sexta-feira, 24 julho, 2026

Casca Grossa e Flexível: como Campos pode se reinventar na crise

Por Luciano Gomes do Couto

Toda crise muda o dono do dinheiro. Não elimina o dinheiro — ele apenas troca de mão. Sai de quem estava parado, apostando que amanhã seria igual a ontem, e vai para quem soube ler o momento e se posicionar antes que a poeira baixasse. Isso não é otimismo fácil de coluna de jornal. É o que a própria história de Campos já provou, mais de uma vez.

Na última matéria desta coluna, contei o que chamei de “o elo perdido”: como Campos, apesar de pioneira em tudo — a primeira cidade da América Latina a ter luz elétrica, terra do único presidente negro que o Brasil já teve, antiga capital do açúcar do estado — viu repetidas vezes sua riqueza escorrer para fora, culminando na perda da sede operacional do petróleo para Macaé em 1978. Hoje quero ir além do diagnóstico. Quero falar de agora. Porque o Brasil está, mais uma vez, em um momento de crise — e é exatamente nesse tipo de momento que o campista tem historicamente mostrado do que é feito.

O momento que estamos vivendo

Não é segredo para ninguém: o país atravessa um período de forte instabilidade. O conflito no Oriente Médio e o fechamento do Estreito de Ormuz jogaram o petróleo Brent para cima, a inflação projetada para 2026 subiu para 5,1%, acima do teto da meta, e o governo federal já anunciou um pacote de R$ 31 bilhões só para tentar segurar o preço dos combustíveis no bolso do brasileiro. É crise de verdade, com efeito direto em transporte, insumos, custo de vida.

E, no entanto, olhando para dentro de Campos, os números contam outra história. Só no primeiro semestre de 2026, foram abertas 1.081 novas empresas no município — o maior número entre todas as cidades do interior do estado do Rio de Janeiro. Desde 2021, já foram mais de 9.300 novos negócios constituídos. Quase 70% deles em comércio e serviços — ou seja, gente comum, resolvendo problema de gente comum, num momento em que o cenário macro está tudo menos favorável.

Essa é a prova de que a frase não é wishful thinking: o dinheiro está mudando de mão agora, dentro da nossa própria cidade, enquanto o país discute crise lá fora.

A independência que o momento exige

Aqui vai um ponto que preciso deixar claro: esse movimento não está esperando o governo. Ele está acontecendo apesar da crise nacional, não por causa de um plano genial vindo de cima. Isso é, na verdade, a lição mais importante para quem está pensando em empreender em Campos agora — sua janela de oportunidade não depende de royalties, não depende de qual empresa vai instalar a próxima base, não depende de quem está na prefeitura ou no governo do estado.

Depende de você entender onde o dinheiro está mudando de mão dentro da própria cidade e se posicionar ali primeiro. Alguns caminhos concretos, hoje, em Campos:

Formalize e acesse crédito produtivo. Dados do Fundecam mostram que 81% dos financiamentos aprovados no primeiro semestre de 2026 foram para empreendedores formalizados. Em época de juro caro e crédito escasso no país inteiro, ser MEI ou pequena empresa formal é o que separa quem consegue capital de giro de quem fica de fora. O Espaço do Empreendedor, na Rodoviária Roberto Silveira, e o Sebrae Campos existem exatamente para isso, e o custo de formalização é baixo perto do ganho de acesso a crédito.

Vá atrás de crise, não de conforto. Em todo momento de instabilidade de preço de combustível e insumo, surgem gargalos: manutenção adiada, peças que sobem de preço, serviços que grandes empresas cortam primeiro para economizar. Quem presta serviço técnico — elétrica, refrigeração, HVAC, manutenção industrial — tem, historicamente, mais trabalho em cenário de aperto, não menos, porque empresas maiores param de trocar e passam a consertar. É a hora de quem tem ofício virar fornecedor formal dessas empresas, não só empregado delas.

Use os programas que já existem, sem esperar um novo. A cidade já tem estrutura ativa: TEC Incubadora, Programa de Economia Criativa, editais de bolsa para plano de negócio, Semana do MEI todo mês de maio. Não é sobre esperar uma política nova nascer — é sobre ocupar o espaço que já está aberto, hoje, com nome e endereço.

Casca grossa, mas flexível

Aqui entra o ponto mais importante — e o mais difícil de admitir. O campista tem fama, e a fama tem fundamento histórico, de ser gente dura na queda. É povo que atravessou o fim brutal da era escravocrata sem apoio de ninguém, que viu a riqueza do açúcar concentrada em poucas mãos e continuou trabalhando, que perdeu a corrida do petróleo para o município vizinho e não desistiu de existir economicamente. Essa é uma casca grossa de verdade, forjada em décadas, não discurso de autoajuda.

Mas existe uma armadilha nisso. Casca grossa, sem flexibilidade, vira teimosia. Vira gente que aguenta apanhar do mercado, mas não muda de estratégia. Que sabe sofrer, mas não sabe se adaptar. E é exatamente aí que muita gente boa, muito capaz, fica presa fazendo do mesmo jeito de sempre um negócio que o mercado já não sustenta mais daquele jeito.

Ser resistente é saber aguentar a instabilidade sem quebrar. Ser flexível é saber que o produto, o serviço, o público, até o modelo de negócio, podem precisar mudar no meio do caminho — e que isso não é fraqueza, é sobrevivência. Os dois juntos são a verdadeira força. Um sem o outro é fragilidade disfarçada de virtude.

O convite desta coluna

Campos não vai se reinventar através de uma nova descoberta de petróleo, nem de uma decisão federal que vá corrigir o que ficou para trás em 1978. Vai se reinventar através de quem, dentro da própria cidade, aceita que o dinheiro está mudando de mão agora — mesmo com o país em crise — e decide se posicionar com os pés no chão da própria história e os olhos abertos para o que o mercado está pedindo hoje.

Casca grossa que aprendeu a ser flexível não é contradição. É a receita mais antiga de Campos para atravessar crise e sair do outro lado maior do que entrou.

Luciano Couto

Luciano Couto

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