A última segunda-feira (24/06) marcou os 129 anos do martírio do Almirante campista Luís Filipe de Saldanha da Gama.
Neste artigo, mostrarei os caminhos que levaram ao martírio de Saldanha da Gama em 24 de junho de 1895 em Campo Osório, na fronteira do Brasil com o Uruguai.
INTRODUÇÃO AO MARTÍRIO
Antes do Golpe Militar que instaurou a República no Brasil em 1889, o então Capitão de Mar e Guerra Luís Filipe de Saldanha da Gama tinha um incrível histórico de serviços prestados à nação. Saldanha da Gama serviu com bravura ao Brasil durante a Guerra do Paraguai, e recebeu as condecorações da Campanha Oriental, da Guerra do Paraguai, da Rendição de Uruguaiana e a do Mérito Militar.
Além disso, o militar era formado em letras e também era um exímio conhecedor de várias ciências e idiomas, qualidades estas reconhecidas pelo governo imperial brasileiro ao enviá-lo como represente do país às Exposições Universais de Viena (1873), Filadélfia (1876) e de Buenos Aires (1882).
A família do militar campista também tinha relações históricas com a Família Imperial Brasileira. O seu avô era o D. João de Saldanha da Gama, Sexto-Conde da Ponte e Governador da Bahia, foi o homem que acolheu D. João VI em sua chegada ao Brasil. Seu pai, D. José de Saldanha da Gama, foi criado no Paço Imperial após a morte de seu pai. D. José era amigo de D. Pedro I , e foi embaixador do Brasil em Viena, na Áustria. Desta forma, Luís Filipe não era um estranho no meio da realeza e muito menos era plebeu, era reconhecido como um militar de sangue nobre. Pedro Lafayette, um dos principais biógrafos do marinheiro campista, relata: “Não há, pois, em dizer-se que o almirante Saldanha da Gama pertencia a uma família, cuja nobreza de linhagem, nunca interrompida, vai desde os seus ascendentes mais próximos até as mais antigas dinastias da península Ibérica”.
Pelas mãos do Imperador D. Pedro II, Saldanha da Gama recebeu os títulos de Cavaleiro da Ordem de São Bento de Aviz, Cavaleiro da Ordem do Cruzeiro e Comendador da Ordem da Rosa e da Ordem de Nosso Senhor Jesus Cristo.
Após o período de beligerância com o Paraguai, Saldanha da Gama seguiu estudando e publicando estudos de natureza militar com a intenção de modernizar a Marinha do Brasil.
O GOLPE DA REPÚBLICA DE 1889
Em 15 de novembro de 1889, o governo e a monarquia constitucional foram depostos, os militares comandados por Deodoro da Fonseca tomaram o poder e rasgaram a Constituição Imperial de 1824. Neste momento de caos, o então Capitão de Mar e Guerra Saldanha da Gama se encontrava em Washington, EUA, representando o Brasil em uma conferência. Neste período, boa parte de seus colegas da Marinha traíram o Imperador sob o comando do Capitão de Mar e Guerra Eduardo Wandenkolk. Cabe destacar que Wandenkolk abriu os portões do Arsenal da Marinha para os golpistas do Exército tomarem os navios e armas que lá estavam. Por esta razão, apenas por abrir os portões do Arsenal da Marinha, o Capitão Wandenkolk foi promovido a Contra-Almirante pelo Deodoro da Fonseca.
Ao retornar ao Brasil no ano seguinte, Saldanha da Gama foi abraçado pelo novo governo da República, e o militar continuou servindo à Marinha, mas com um amargor profundo em razão da queda da monarquia.
Em uma conversa com o vice-presidente Floriano Peixoto, Saldanha da Gama afirmou que “se estivesse aqui no 15 de novembro, as coisas não aconteceriam como aconteceram”.
A PRIMEIRA REVOLTA DA ARMADA
Em razão do embate entre Deodoro da Fonseca e o Congresso Nacional em novembro de 1891, Deodoro decide fechar o Congresso e governar novamente por meio de decretos-leis. Como consequência, alguns militares da Marinha, como Custódio de Melo e o próprio Wandenkolk se apossam dos navios encouraçados e apontam os seus canhões para a cidade do Rio, ameaçando bombardear a cidade caso Deodoro não pedisse a sua demissão do governo.
Saldanha não adere à revolta, e se coloca em ação para enfrentar os seus colegas revoltados. Neste período, Saldanha foi promovido a Contra-Almirante pelo presidente Deodoro. Mas, o pior foi evitado com a renúncia de Deodoro da Fonseca em novembro de 1891, evitando momentaneamente um combate fratricida.
Após o fim do conflito, Saldanha da Gama foi chamado pelo Vice-presidente em exercício, Floriano Peixoto, para assumir a Escola Naval e cuidar da formação dos novos marinheiros. Saldanha se dedicou inteiramente em melhorar a formação dos seus alunos, cuidando principalmente para que estes jovens não viessem a se contaminar com o partidarismo político.
