Em um gesto incomum para esta data, a Marinha do Brasil publicou em suas redes sociais uma mensagem celebrando o 15 de Novembro de 1889, dia do golpe de Estado que depôs o Imperador D. Pedro II e pôs fim à Monarquia Constitucional brasileira. Mais do que um simples post comemorativo, o ato chama atenção porque entra em profundo conflito com os valores que a própria instituição afirma defender.
Para compreender essa contradição, é necessário retomar brevemente o contexto do golpe. O Brasil vivia sob a Constituição de 1824, um marco institucional avançado para seu tempo, que garantia liberdades civis e estabelecia um regime de Monarquia Constitucional. As Forças Armadas, compostas pela Armada Imperial e pelo Exército, eram subordinadas ao poder civil, com o Imperador como Comandante Supremo. Os oficiais juravam fidelidade ao monarca, ao texto constitucional, à disciplina e à hierarquia — princípios fundamentais da cultura militar brasileira. D. Pedro II, respeitado internacionalmente, era visto como um chefe de Estado dedicado ao progresso, às liberdades civis e à estabilidade institucional.
A crise que levou à queda do Império é conhecida: após a abolição, parte da elite agrária rompeu com a Coroa, ressentida pelo fim abrupto do regime escravocrata. Paralelamente, setores do Exército carregavam desde a Guerra do Paraguai uma crescente insatisfação relacionada a prestígio, autonomia e soldos. Esses conflitos foram canalizados na figura do Marechal Deodoro da Fonseca, que, movido por pressões corporativas e rivalidades pessoais com o gabinete do Visconde de Ouro Preto, acabou rompendo com o governo e, posteriormente, com o Imperador. O golpe nasceu de motivações particulares e militares, não de uma demanda popular, e resultou na violação da Constituição de 1824, em crimes previstos no Código Penal do Império e na instalação de um regime republicano militarizado.
É nesse cenário que a posição da Marinha se torna decisiva. A Armada Imperial tinha tradição profundamente legalista e monarquista. Seus maiores heróis eram símbolos de lealdade ao Estado e ao ordenamento constitucional, como o Almirante Barroso e, principalmente, o Almirante Tamandaré, patrono da instituição. Tamandaré viveu os eventos de 1889 e posicionou-se firmemente contra o golpe. Demonstrou preocupação com a segurança do Imperador e de sua família, e chegou a alertar para possíveis atentados contra o monarca. Quando D. Pedro II recusou qualquer ação para evitar derramamento de sangue, Tamandaré assumiu pessoalmente a tarefa de escoltá-lo até a embarcação que o levaria ao exílio. Historiadores registram que havia receio de que oficiais insubordinados pudessem atacar o navio imperial em alto-mar. A presença de Tamandaré — o maior herói naval do país — foi suficiente para impedir qualquer tentativa dessa natureza.
Ao mesmo tempo, outro grupo de oficiais, liderados pelo então Capitão de Mar e Guerra Eduardo Wandenkolk, rompia com os valores fundamentais da instituição. Wandenkolk deu apoio ativo à rebelião, abriu os portões do Arsenal de Marinha para as tropas de Deodoro, facilitou o acesso dos golpistas aos recursos da Armada e trabalhou para neutralizar colegas legalistas que poderiam organizar uma reação. Sua insubordinação foi recompensada com uma promoção a Contra-Almirante logo após o golpe, simbolizando a inversão da lógica de mérito e a quebra explícita da hierarquia naval.
A Marinha, portanto, viveu 1889 como uma instituição dilacerada internamente: de um lado, o legalismo representado por Tamandaré; de outro, a ruptura institucional encarnada por Wandenkolk. Essa divisão explica por que, durante décadas, a Marinha evitou celebrar abertamente o 15 de Novembro. A instituição sabia que o golpe contrariava seus princípios basilares de legalidade, disciplina, fidelidade ao comando e subordinação ao poder civil.
É justamente por isso que o post comemorativo deste ano causa tamanha estranheza. Ao celebrar uma data marcada por insubordinação militar, por violação da Constituição e pela quebra da hierarquia, a Marinha contraria os próprios valores que afirma defender. A contradição se torna ainda mais evidente quando consideramos o discurso institucional recente contra qualquer ameaça de ruptura democrática, especialmente após os episódios de 8 de janeiro de 2023, frequentemente definidos como uma tentativa de ataque às instituições. Se a defesa da democracia e da legalidade é tão enfática no presente, comemorar um golpe militar de 1889 — um golpe real, bem-sucedido e conduzido por oficiais fardados — produz uma mensagem incoerente e confusa.
A celebração do 15 de Novembro, portanto, não é apenas um detalhe simbólico: ela compromete a consistência institucional da Marinha, que, ao festejar a ruptura de 1889, acaba por celebrar justamente aquilo que seus próprios valores condenam. A memória histórica não pode ser construída à custa da coerência entre princípios e narrativa. Quando a instituição homenageia um evento que violou a hierarquia, a disciplina, a lealdade e a legalidade, ela enfraquece o discurso que sustenta no presente e lança dúvidas sobre qual interpretação da história — e qual concepção de autoridade — deseja realmente defender.









