Nem sempre uma grande trajetória começa com estrutura. Às vezes, ela começa com coragem, improviso e decisão
Muita gente, em Campos dos Goytacazes, acredita que, para se tornar fornecedor de uma multinacional no Porto do Açu, é preciso já nascer grande, estruturado e pronto.
Eu penso diferente. E posso dizer isso porque vivi o outro lado dessa história.
Minha trajetória não começou com capital sobrando, equipe robusta ou equipamentos de ponta. Começou do jeito que a maioria dos empreendedores da nossa região conhece bem: com vontade de crescer, pouca estrutura e muita disposição para fazer acontecer.
Em 2011, quando abri minha empresa, fechei meu primeiro contrato com um shopping. Aquilo já era uma grande conquista. O problema é que, para executar o serviço, eu precisava de um termovisor — um equipamento caro, que eu não tinha condições de comprar.
A saída foi simples, arriscada e necessária: parcelei o aparelho em dez vezes no cartão de crédito emprestado de um amigo. O valor da parcela era quase metade do contrato. Não era o cenário ideal. Mas era o que eu tinha. E foi ali que a jornada começou de verdade.
Com o tempo, fui entendendo uma realidade que ainda trava muitos negócios da nossa região: pouca gente deixa de crescer por falta de competência técnica. Na maioria das vezes, o que falta é estratégia, posicionamento e preparo para lidar com empresas maiores.
Hoje, menos de 2% das empresas da nossa região atendem o Porto do Açu. Isso não acontece porque o mercado é inacessível. Acontece porque muitos ainda tentam entrar nesse jogo apenas como executores, quando o que ele exige é visão de negócio.
Depois de gerar mais de uma centena de empregos e vender minha operação em 2024, ficou ainda mais claro para mim que romper essa barreira depende de alguns fundamentos muito objetivos.
- De executor a gestor
Saber executar bem o serviço é fundamental, mas isso, sozinho, não sustenta crescimento.
No meu caso, eu vinha da área elétrica. Sabia trabalhar. Sabia entregar. Mas, para atender empresas grandes, isso era apenas parte da equação.
O mercado exige processo, segurança, organização, documentação, postura empresarial e capacidade de gerar confiança. Foi por isso que busquei apoio em instituições como o Sebrae e a Firjan. Eu precisava aprender a ser empresário, não apenas técnico.
Essa é uma virada que muita gente adia. Mas a verdade é simples: a qualificação técnica abre portas; a qualificação empresarial abre portões.
- Atitude estratégica vale mais do que timidez
Meu primeiro contrato no Porto do Açu, em 2015, não veio por e-mail, formulário ou indicação formal. Veio de uma abordagem direta.
Durante uma visita técnica à Brasilport, enxerguei uma oportunidade de apresentar meu trabalho a um comprador. Não havia reunião agendada. Não havia garantia de nada. Havia apenas preparo, coragem e disposição para me posicionar com profissionalismo.
Foi assim que fechei meu primeiro serviço.
Muita gente chama isso de “cara de pau”. Eu prefiro chamar de atitude estratégica.
No mundo dos negócios, especialmente em mercados competitivos, quem espera o cenário perfeito normalmente chega depois. O “não” você já tem. O que pode mudar a história é a sua disposição para entrar no jogo.
- Esteja onde os decisores estão
Existe uma visão equivocada de que networking é perda de tempo, conversa fiada ou algo secundário. Não é.
Muitos dos melhores negócios da minha trajetória nasceram justamente em ambientes onde eu escolhi estar presente.
Um dos contratos mais duradouros que fechei, com uma multinacional francesa, começou de forma simples: uma conversa informal em um evento da Firjan, pouco antes do almoço. A compradora viu minha logomarca e comentou que estava tentando contato justamente com uma empresa daquele setor.
Dali nasceu uma parceria de oito anos.
Isso reforçou uma lição que eu carrego até hoje: grandes oportunidades raramente surgem apenas no escritório. Elas aparecem quando você circula, conversa, constrói presença e se coloca perto de quem decide.
Empreender em Campos dos Goytacazes exige entender uma verdade importante: o sucesso não acontece por proximidade geográfica.
O Porto do Açu está na nossa região, mas isso, por si só, não garante espaço para ninguém.
É preciso se preparar para atravessar o portão.
Preparação, nesse caso, não significa esperar estar perfeito. Significa começar com o que se tem, aprender rápido, se posicionar melhor e agir com inteligência. Foi assim que saí do zero. E é assim que muitos empreendedores da nossa região também podem construir uma trajetória sólida.
Porque, no fim das contas, crescer não é uma questão de nascer grande.
É uma questão de decidir crescer de forma estratégica.
E você, como empreendedor da nossa região: em qual desses pilares mais precisa evoluir hoje?









