Por Luciano Gomes do Couto
Nas duas últimas colunas, tratei do que chamei de elo perdido — o padrão histórico de Campos gerar riqueza e pioneirismo sem construir a ponte que leva isso até a própria população — e da mentalidade de casca grossa que precisa aprender a ser flexível pra atravessar a crise que o país vive agora. Hoje quero sair do diagnóstico e propor algo concreto. Não uma ideia pra prefeitura executar. Uma ideia pra um grupo de lojistas executar sozinho, num sábado, sem esperar autorização de ninguém além do óbvio.
Vamos falar da João Pessoa.
Uma rua que ainda resiste
Enquanto boa parte do centro histórico de Campos perdeu força nos últimos anos — só nos dois últimos anos, cerca de mil lojas fecharam as portas na cidade, e o centro chegou a ter 200 pontos comerciais vazios — a João Pessoa segue sendo uma das ruas que ainda pulsa. Isso não é acaso, é capital que já existe e que pode ser multiplicado. A pergunta que vale fazer não é “o que a prefeitura vai fazer pela João Pessoa”, é “o que os próprios lojistas da João Pessoa podem fazer pela João Pessoa”.
A ideia, em detalhe
A proposta é simples de entender e possível de executar em poucas semanas de organização. Os lojistas da rua se articulam — em associação formal ou só em grupo de WhatsApp bem coordenado — e criam um tour do comércio, periódico: todo sábado, quinzenal, ou uma vez por mês, o que for viável no início.
Traga gente de fora da rua, de propósito. Fretar alguns ônibus baratos e trazer moradores de bairros e distritos diferentes a cada edição — um sábado gente do Farol de São Tomé, outro do Morro do Coco, outro de Dores de Macabu. Rotacionar a origem do público garante que a cada edição chegue gente nova, que talvez nunca tenha ido à João Pessoa a passeio.
Peça à prefeitura só o que é dela. Uma única solicitação simples: fechar a rua pro trânsito naquele dia. Não é pedido de investimento, não é pedido de obra, não é pedido de verba. É gestão de espaço público — a parte que realmente cabe ao poder público, e nada além disso.
Transforme a rua em experiência, não só em vitrine. Mesas na calçada, os cafés e restaurantes servindo na rua, música ao vivo sem cachê fixo — artista de rua se apresentando pela visibilidade e pelo chapéu — carrinho de pipoca, clima de feira. Ninguém volta por uma rua de lojas fechadas atrás de vidro. Todo mundo volta por uma rua que virou lugar de estar.
Capriche no primeiro contato — literalmente. Todo lojista, toda equipe, bem vestida, uniformizada, sorrindo, abordando o público que chega. As pessoas só entram onde tem gente, e a primeira impressão desse sábado decide se elas voltam sozinhas depois, sem precisar de ônibus fretado.
Por que isso funciona
O raciocínio por trás disso não é romantismo de coluna de jornal, é economia básica de comércio de rua: presença gera presença. Uma rua movimentada atrai mais gente pelo simples fato de estar movimentada — e uma rua vazia afasta pelo motivo inverso. O tour quebra esse ciclo de forma artificial no início, até que o movimento natural volte a se sustentar sozinho.
E há um ganho estrutural por trás do gesto simbólico: essa é exatamente a prova de esforço próprio que qualquer associação de lojistas precisa ter na manga quando for, sim, cobrar do poder público investimento maior depois — melhoria de iluminação, segurança, urbanismo. Quem já demonstrou que fez a parte que cabia a si mesmo tem muito mais força de negociação do que quem só pediu.
Quem pode ajudar a organizar
Não é preciso reinventar a roda institucional pra isso sair do papel. O Sebrae já tem estrutura de apoio a associações de lojistas e a ações de ativação comercial — é o tipo de parceria que qualquer grupo de comerciantes pode buscar diretamente, sem depender de verba pública, só de organização e vontade de se mover primeiro.
Isso já funcionou — e não uma vez só
Antes de qualquer um duvidar da viabilidade dessa ideia, vale mostrar que ela já foi testada, com sucesso, em cidades de porte parecido com Campos — no Brasil e fora dele.
Florianópolis, Rua Vidal Ramos. O caso mais próximo do que proponho aqui. A rua sofria exatamente o mesmo problema do nosso centro — comércio perdendo força pra bairro e pra shopping center. A virada nasceu de dentro do próprio comércio: mais de 30% dos lojistas aderiram a um projeto batizado de “shopping a céu aberto”, com gestão coordenada entre eles mesmos, como se fosse um shopping de verdade. Não veio de cima pra baixo — veio de um grupo de comerciantes que decidiu se organizar.
Francisco Beltrão (PR), Alto da Julio. Um trecho de avenida virou referência nacional depois que os próprios empresários locais assumiram a missão de transformar o espaço em um lugar convidativo pra compra com lazer e segurança. O diferencial reconhecido foi o marketing coletivo e a governança feita pelos próprios lojistas.
Ubá (MG), da “Praça do Lixo” a polo comercial. Um exemplo ainda mais radical: uma praça conhecida literalmente como “Praça do Lixo” foi revitalizada e hoje está se transformando num shopping a céu aberto ao longo de toda uma rua, gerando emprego e movimentando a economia da região.
Main Street America, Estados Unidos. O exemplo mais robusto de todos, em escala internacional. Lançado em 1980 pela National Trust for Historic Preservation especificamente para pequenas cidades — não metrópoles — o modelo já foi aplicado em mais de 2.000 comunidades americanas, gerando US$ 65,6 bilhões em novo investimento e mais de 556 mil empregos líquidos, com 260 mil prédios históricos recuperados. Só o programa do estado de Montana, com 38 cidades participantes, gerou mais de 1.070 negócios novos e 3.150 empregos desde 2005. O método se resume a quatro frentes que qualquer associação de lojistas pode copiar: organização (os comerciantes se articulando formalmente), design (cuidar da aparência da rua), promoção (eventos como o próprio tour que estou propondo) e reestruturação econômica (atrair o negócio certo pro espaço certo).
O padrão se repete em todos os quatro casos: o motor não foi um grande investimento público de origem. Foi um grupo de comerciantes decidindo agir coordenado, muitas vezes com apoio pontual da prefeitura — abrir uma rua, dar uma licença — mas com a virada real vindo de dentro do próprio comércio. Campos não estaria testando algo inédito ou ingênuo. Estaria repetindo, em escala de bairro, um modelo que já funcionou da Flórida ao Paraná.
O convite
Se você é lojista da João Pessoa, ou de qualquer outra rua comercial de Campos que ainda resiste, essa coluna é o convite direto: reúna os vizinhos de rua, marque uma conversa, e teste isso num único sábado. Não precisa ser perfeito na primeira vez. Precisa só acontecer.
E se der certo — e a lógica econômica por trás diz que vai dar — o modelo se replica. Outras ruas, outros polos comerciais da cidade, cada um com a própria identidade: gastronomia num lugar, artesanato em outro, história em outro. Um circuito de tours pela cidade inteira, nascido de dentro do próprio comércio, sem esperar que ninguém de fora resolva por ele.
Campos já provou, na sua própria história, que sabe fazer o que ninguém mais fez primeiro. A luz de 1883 não esperou o resto do país decidir se valia a pena. Agora é a vez do comércio de rua provar a mesma coisa, numa escala bem menor, mas com o mesmo espírito: não esperar, agir primeiro, e deixar o resultado falar por si.









