Por Luciano Gomes do Couto
Depois do almoço, com a cidade ainda de barriga cheia, Rosana puxa o carrinho de dentro de casa.
Na véspera ela já deixou tudo pronto: o milho separado, o óleo medido, os saquinhos dobrados dentro da caixa e o cartaz com o preço escrito à mão, em letra grande. O carrinho tem uma roda que range, e ela nem repara mais.
Antes de seguir, um aviso. A Rosana não é uma pessoa só. Eu montei a personagem juntando coisas que a gente vê em qualquer esquina de Campos, e os números dela, mais pra frente, são inventados, servem só de exemplo. Prefiro assim a expor alguém de verdade ou chutar o faturamento de uma pessoa real.
A esquina que ela escolheu não foi sorte. Tem uma escola de um lado, o ponto de ônibus do outro e uma agência de banco na frente, ou seja, três correntes de gente passando com fome e com pressa. Ela aprendeu isso na marra, porque nos primeiros meses ficou num lugar bonito onde ninguém parava.
Chega às quatro, liga a máquina e começa o trabalho que curso nenhum de marketing ensina direito.
Como a rua compra
O primeiro anúncio é o cheiro. A pipoca saindo da máquina toma conta da esquina e faz o papel de um outdoor que não custa nada. Depois vem o barulho do milho estourando, que faz quem está de cabeça baixa no celular levantar o olhar.
Uma coisa que eu acho esperta é que fila atrai fila. Se uma criança pede, logo tem mais três atrás, e quem passa pensa que deve estar boa. A Rosana sabe disso e nunca deixa a máquina parada nos primeiros minutos, mesmo sem cliente nenhum. Ela cria o movimento até o movimento de verdade chegar.
Ela também chama o freguês pelo nome. “E aí, Pedro, hoje vai a grande?” O pai do Pedro nem lembra que disse o nome do filho uma vez só, mas ela lembrou, e isso pesa mais do que qualquer desconto.
No fim da tarde o QR code do Pix já está colado no carrinho e sai sempre a mesma pergunta: “Quer levar mais um pra casa?” Cada “quero” é uma venda a mais que não deu trabalho nenhum.
Quando o movimento esfria, ela pega o celular e posta um story rápido, “saiu quentinha, estou aqui até as sete”, para uma lista de contatos que foi crescendo um cliente de cada vez. É aí que o carrinho descobre que tem um segundo balcão.
O segundo balcão é o celular
À noite, lavando a máquina, o telefone vibra. Uma mãe quer cinquenta saquinhos para o aniversário do filho no sábado. Outra pergunta se ela entrega. Uma terceira só manda um joinha no story.
Parece pouca coisa, mas é o que está acontecendo no país inteiro, e em Campos também. Numa pesquisa do Sebrae com mais de 8,2 mil empreendedores, feita em fevereiro e março de 2026, 75% dos MEIs disseram que já vendem pela internet. O WhatsApp é usado por 82% dos MEIs e das micro e pequenas empresas, o Instagram por 57%, o Facebook caiu para 30% e a loja virtual própria aparece com só 10%. O Mercado Livre, que é o marketplace mais usado entre os pequenos, tem 7%.
Quer dizer que a vitrine do dono da calçada, hoje, é o WhatsApp. Ele não precisa de site nem de loja virtual cara, precisa de uma lista de contatos, uma foto boa, preço claro e resposta rápida.
A logística também vem chegando perto. O Notícia Urbana noticiou em julho de 2025 que Mercado Livre e Shopee iam montar centros de distribuição em Campos, com cerca de 4 mil vagas entre funcionários e transportadores. A matéria não trouxe data nem valor de investimento, então eu não vou prometer prazo.
Enquanto isso, tem loja física que fechou e tem gente que nunca teve loja e hoje vende mais do que muita gente que tinha. É uma turma se reinventando em silêncio, sem coletiva de imprensa.
Quem é essa gente, em números
A Rosana é ficção. Os números abaixo, não.
- Segundo a PNAD Contínua do IBGE, divulgada em setembro de 2026, 65% dos empregadores e trabalhadores por conta própria do Brasil continuavam sem CNPJ em 2025. Só 35% tinham, o maior índice da série histórica.
- Segundo o Sebrae, os MEIs já são 78% das empresas abertas no país em 2026, mais de 1,59 milhão só entre janeiro e abril.
- Em Campos, um estudo acadêmico de 2026, com dados do Portal do Empreendedor, mostra a base de MEIs indo de cerca de 28 mil em 2021 para mais de 37 mil em 2023, uma alta de 31%. Em 2024, entre os registros mais comuns estavam 2.754 cabeleireiros, 2.611 lojas de roupas e acessórios e 1.389 lanchonetes, casas de chá e de sucos.
- O mesmo estudo sugere que boa parte desses negócios nasce por necessidade. Já a pesquisa GEM 2025, que é nacional, aponta que 42% dos empreendedores iniciais abriram por necessidade e 58% por oportunidade. Os dois casos existem: tem quem começou por falta de emprego e tem quem enxergou espaço.
O estudo sobre Campos tem algumas inconsistências nos totais, por isso eu uso só as ordens de grandeza e as contagens por atividade.
A conta da Rosana
Lembrando que os números a seguir são hipotéticos, não são o faturamento de ninguém. Troque pelos seus.
Digamos que ela venda o saquinho a R$ 6, trabalhe 26 dias por mês e gaste 25% do que fatura com milho, óleo e embalagem.
- Num dia fraco, com 40 saquinhos, são R$ 240 por dia e R$ 6.240 no mês. Tirando R$ 1.560 de insumos, sobram R$ 4.680.
- Num dia bom, com 100 saquinhos, são R$ 600 por dia e R$ 15.600 no mês. Tirando R$ 3.900 de insumos, sobram R$ 11.700.
Isso ainda é antes do gás, do transporte, das perdas e do valor do trabalho dela. Faturamento não é lucro.
Agora compare com o custo fixo que o guia do Sebrae para negócio de churrasquinho estima para quem monta um ponto fixo: aluguel de R$ 1.500 a R$ 3.000, salários e encargos de R$ 2.000 a R$ 4.000, mais água, luz, gás, internet, manutenção e taxas. Somando as faixas do guia (a soma é minha), dá de R$ 4.430 a R$ 9.250 por mês, antes de comprar o primeiro quilo de carne. A Rosana começa com essa conta quase zerada.
Só que de graça não sai. Ela paga com sol, com chuva, com freguês que aparece ou não aparece e com o risco da fiscalização. Em 2023, a Secretaria de Ordem Pública informou que a fiscalização dos ambulantes no Centro é diária e que a mercadoria pode ser apreendida. E tem o outro lado, que é o pedestre andando no meio da rua porque a calçada está tomada. Não dá para romantizar nem para demonizar.
O que a calçada ensina e muita empresa grande não sabe
Tem uma coisa que passa batida: a Rosana aprendeu a vender de verdade. Sabe escolher onde ficar, chamar a atenção, puxar conversa, oferecer mais um item, cobrar sem constrangimento e ouvir não sem desistir.
Isso vale muito. Tem dono de escritório bonito, de consultório grande, de loja no Centro, que tem tudo isso menos a capacidade de vender. Estrutura dá para comprar pronta, vender não, isso se aprende fazendo, e a calçada é uma escola dura e eficiente. Por isso eu tenho muito respeito por quem aprendeu na rua.
Quem não quer crescer não está errado
Preciso deixar isso claro: nem todo dono da calçada quer crescer, e tudo bem.









