Na Copa e na vida, propósito é reconhecer o seu placar, celebrar a sua fase e continuar treinando para o próximo nível
Daqui a algumas semanas, apenas uma seleção levantará a taça da Copa do Mundo.
Haverá luzes, papel picado, gritos, lágrimas e uma fotografia que atravessará gerações. Um capitão erguerá o troféu diante do mundo, enquanto milhões de pessoas comemorarão como se também estivessem dentro daquele estádio.
Mas pare um instante e pense comigo:
Se levantar a taça fosse a única forma de vencer, isso significaria que todas as outras seleções fracassaram?
Significaria que o primeiro ponto conquistado por um país estreante não valeu nada?
Que o primeiro gol de uma pequena seleção não mereceu comemoração?
Que um goleiro desconhecido, depois de uma vida inteira treinando, não venceu ao finalmente mostrar seu trabalho para o mundo?
É claro que não.
A Copa está nos lembrando de uma verdade que também serve para a vida, para a carreira e para os negócios:
Nem toda vitória levanta uma taça.
Algumas vitórias apenas colocam você em campo.
Outras fazem você sobreviver ao primeiro jogo.
Algumas acontecem quando você marca o primeiro gol.
E há aquelas que chegam quando, depois de apanhar durante quase toda a partida, você encontra forças para não desistir antes do apito final.
O mundo vê o jogo. Pouca gente viu o treino.
Um jogador pode passar quatro anos se preparando para uma Copa do Mundo.
Na verdade, muitos passam a vida inteira esperando por essa oportunidade.
Treinam quando ninguém está assistindo.
Repetem o mesmo movimento centenas de vezes.
Controlam a alimentação.
Abrem mão de festas.
Jogam sentindo dor.
Enfrentam lesões.
Ficam no banco.
Não são convocados.
Veem outros atletas recebendo a oportunidade que imaginavam que seria deles.
Alguns participam de várias Copas. Outros têm apenas uma chance.
E alguns passam anos se preparando para entrar em campo durante poucos minutos.
O torcedor vê os 90 minutos.
O atleta conhece os quatro anos.
Assim também acontece com quem está tentando construir uma carreira ou um negócio.
As pessoas enxergam a empresa funcionando, o contrato assinado, a equipe formada e o profissional sendo reconhecido.
Mas poucas enxergam as propostas que foram recusadas.
Os clientes que não responderam.
As noites estudando depois de um dia inteiro de trabalho.
Os meses em que o dinheiro entrou apertado.
As decisões tomadas com medo.
As vezes em que foi necessário voltar para casa, respirar fundo e recomeçar no dia seguinte.
O cliente enxerga o serviço pronto.
Não enxerga todos os anos que você levou para aprender a executá-lo.
O mercado conhece o seu resultado.
Mas somente você conhece o preço da sua preparação.
Por isso, não despreze os dias comuns.
São eles que preparam você para os momentos extraordinários.
O mundo conheceu Vozinha em 90 minutos
Até poucos dias atrás, grande parte do mundo nunca havia ouvido falar de Vozinha.
Aos 40 anos, ele entrou em campo para defender Cabo Verde em sua primeira Copa do Mundo. Do outro lado estava a Espanha, uma das seleções mais fortes e valorizadas do planeta.
Era o tipo de jogo em que muita gente não perguntava se a Espanha venceria.
Perguntava por quantos gols.
Mas Vozinha fechou o gol.
Defendeu, orientou, resistiu e ajudou Cabo Verde a conquistar um empate histórico.
Zero a zero.
Para a Espanha, o empate teve gosto de oportunidade perdida.
Para Cabo Verde, aquele mesmo empate representou o primeiro ponto de sua história em uma Copa do Mundo.
O placar era o mesmo.
O significado era completamente diferente.
Naquela tarde, o mundo conheceu Vozinha.
Mas Vozinha não foi construído naquela tarde.
O mundo viu 90 minutos.
Ele viveu 40 anos.
É assim que o sucesso costuma acontecer.
As pessoas chamam de sucesso repentino aquilo que alguém passou décadas preparando em silêncio.
Quando a oportunidade finalmente chega, parece que tudo aconteceu de uma hora para outra.
Não aconteceu.
A hora apenas encontrou alguém que continuou preparado.
Talvez você também esteja vivendo esse período de preparação.
Talvez ainda não tenham percebido seu trabalho.
