Preciso pedir licença a vocês. Não vou poder seguir hoje no assunto de sempre dessa coluna, porque estou indignado com o escândalo dessa semana, e preciso trazer isso pra conversa antes de qualquer outra coisa. Sei que essa coluna nasceu pra falar de Campos, e é justamente por isso que insisto: o que aconteceu em Brasília não fica em Brasília. Ele chega até aqui, no seu bolso, no seu negócio, na sua confiança (ou falta dela) em quem manda.
Se você já assistiu à série The Boys, conhece bem a sensação de nojo e impotência que a trama provoca. Na tela, super-heróis idolatrados pelo público vestem capas coloridas, sorriem para as câmeras e fazem discursos sobre justiça e moralidade. Mas, nos bastidores, quando as portas se fecham, eles são deuses sociopatas, pervertidos e corruptos, que riem da cara dos humanos comuns, tratando-os como insetos descartáveis.
Não precisamos de assinatura de streaming para assistir a isso. Basta olhar para Brasília. O Supremo Tribunal Federal e a cúpula do poder brasileiro formam a nossa própria “Vought International”, uma corporação de intocáveis que usa o verniz da lei para justificar o injustificável, financiada com o nosso suor, com dinheiro público e com o capital de um compadrio corporativo que exala corrupção.
Chegou a hora de darmos nomes aos bois, porque o anonimato é o escudo dos covardes.
Não estamos falando de uma “crise institucional” abstrata. Estamos falando de Gilmar Mendes, o decano que se move nos bastidores com a desenvoltura de um Don, citando a máfia com uma naturalidade que deveria gelar a espinha de qualquer cidadão. Estamos falando de Flávio Dino, que mal esquentou a cadeira e já se arvora a imperador, ofendendo e ironizando o presidente da Câmara, não por grandeza moral, mas pela arrogância de quem sabe que tem a caneta suprema e nenhuma urna para lhe cobrar a fatura.
A prova do crime não está apenas nas sentenças, está na estética. Preste atenção naquelas fotos que de vez em quando vazam dos bastidores, após os jantares em Lisboa ou Nova York, ou nas antessalas do poder. Eles estão sempre rindo. É o riso frouxo e cínico de quem se sente deus inatingível. Eles riem da nossa cara. As festinhas deles, regadas a vinhos caríssimos e hospedagens que custam o faturamento anual de uma pequena empresa, são pagas com a nossa submissão.
O que isso tem a ver com quem produz?
Tudo. Para quem está no mercado real, construindo empresas, gerindo equipes nos comércios, lidando com a brutalidade de fazer um negócio dar lucro no Brasil, essa realidade é um tapa na cara diário. Enquanto você quebra a cabeça para otimizar um contrato de manutenção ou treinar um vendedor para ele crescer na empresa, eles mudam a regra do jogo tributário numa tarde de terça-feira para cobrir o rombo das próprias farras.
O custo desse Olimpo promíscuo é embutido no seu imposto, na taxa de juros que acaba com o seu caixa e na insegurança jurídica que afasta qualquer investidor sério do país. Aquele riso deles nos bastidores é financiado pela sua DARF, pelo seu SIMPLES NACIONAL que de simples, só tem o nome. Nós somos os figurantes na série deles, os humanos que pagam a conta da destruição quando os “heróis” decidem brincar com a economia e com as leis.
O que podemos fazer?
A indignação estéril não resolve. Como cidadãos honestos pagadores de impostos, homens de negócios e construtores de realidade, precisamos de pragmatismo estratégico diante desse cenário:
- Destituição moral imediata. O primeiro passo é parar de chamá-los de “Vossa Excelência”. O sistema se alimenta da reverência. Não podemos tratar como autoridades morais aqueles que operam como uma confraria. O nojo deve substituir o respeito institucional. Espalhe essa visão. Desconstrua a aura de santidade dessa casta em cada círculo de influência que você tiver. O Decano Gilmar mendes disse: “Quem não se dá respeito, não merece respeito”. E Ainda não parou por ai. Ele citou a Máfia Italiana como exemplo de caráter. Que coisa nojenta!
- Blindagem de patrimônio e modelo de negócios. Se o Estado é o seu maior inimigo e o STF é o guardião desse inimigo, nem seu negócio nem as suas finanças podem depender deles. A lógica de crescimento deve ser baseada em caixa forte, internacionalização (quando possível) e modelos de receita recorrente que fiquem fora do radar das grandes canetadas regulatórias. Crie fossos de proteção ao redor do seu dinheiro.
- Formação de gente livre (o jogo longo). Não é só treinar o seu time pra virar gerente. É formar gente com mentalidade empreendedora, cidadão independente, gente com acesso a educação de qualidade o suficiente pra questionar, não só pra obedecer. E isso começa dentro da sua própria empresa: sente com seu funcionário, converse de verdade, trate bem, incentive ele a crescer e a querer ganhar mais, mesmo que isso signifique ele um dia sair pra abrir o próprio negócio. O político se aproxima do cidadão de quatro em quatro anos, e ainda assim se aproxima. Nós, empresários, precisamos aprender a nos aproximar todo santo dia. É o jogo do fortalecimento, não o jogo do controle. Um povo formado, questionador e bem tratado é o maior pesadelo de quem se acha dono do poder.
- Parar de eleger e se unir a quem só piora. Empresário não pode continuar se unindo a político que está há 30, 40 anos no poder sem entregar nada. Nossa cidade não tem ônibus decente. Não tem infraestrutura. Tem esgoto correndo a céu aberto. Tem um dos piores salários reais do país pra quem trabalha. Vamos continuar reelegendo essa mesma turma porque é mais confortável, ou vamos, enquanto empresários, nos aproximar do pequeno, do médio, do micro empreendedor e do cidadão comum, falando com eles em vez de falar só com quem já está no poder?
- O cidadão precisa romper com isso. O político só aparece perto de você em época de eleição, cheio de reunião marcada, prometendo tudo, se fazendo de vítima, falando mal de todo mundo, menos de si mesmo. E o campista vai, participa, e não cobra nada. A pergunta que precisa vir antes de qualquer promessa é: qual o currículo desse candidato? O que ele já entregou de fato? Se essa pessoa já pediu voto antes e não entregou, se ela participou da degradação de Campos, ela precisa ser excluída da sua lista de confiança. Se ela está alinhada com esses togados, com esses poderosos que riem da nossa cara, ela também precisa ser excluída. Dizer não a ela é o mínimo que devemos a nós mesmos.
Sim, essa coluna de hoje é também um desabafo. Mas é um desabafo com direção: nós precisamos romper com isso.
A casta que hoje ri nos salões de Brasília só tem poder enquanto nós consentimos em sustentar o espetáculo. Quando a plateia levanta e vai cuidar da própria vida, o teatro desmorona.









