No Brasil, mais de 6,5 milhões de pessoas dependem de cuidados diários por conta de deficiências ou doenças que limitam sua autonomia, segundo o IBGE (2022). Por trás desse dado, existe outro número ainda mais silencioso: a imensa maioria dos cuidadores são mulheres, muitas vezes parentes próximas — filhas, mães, irmãs ou esposas — que assumem, sem formação específica e sem remuneração, a responsabilidade integral pelo cuidado de idosos com Alzheimer, pessoas com deficiência ou doenças crônicas.
Esse papel, muitas vezes romantizado como “natural” ou um “ato de amor”, esconde uma realidade marcada por sobrecarga física e emocional, isolamento social e empobrecimento. Dados da Fundação Oswaldo Cruz mostram que mais de 70% dessas cuidadoras informais sofrem com ansiedade, insônia e sintomas de depressão. Além disso, muitas abandonam empregos ou deixam de estudar para se dedicar ao cuidado, o que aprofunda desigualdades de gênero e renda.
A pergunta é urgente: quem cuida de quem cuida?
Algumas iniciativas vêm tentando dar visibilidade e apoio a essas cuidadoras. Programas implantados em algumas cidades brasileiras, oferecem apoio psicológico, formação básica em cuidados de saúde e até grupos de escuta e acolhimento. Mas ainda são ações pontuais. O Brasil carece de uma política nacional robusta de apoio a cuidadores, com acesso a serviços de saúde mental, capacitação, remuneração ou descanso.
Mais do que uma questão individual, cuidar de quem cuida é um compromisso coletivo. Uma sociedade que valoriza a vida precisa valorizar também quem sustenta a vida de outros.
Cuidar de quem cuida é reconhecer, acolher e repartir o peso de um trabalho que nunca deveria ser solitário.