Talvez pessoas mais novas estejam avançando mais depressa.
Talvez a oportunidade que você esperava esteja demorando mais do que imaginou.
Continue treinando.
Você não controla o dia em que a porta será aberta.
Mas pode decidir em que condições estará quando ela se abrir.
O primeiro gol pode acontecer no dia da maior derrota
Curaçao também chegou à Copa para fazer história.
Em sua estreia, enfrentou a Alemanha.
O placar final foi duro: 7 a 1.
Quem olhar apenas para os números verá uma goleada.
Mas existe uma história escondida dentro daquele placar.
No meio dos sete gols sofridos, Curaçao marcou o primeiro gol de sua história em uma Copa do Mundo.
Imagine aquele momento.
Uma pequena ilha do Caribe, disputando seu primeiro Mundial, enfrentando uma das maiores campeãs da história e vendo a bola entrar no gol alemão.
Para a Alemanha, foi apenas um gol sofrido em uma grande vitória.
Para Curaçao, foi um capítulo que jamais será apagado.
Dias depois, a seleção conquistou seu primeiro ponto na competição. O goleiro Eloy Room realizou 15 defesas e ajudou seu país a segurar um empate contra o Equador.
Primeiro veio o gol.
Depois veio o ponto.
O próximo capítulo ainda será escrito.
É assim que uma trajetória é construída.
Um passo de cada vez.
Um cliente de cada vez.
Uma proposta de cada vez.
Uma melhoria de cada vez.
Você pode perder uma concorrência e, mesmo assim, aprender a apresentar melhor o seu trabalho.
Pode lançar um produto e vender pouco, mas descobrir quem realmente é o seu cliente.
Pode terminar o mês abaixo da meta e, ainda assim, conquistar seu primeiro contrato recorrente.
Pode receber vários “nãos” e, no meio deles, encontrar o primeiro “sim” que mudará sua história.
Talvez você esteja olhando apenas para os sete gols que sofreu.
E ainda não percebeu que também marcou o primeiro gol da sua vida.
Cada fase possui a sua própria vitória
Um dos maiores erros que alguém pode cometer é utilizar o placar de outra pessoa para medir a própria caminhada.
Para uma seleção acostumada a ser campeã, um empate pode ser decepcionante.
Para um país estreante, esse mesmo empate pode ser histórico.
Para Messi, a Copa representa a oportunidade de ampliar um dos maiores legados da história do futebol.
Para Vozinha, representou a chance de ser visto pelo mundo depois dos 40 anos.
Para Cabo Verde, o primeiro ponto.
Para Curaçao, o primeiro gol e, depois, o primeiro empate.
Todos estão na mesma competição.
Mas não estão vivendo a mesma fase.
O mesmo acontece no empreendedorismo.
Para quem está começando, vitória pode ser conquistar o primeiro cliente.
Emitir a primeira nota fiscal.
Receber o primeiro pagamento.
Comprar a primeira ferramenta com o dinheiro do próprio negócio.
Ser indicado pela primeira vez.
Para quem está crescendo, vitória pode ser contratar o primeiro funcionário.
Organizar o caixa.
Criar um processo.
Parar de misturar o dinheiro da empresa com o dinheiro pessoal.
Fechar o primeiro contrato de manutenção.
Para quem já possui uma empresa consolidada, vitória pode ser formar novos líderes.
Construir uma operação que não dependa de sua presença o tempo inteiro.
Recuperar a saúde.
Ter mais tempo para a família.
Preparar a sucessão.
E, para quem está atravessando uma crise, vitória pode ser simplesmente não fechar as portas.
Renegociar uma dívida.
Reconquistar um cliente.
Pedir ajuda.
Voltar a acreditar.
Não permita que alguém despreze uma conquista apenas porque ela parece pequena quando comparada à realidade de outra pessoa.
O primeiro contrato de um pequeno empreendedor não pode ser comparado ao faturamento de uma companhia construída há décadas.
O primeiro salário de um jovem não pode ser comparado ao patrimônio de alguém que já trabalha há 30 anos.
O primeiro serviço de um profissional autônomo não pode ser comparado ao grande contrato de uma empresa consolidada.
O problema não está em admirar quem chegou mais longe.
O problema começa quando você transforma a chegada do outro em prova de que está atrasado.
Comemore, mas não monte residência no primeiro gol
Reconhecer pequenas vitórias não significa conformar-se com resultados pequenos.
