plataformas como SAP Ariba e Petronect, aproximação com o Sebrae PDFL e a FIRJAN Norte Fluminense. O gargalo não é falta de demanda — é falta de técnicos formados como donos de empresa, e não apenas como mão de obra terceirizada. É literalmente a mesma lacuna que Nilo Peçanha tentou fechar há mais de cem anos: dar ao trabalhador técnico o caminho para virar empreendedor, não só empregado.
- Ancorar a formação técnica na própria vocação regional. A região já tem uma identidade produtiva clara — óleo, gás, energia, logística portuária, agora também hidrogênio e baixo carbono. Programas de qualificação (Jovem Aprendiz, estágio técnico, estágio superior) já existem dentro do próprio complexo do Açu. O desafio é multiplicar isso para fora do porto, formando técnicos campistas que abram suas próprias empresas de manutenção, refrigeração e serviços especializados — replicando o modelo, mas descentralizando o benefício.
- Usar a UENF e o IFF como motor de inovação aplicada, não só de ensino. Campos tem uma universidade estadual de pesquisa e um Instituto Federal instalados dentro do próprio município — ativos que a maioria das cidades do interior do Brasil não tem. O caminho passa por aproximar essas instituições da cadeia produtiva real (transição energética, agroindústria, logística), gerando startups e prestadoras de serviço nascidas localmente, em vez de depender só de grandes players externos.
- Diversificar para não repetir o erro do monocultivo — de açúcar ou de petróleo. A própria Firjan já apontou o Porto do Açu como plataforma estratégica para os setores químico, de fertilizantes e de transição energética — não apenas óleo e gás. Isso significa que a próxima onda de oportunidade da região não é uma repetição do ciclo do petróleo, é uma ramificação dele. Quem se posicionar agora como fornecedor técnico dessas novas frentes — hidrogênio, diesel verde, ferro de baixa emissão — entra num mercado nascente, não numa disputa por migalhas de um mercado maduro.
- Contar a própria história como ativo estratégico, não como nostalgia. Uma cidade que foi a primeira da América Latina a ter luz elétrica e que colocou o único presidente negro do Brasil na cadeira mais alta do país tem, em sua narrativa histórica, um capital de identidade que poucas cidades médias brasileiras possuem. Isso é ativo de marca, de turismo histórico, de orgulho local — e orgulho local é o que sustenta gente formada ficando na região para empreender, em vez de ir embora assim que se qualifica.
O fio que fecha o ciclo
Campos não precisa de outro milagre de infraestrutura vindo de fora. Ela já teve três: a luz de 1883, o filho que virou presidente, e agora o porto que já move 6% do PIB nacional bem ao seu lado. O que faltou nas duas primeiras vezes — e o que está em jogo, agora, na terceira — não é a chegada da oportunidade. É a construção da ponte que leva essa oportunidade até quem sempre ficou de fora dela.
Essa ponte tem nome: formação técnica com vocação empreendedora, enraizada na própria vocação econômica da região. É a mesma ideia que um mestiço pobre do Morro do Coco teve, ainda em 1909, quando teve a chance de mudar alguma coisa e escolheu abrir escolas técnicas em vez de construir monumentos a si mesmo. Cento e quinze anos depois, Campos tem, de novo, a chance de terminar o que ele começou.









