Em julho de 1992, Campos dos Goytacazes, já conhecida por seu fervilhante cenário musical, recebeu uma das maiores bandas do rock brasileiro: a Legião Urbana. A expectativa era enorme, e os ingressos para o show no antigo estádio Godofredo Cruz (antigo estádio do Americano Futebol Clube) se esgotaram rapidamente. A noite da apresentação foi marcada por uma energia contagiante, ficou para sempre na memória dos presentes.
O estádio, que tinha capacidade para mais de 20 mil pessoas, ficou pequeno perante a quantidade de fãs que vinham também de outras regiões vizinhas de Campos.
Márcio Silva, de 51 anos, que na época tinha 19 anos, relembra a euforia daquela noite de sábado: “A cidade estava bastante empolgada com a chegada da Legião. A chuva não intimidou ninguém.” Mas a euforia logo se transformou em tensão, quando muitas pessoas tentaram entrar no estádio sem ingresso, causando superlotação e uma grande confusão nos acessos do estádio.
À meia-noite, a Legião Urbana subiu ao palco, transportando o público para um cenário medieval com as canções ‘Love Song’, ‘Metal Contra as Nuvens’ e ‘A Ordem dos Templários’, do álbum ‘V’. A atmosfera mística criada pelos primeiros acordes logo deu lugar à euforia, quando a banda desferiu seus maiores sucessos. Hinos como ‘Será’, ‘Tempo Perdido’, ‘Pais e Filhos’ e ‘Vento no Litoral’ ecoaram pelo estádio, unindo milhares de vozes em um só coro.
No entanto, a noite que prometia ser inesquecível tomou um rumo inesperado. Segundo Márcio, o cantor não interpretou algumas das músicas mais esperadas pelo público, como “Eduardo e Mônica” e “Faroeste Caboclo”, o que gerou uma grande insatisfação. A situação se agravou quando, ao final do show, Renato Russo anunciou a última música, provocando uma reação violenta do público.
“O show estava indo muito bem, mas na parte final, Renato não cantou outros sucessos da banda, o que gerou uma revolta generalizada. Começaram a atirar cadeiras e a gritar. Renato Russo, visivelmente nervoso, tentou acalmar a situação, mas a tensão era grande. O público disparou cânticos homofóbicos contra Renato Russo, que era homossexual assumido. Renato, por sua vez, também disparou ofensas ao público, chamando-os pejorativamente de índios Goitacá. Por fim, o cantor afirmou que nunca mais voltaria à cidade. E infelizmente, a noite terminou dessa maneira, com o público e o cantor trocando ofensas”, relata Márcio.
A repercussão do show foi grande, e a imagem de Renato Russo, já fragilizada pelos problemas de saúde e vícios, foi ainda mais abalada. Após o incidente em Campos dos Goytacazes, a banda seguiu para o Espírito Santo e depois para o nordeste, onde a turnê foi interrompida abruptamente devido às crises do cantor.
A apresentação da Legião Urbana em Campos dos Goytacazes foi um momento marcante na história da cidade. Apesar de posteriormente a banda ter voltado aos palcos com outras turnês, Renato nunca mais voltou a cidade.
A banda encerrou as atividades com a morte do vocalista em outubro de 1996 em decorrência das complicações causadas pela AIDS.
A Legião Urbana alcançou um importante legado musical. A banda vendeu, até 2010, cerca de 14 milhões de cópias de seus discos, incluindo também os trabalhos solo de Renato Russo. Além disso, o conjunto musical registra mais de 7,5 bilhões de streams até abril de 2024.

*Matheus Alvarenga Gonçalves é um pesquisador e acadêmico do 6° período do curso de História da Universidade Federal Fluminense. Tem como principal área de pesquisa a História do Brasil Imperial









