sexta-feira, 28 agosto, 2026

Os leitores responderam: não foi a Shopee. Foi isso aqui.

Publiquei há alguns dias uma matéria provando, com dado, que o comércio de Campos não está quebrando por causa da Shopee. A reação surpreendeu: dezenas de comentários, muita gente discordando, muita gente concordando — e é justamente aí que está o valor de hoje. Porque quando comecei a ler comentário por comentário, um padrão apareceu sozinho, sem eu precisar forçar nada: o motivo mais apontado não foi a internet.

Reli tudo com atenção e separei por tema. Nenhum comentário citou a Shopee como causa isolada e suficiente. Assim ficou a divisão real dos motivos apontados pelos próprios leitores:

Cerca de 35% das falas apontaram transporte público como o motivo central — gente que mora em bairro afastado, tipo Ponta da Lama, Serrinha ou Tocos, esperando horas pra conseguir voltar pra casa, em lugares que muitas vezes nem Uber aceita entrar

Cerca de 20% falaram de segurança e abandono do Centro — sujeira, cheiro forte, pessoas em situação de rua, medo de ser assaltado

Cerca de 20% citaram atendimento ruim no comércio físico como motivo de preferir comprar online

Cerca de 20% apontaram aluguel e carga tributária alta como o que realmente sufoca o comerciante

Uma pequena fatia mencionou fatores externos, como concorrência de produto importado

Nenhum desses cinco motivos foi “a internet acabou com o comércio”. A internet aparece como consequência, não como causa.

A nostalgia que ninguém esperava encontrar nos comentários

O que mais me tocou lendo um por um não foi dado, foi sentimento. Teve leitora que escreveu que sente medo só de pensar em ir ao Centro, com cheiro de xixi, gente de rua, sujeira — mas fechou dizendo que era bom andar por lá, que era bom mesmo. Teve quem contasse que mora a poucos minutos do Centro e já desanima de ir; imagina quem mora longe. As pessoas não esqueceram do Centro. Elas sentem falta. O desejo de caminhar pelas ruas, tomar um café numa padaria antiga, sentir aquele movimento de gente na calçada — isso não morreu. O que morreu foi a possibilidade prática de fazer isso sem medo, sem esperar ônibus por horas, sem passar por rua imunda. Quando a pessoa finalmente consegue chegar, muitas vezes encontra o oposto do que sentia saudade: um Centro em caos.

O Centro não é o comércio de Campos — mas todo mundo mede um pelo outro

Tem uma confusão que aparece o tempo todo, inclusive nos próprios comentários da matéria anterior: as pessoas enxergam o Centro de Campos como sinônimo do comércio de Campos. Historicamente, fazia sentido — o Centro sempre foi o esplendor, a vitrine, a referência do que a cidade tinha de melhor pra oferecer. Só que o comércio de Campos hoje é muito maior do que o Centro. Guarus, o Parque Rosário, o distrito de Goytacazes, a Pelinca — vários desses lugares foram citados aqui mesmo nos comentários como polos comerciais fortes, alguns com “tudo o que precisa, até banco”. O comércio de Campos, como um todo, não está morto — ele se espalhou, se dividiu, se descentralizou.

O problema é que a régua emocional da cidade continua sendo o Centro. Quando alguém mede “a força do comércio de Campos”, mede naturalmente pelo Centro — e é exatamente aí que a nostalgia entra: o Centro carrega um peso simbólico que nenhum bairro novo consegue substituir, mesmo quando esse bairro está vendendo mais e melhor. Por isso a sensação de que “o comércio quebrou” é mais forte do que a realidade honesta dos números — o comércio não quebrou, ele mudou de endereço. O que quebrou, de fato, foi o Centro.

Por que isso importa mais do que parece

Transporte público, segurança e abandono urbano não são uma questão de gestão de loja, de catálogo digital ou de atendimento — saem da mão do lojista e caem direto na mão do poder público. Enquanto o comerciante pode, sozinho, resolver falta de site ou treinar melhor o vendedor, ele não tem nenhum controle sobre se existe ônibus decente saindo de Guarus, de Ponta da Lama ou de Tocos até o Centro, nem sobre a limpeza e a segurança das ruas por onde esse cliente precisaria caminhar.

Isso conecta direto com um assunto que essa coluna já vem tratando: a entrega — ou a falta dela — de quem ocupa cargo público em Campos. Não adianta cobrar só do lojista se boa parte do problema está numa decisão que nunca foi tomada, ano após ano, por quem deveria tomar.

O convite pra próxima etapa

A pergunta que fica, e que pretendo aprofundar na próxima matéria: por que, com todo o dinheiro que Campos recebe — já mostramos aqui que a cidade é a 5ª maior recebedora de royalties do Brasil —, o transporte público e a segurança do Centro continuam sendo apontados, ano após ano, pelos próprios moradores, como os maiores motivos de abandono da região mais simbólica da cidade? Se não foi falta de dinheiro, o que foi? Essa pergunta, vocês, leitores, já ajudaram a formular, com a própria nostalgia de quem sente falta de um Centro que já foi — e ainda poderia ser — parte do dia a dia da cidade.

Luciano Couto

Luciano Couto

Pense grande. Comece agora!

RelacionadaPostagens

Notícias Recentes

Welcome Back!

Login to your account below

Retrieve your password

Please enter your username or email address to reset your password.

Add New Playlist