A SEGUNDA REVOLTA DA ARMADA
O segundo levante da armada, ocorrido em 1893, em comparação com o primeiro, foi bem mais extenso, complexo e sangrento. Segundo a Constituição Republicana de 1891, Floriano Peixoto deveria entregar o cargo de vice-presidente e convocar novas eleições, isso porque Deodoro não havia completado dois anos de governo, desta forma a Carta Magna previa a convocação de novas eleições. Floriano Peixoto, militar traiçoeiro e golpista que era, decidiu seguir governando a República e ignorou a Constituição. Dessa maneira, mais uma vez os militares da marinha entram em ação e exigiram a renúncia do Marechal através de um documento que ficou conhecido como “O Manifesto dos Treze Generais”, para nossa curiosidade, o Almirante Dionísio Manhães Barreto, um campista, assinou este documento.
Saldanha da Gama, ocupado com as funções de Diretor da Escola Naval, declarava neutralidade, e evitava se colocar de qualquer um dos lados do conflito. Com promessas e cargos, Floriano tentou trazer o Almirante Saldanha da Gama para seu lado, mas sem sucesso. Por outro lado, Custódio de Melo insistia para que Saldanha entrasse na revolta, mas também recebeu uma resposta negativa.
Saldanha da Gama detestava o militarismo, porém teve que rever sua posição quando Floriano ordenou o fechamento da Escola Naval. O marechal já desconfiava da quebra da imparcialidade de Saldanha da Gama, e temia que os alunos da Escola Naval adentrassem no conflito contra seu governo. Esta ordem do Marechal irritou profundamente Saldanha da Gama, forçando a entrar na Revolta ao lado de Custódio de Melo em dezembro de 1893. Vale ressaltar que a entrada de Saldanha da Gama na revolta causou muita vibração e euforia entre os alunos da Escola Naval, pois desejavam combater ao lado do homem que consideravam como um pai, um mestre.
COMANDANTE EM CHEFE DA REVOLUÇÃO FEDERALISTA
Após o almirante realizar um grande estrago ao Exército no Rio de Janeiro, para Floriano, capturar Saldanha da Gama era uma questão de honra. A humilhação que o Almirante campista impôs às tropas do governo foram muitas, mesmo usufruindo de poucos homens e recursos. As ações militares de Saldanha da Gama na Ilha do Governador e na Ponta da Armação conseguiram desmoralizar as forças legalistas no Rio de Janeiro. Dentre as várias batalhas que ocorreram na Baía da Guanabara, a mais importante e impactante ocorreu na Ponta da Armação, em Niterói. Saldanha da Gama, apenas com 500 homens, invadiu e conquistou uma fortaleza do Exército que contava com cerca de 3 mil militares. Este feito militar era tido como improvável, e merece ser lembrado como uma grande façanha na História Militar do Brasil.
Após destruir a fortificação do exército em Niterói, o Almirante pediu asilo a um navio português e seguiu para a Argentina sob proteção da bandeira portuguesa. Esta ação de Portugal acabou por desencadear a fúria de Floriano Peixoto, que estava muito próximo de eliminar o almirante rebelde que já estava enfraquecido e sem muitos recursos na Baía de Guanabara.
O asilo português aos revoltosos sob comando do Almirante Campista acabou por gerar uma crise diplomática terrível entre o Brasil e Portugal.
Percebendo que seu asilo no navio português seria revertido numa possível deportação ou prisão, Saldanha e seus homens fugiram do navio português e seguiram para o Uruguai. Neste período, o Almirante Custódio de Melo abandonou a revolução, e desistiu de lutar.
Em uma carta endereçada de Saldanha para um desertor, Saldanha da Gama desabafa: “O meu empenho é salvar a revolução, ou pelo menos a sua honra.”
Está claro, que os valores cavaleirescos eram bastante caros ao almirante, e em seu manifesto de dezembro de 1893, ele escreveu:
“[…] Ofereço a minha vida e de meus companheiros de luta em holocausto no altar da Pátria […]”
Gaspar da Silveira Martins era um dos Chefes da Revolução Federalista, que também tinha por objetivo depor Floriano Peixoto, e prontamente ofereceu ao Almirante o cargo de Comandante em Chefe da Revolução Federalista.
Vale destacar que nessa altura da Revolução Federalista (1895), as tropas já estavam cansadas e sem muitos recursos, Saldanha e seus homens trouxeram um pouco de esperança para os revoltosos quando adentraram nessa revolução do sul. Neste período, o mandato de Floriano Peixoto havia terminado, e seu sucessor, Prudente de Morais era visto por Saldanha da Gama como um “continuador das políticas florianistas”. Após o novo presidente tomar posse, muitos homens da revolução decidiram desertar e aguardar o perdão presidencial, porém o almirante não se deu por vencido, e dizia: “Só retorno ao Rio de Janeiro vencedor ou morto”. Saldanha ainda chegou a dizer que, no caso da vitória, auxiliaria o país a promover um plebiscito para decidir a forma de governo, e em seguida, iria pedir a sua demissão da Marinha.