Curaçao deve comemorar seu primeiro gol.
Mas também precisa estudar por que sofreu sete.
Cabo Verde deve celebrar o empate contra a Espanha.
Mas não pode entrar no jogo seguinte acreditando que sua missão já foi cumprida.
Todo nível traz uma conquista que merece celebração.
E todo nível revela uma deficiência que precisa ser corrigida.
Quem está começando precisa melhorar a execução.
Quem já executa bem precisa aprender a vender.
Quem vende precisa aprender a controlar o dinheiro.
Quem cresceu precisa aprender a liderar.
Quem lidera precisa aprender a formar novos líderes.
Quem conquistou precisa aprender a permanecer relevante.
E quem já venceu muitas vezes precisa descobrir como transformar experiência em legado.
Celebrar sem avaliar produz acomodação.
Avaliar sem celebrar produz ingratidão.
A maturidade está em fazer as duas coisas.
Olhar para trás e reconhecer o quanto você avançou.
Depois olhar para frente e admitir o quanto ainda precisa melhorar.
Você pode agradecer pelo primeiro gol sem esquecer que a partida continua.
Propósito não é o mesmo que ambição
A ambição pergunta:
“Qual taça eu quero levantar?”
O propósito faz uma pergunta mais profunda:
“Quem preciso me tornar durante a preparação?”
Porque nem todo mundo levantará a taça.
Nem todo profissional será famoso.
Nem toda empresa se tornará uma multinacional.
Nem todo empreendedor construirá um negócio milionário.
Mas todos podem trabalhar com dignidade.
Todos podem servir bem.
Todos podem desenvolver seus talentos.
Todos podem sustentar suas famílias.
Todos podem melhorar a vida de alguém.
Todos podem deixar um lugar melhor do que encontraram.
Uma vida com propósito não é necessariamente uma vida cercada de grandes troféus.
É uma vida em que o esforço possui direção.
Em que o trabalho tem significado.
Em que o talento serve a alguma coisa maior do que o próprio ego.
Propósito é o que faz um atleta continuar treinando sem saber se será convocado.
É o que faz um empreendedor abrir a empresa depois de um mês difícil.
É o que faz um profissional estudar quando ninguém está cobrando.
É o que faz alguém continuar plantando quando ainda não consegue enxergar a colheita.
O propósito não elimina o cansaço.
Mas explica por que ainda vale a pena continuar.
A vida abre o campo todas as manhãs
Para chegar à Copa do Mundo, muitos atletas esperaram quatro anos.
Alguns esperaram muito mais.
Você, porém, não precisa esperar quatro anos para começar a escrever uma nova história.
Pode fazer isso amanhã de manhã.
Pode acordar um pouco mais cedo.
Retomar um curso que abandonou.
Enviar aquela proposta.
Telefonar para um antigo cliente.
Organizar suas contas.
Pedir perdão.
Procurar ajuda.
Voltar a treinar.
Dar o próximo passo.
Talvez a sua vitória de hoje não seja levantar uma taça.
Talvez seja simplesmente voltar ao campo.
Talvez seja conquistar o primeiro cliente.
Talvez seja marcar o primeiro gol depois de uma sequência de derrotas.
Talvez seja sobreviver a uma fase que você pensou que não conseguiria atravessar.
Talvez seja compreender que o seu caminho não precisa parecer com o caminho de ninguém.
Respeite a fase em que você está.
Celebre o que já conquistou.
Corrija o que ainda precisa melhorar.
E não abandone o treinamento apenas porque a sua grande oportunidade ainda não chegou.
O mundo pode levar anos para conhecer o seu nome.
Mas isso não significa que o seu trabalho ainda não tenha valor.
A Copa oferece a muitos jogadores uma grande oportunidade a cada quatro anos.
A vida oferece a você um novo campo todas as manhãs.
Entre nele.
Talvez você ainda não esteja disputando a taça.
Mas, enquanto continuar dando um passo de cada vez, a sua história ainda estará sendo escrita.
E nem toda vitória precisa levantar um troféu para merecer ser celebrada.
Luciano Couto Gomes é empreendedor, mentor de negócios e colunista da Notícia Urbana. Escreve sobre empreendedorismo, liderança e comportamento para profissionais técnicos que desejam construir negócios e carreiras sólidas.