A Revolução causou um grande desgaste psicológico ao militar campista, ele havia perdido amigos, alunos queridos e um sobrinho no conflito, para Saldanha, só restava a vitória ou o martírio.
O MARTÍRIO
Em 24 de junho de 1895, Saldanha e seus comandados se encontravam na fronteira do Brasil com o Uruguai. Muitos homens o abandonaram em razão do forte frio e da fome que se fazia presente nos acampamentos dos federalistas.
Às 9 horas da manhã, os sentinelas do almirante haviam avistado três colunas do exército marchando em direção ao acampamento do almirante, segundo os escritos de Roberto de Barros, havia uma força de 1.300 homens, sendo 800 infantes e 500 cavaleiros armados. Essa força era comandada por um legalista, o Gen. Hipólito Ribeiro.
O almirante tinha duas opções naquele momento crítico: fugir ou lutar até a morte. A segunda opção foi escolhida pelo chefe dos revoltosos, que naquele momento já estava tomado de bravura. Saldanha organizou suas tropas e deu ordens claras: a ideia era atrair a cavalaria inimiga para o centro do acampamento federalista. Desta forma, um grupo de lanceiros posicionados nos flancos do acampamento deveria disparar contra as forças do governo. A segunda defesa, formada por fuzileiros entrincheirados na retaguarda do acampamento, deveria atirar assim que os inimigos fossem para o centro do acampamento, em conjunto com os lanceiros.
Porém, todas as ordens do Almirante foram descumpridas. Quando as tropas do Gen. Hipólito chegaram ao acampamento, muitos federalistas “perderam a cabeça” e partiram para um ataque aleatório e desorganizado. Saldanha da Gama sabia que muitos dos seus homens não eram da marinha, eram soldados improvisados, homens sem experiência de guerra e sem treinamento. Mesmo assim, decidiu confiar neles, e pagou caro por isso.
Enquanto seus homens partiam de maneira desorganizada para enfrentar as tropas do governo, Saldanha ainda esboçou uma tentativa de reorganizar as tropas sob seu comando, porém os soldados já não obedeciam, e seguiam conforme seus próprios pensamentos.
Saldanha da Gama, acompanhado de dois alunos da Escola Naval, ficou inerte, e não queria fugir, assistia atônito o massacre das suas forças, diante disso, ficou esperando chegar a sua vez de perecer.
Quando as tropas do governo perceberam que o líder da revolução estava ali, parado e esperando a morte, logo se prontificaram em eliminá-lo. Os seus dois alunos da Escola Naval exclamavam pedindo para o almirante fugir, e ele, em silêncio, observava o aproximar de seus inimigos. Naquele momento, a sua decisão já estava tomada.
Salvador Tombeiro, militar das tropas governistas, se aproximou e disparou um golpe de lança em direção ao almirante, que nada fez para se defender. A lança atingiu a cabeça de Saldanha da Gama, logo em seguida, uma segunda lança foi arremessada e feriu de morte o almirante campista.
A Escola Naval também se fez presente no martírio de seu diretor, seus dois alunos acabaram falecendo com o seu mestre.
Com o fim da batalha, o corpo de Saldanha da Gama ficou desaparecido por alguns dias. Em 28 de junho, um grupo de batedores encontrou o corpo do militar campista em estado avançado de putrefação. O cadáver do almirante foi profanado, despido e mutilado.
Saldanha da Gama tombou como um espartano, não abriu mão do seu patriotismo e seus valores, pereceu tentando libertar o país de uma ditadura, e seguiu com seu dever, mesmo abandonado por muitos amigos de farda.
O almirante cumpriu com a máxima bravura e honra o seu dever.
No Brasil e no exterior a morte do almirante foi sentida, muitos jornais lamentavam a perda do herói campista, mas por outro lado, os jornais controlados pelo governo comemoravam a morte do militar campista.
Saldanha da Gama se tornou um dos heróis de Campos e da democracia, foi homenageado em sua terra natal com a criação do Clube de Regatas Saldanha da Gama, em 1906.
“[…] Dada por finda a nossa derrota
Temos cumprido nossa missão […]”
Trecho da canção do Cisne Branco, hino da Marinha do Brasil.

Matheus Alvarenga Gonçalves é um pesquisador e acadêmico do 6° período do curso de História da Universidade Federal Fluminense. Tem como principal área de pesquisa a História do Brasil Imperial.








